‘Emperor of Sand’, dos Mastodon: complexo, inovador e conciliador

10 JULHO, 2017 -

Mastodon. Se uma banda alguma vez acertou num nome que define a sua música, essa banda é Mastodon. Ao longo de 17 anos a banda de Atlanta, Geórgia constituída por Troy Sanders (baixo), Brann Dailor (bateria), Brent Hinds (guitarra) e Bill Kelliher (guitarra) tem-nos oferecido um leque musical muito amplo definindo ao mesmo tempo o seu próprio estilo e identidade.

Não é de ânimo leve que se parte para um novo álbum de Mastodon, pois partimos do princípio que vamos muito provavelmente ouvir um dos álbuns do ano e esse é Emperor of Sand.

Quem conhece de uma forma transversal a discografia da banda sabe que a sonoridade tem vindo a alterar-se. De Remission para o Once More Around The Sun nenhum álbum foi igual ao anterior, sendo por isso aceitável dizer-se que a banda tem vindo a “suavizar” o seu estilo. É também um facto que, em cada álbum, a banda explora um tema novo, tanto em termos conceptuais como musicais e talvez seja por aqui que podemos pegar no Emperor of Sand uma vez que este é um regresso dos Mastodon aos álbuns conceptuais depois de dois lançamentos (The Hunter e Once More ‘Round the Sun) em que a banda afastou-se do conceito de storytelling que definiu a sua discografia inicial.

Emperor of Sand fala sobre um viajante do deserto que é condenado à morte e as músicas falam sobre os sentimentos envolvidos quando uma pessoa tem essa sentença. Esta história serve de metáfora a várias experiências pessoais que os membros da banda tiveram nos últimos anos principalmente devido a problemas de saúde vividos nas suas famílias. O tema explorado é portanto a necessidade de sobreviver e tudo o que é colocado em causa quando a nossa continuidade, ou das pessoas com que nos preocupamos mais, é colocada em causa.

Em termos musicais é notório o objetivo da banda em focar-se mais nas melodias vocais, sendo que a componente de multivocalistas composta pelo Troy, Brent e Brann está ainda mais presente. Em inúmeras entrevistas os Mastodon referiram que este foi o ponto que a banda mais se focou em toda a pré produção do álbum – criar as melhores melodias de voz possíveis e cantadas pelo vocalista ideal – e o resultado é um álbum catchy com uma maior rotação de vocalistas.

Podemos dizer que o Emperor of Sand é uma mistura de todos os álbuns anteriores, com momentos tão pesados como o Leviathan (“Andromeda), tão cativantes como o Once More ‘Round the Sun (“Steambreather”) e tão progressivos e experimentais como o Crack the Skye (“Jaguar God”) e pegando neste último álbum muitos paralelos podem ser traçados pois ambos requerem serem ouvidos muitas vezes para se perceber bem todos os minuciosos pormenores musicais, bem como a história que os envolve e o papel de cada música na compreensão dos mesmos. Tal como o Crack the Skye, à medida que nos deixamos absorver pela música, Emperor of Sand cria um ambiente específico que se forma numa identidade musical única, com uma dinâmica e carga emocional própria. É curioso também referir que mais uma vez que, tal como em Crack the Skye, a banda convida Scott Kelly para cantar uma música (“Scorpion Breath”). Amigo da banda e vocalista dos Neurosis cujos guturais imediatamente reconhecidos só podem fazer com que os fãs do catálogo mais antigo da banda voltem a sorrir. Kevin Sharp, da banda Brutal Truth, foi outro dos vocalistas convidados, neste caso para dar a sua voz à parte final da música “Andromeda”.

Como highlights do álbum há que referir as músicas “Roots Remain” e “Jaguar God” como talvez as duas grandes e mais brilhantes faixas pela fantástica musicalidade e progressividade, alternando de forma exímia e delicada entre a complexidade musical e a simplicidade melódica. No entanto, também músicas como “Sultan’s Curse”, “Steambreather”, “Ancient Kingdom”, “Clandestiny”, “Andromeda” e “Scorpion Breath” mostram como a banda consegue explorar de forma fantástica as melodias vocais e mantém o álbum num ritmo elevado e consistente, mostrando tudo o que de bom se espera de uma banda como Mastodon. Finalmente temos que se referir também a “Show Yourself” como a carta fora do baralho neste álbum. Uma faixa “radio friendly” com um riff que só apetece pegar na guitarra para tentar dominar mas que no contexto geral do álbum se afasta do que são as outras músicas. Ainda assim, esta faixa deu origem a um hilariante videoclip que mostra a história de um grimm reaper incompetente cuja missão seria – sob pena de ser despedido caso não tivesse sucesso – matar todos os elementos da banda mas que sem querer ia matando os seus sósias.

Este é sem dúvida alguma um dos álbuns do ano – complexo tanto em termos líricos como musicais – e que consegue voltar a solidificar a posição dos Mastodon como uma das melhores e mais inovadoras bandas do século XXI. É um álbum que não desilude os fãs mais recentes mas que é também capaz de “fazer as pazes” com os mais antigos. Partiu-se com esperanças elevadas para ouvir um novo álbum de Mastodon e mais uma vez não desiludiu.

Texto de Pedro Piedade

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