Emiliano Fittipaldi: ‘Para Francisco, a pedofilia é uma questão secundária’

20 OUTUBRO, 2017 -

O investigador dos podres da Igreja Católica Emiliano Fittipaldi tem novo livro. Depois da corrupção, dedica-se à falta de ação do Vaticano contra a pedofilia.

O Vaticano pô-lo em tribunal por causa do seu último livro Avareza. E quanto a este, acha que eles vão fazer queixa de si outra vez?

Acho que não porque a escolha do Vaticano foi uma escolha estúpida, para além de ser contra a liberdade de imprensa. Mas o que mais os incomodou foi que ao me fazerem arriscar uma pena de prisão transformaram o meu livro num sucesso mundial e desta vez com Luxúria não voltaram a cometer o mesmo erro e a escolha política e estratégica que fizeram foi a de se calarem, o problema é que, assim, tudo o que eu escrevi aqui, que é muito pior do que escrevi em Avareza, acaba por ser automaticamente confirmado.

Mas o Papa não deve estar muito satisfeito consigo?

[risos] Não sei: o trabalho do jornalista é o de ver a diferença entre aquilo que o poder conta através da propaganda e a realidade. Para mim, o Papa é um dos poderosos deste mundo, respeito muito a fé e o papel religioso que ele tem, mas como jornalista tenho de avaliar a sua liderança. Em Avareza e Luxúria tento explicar quais foram os escândalos no Vaticano que ele não conseguiu ou não quis explicar. Não estou muito interessado no que o Papa pensa sobre mim, o meu interesse é que os leitores sejam instruídos sobre o que o Vaticano e o Papa fazem ou não fazem para acabar com a pedofilia e neste caso o Papa não conseguiu alertar o público sobre o que aconteceu.

Retrata-o como uma pessoa que fala publicamente contra a pedofilia, mas não faz o suficiente ou não faz nada dentro da Igreja Católica para erradicar esse tipo de comportamento.

Sim, acho que o Papa Francisco disse palavras muito importantes contra a pedofilia, disse que os pedófilos são como as Missas Negras, que são contra Deus e próximos do Diabo, mas é normal que um Papa diga essas coisas, seria muito estranho se dissesse o contrário. Incomoda-me, também na nossa profissão, que qualquer coisa que digam os líderes carismáticos, políticos ou religiosos, seja logo pensado como palavras relevantes e verdades inegáveis. Isso é propaganda e o jornalismo tem de ter muito cuidado com a propaganda. Então fui ver o que ele tinha feito para além das palavras. E o Papa promoveu para o C9 [Conselho dos Cardeais], que é o grupo que gere a Igreja Católica, três cardeais que no passado tentaram ocultar a história de padres pedófilos. Há uns meses foi afastado da Congregação para a Doutrina da Fé o cardeal Müller e foi posto no seu lugar o cardeal Ladaria, em apenas três dias descobri que esse cardeal, há dois anos, mandou embora um padre pedófilo [Gianni Trotta], mas quando enviou a carta ao bispo de Foggia a dar a notícia, disse-lhe que não dissesse a ninguém para evitar um escândalo entre os fiéis. Este ex-padre tornou-se treinador de uma equipa de futebol de crianças e violou metade da equipa. Estas crianças violadas são um peso na consciência de Ladaria. Este, que é o homem mais poderoso no Vaticano juntamente com o Papa hoje em dia, há três anos enviou uma carta igual a um bispo relativamente a um padre pedófilo que se chama Bernard Preynat, a minha sensação é que ainda hoje no Vaticano há cartas prefabricadas que dizem ‘fiquem calados’. Esta não é só uma questão imoral, mas uma questão jurídica e penal, porque nestes escândalos não só as vítimas não terão a sua justiça, mas os pedófilos que ainda estão em liberdade terão a possibilidade de fazer novas vítimas.

Há algo na Igreja, esse silêncio que faz lembrar a omertà, a lei do silêncio da máfia. Existe essa omertà na Igreja?

Não gosto de declarações escandalosas, como dizer que a Igreja é como a máfia, porque não é verdade. No entanto, ainda hoje na Igreja com o Papa Francisco é preciso lavar a roupa suja no interior do Vaticano, sem que ninguém veja. Se é uma atitude mafiosa, não sei, mas é, com certeza, uma atitude que mete nojo, sobretudo quando estamos a lidar com a vida de crianças.

Cita no livro que em maio de 2015, o Papa foi inadvertidamente gravado a dizer que achava que as denúncias contra o novo bispo de Osorno, no Chile, que ele havia nomeado tinham sido uma montagem da esquerda por não terem gostado da nomeação. Chega a dizer que ‘Osorno sofre, é certo, porque é estúpida’. Acha que é isso que Francisco pensa sobre os escândalos de pedofilia?

O que aconteceu em Osorno tem algo de incrível, porque o novo bispo é um dos alunos do padre Karadima [acusado de múltiplos casos de pedofilia], um dos bispos mais famosos em Santiago do Chile. Este bispo, Barros de seu nome, sabia tudo o que o padre Karadima fazia com as crianças, e o Papa Francisco resolveu nomeá-lo bispo, apesar de toda a cidade estar contra. Houve quase uma revolução contra a decisão. O Papa Francisco explicou a sua decisão a uma pessoa sem saber que estava a ser gravado e disse que eram tudo parvoíces, que era uma conspiração de esquerdistas e que as coisas não eram como os jornais contavam. Que tinha havido uma sentença a favor deste Barros e que já estava tudo esclarecido. Mentira, porque este Barros nunca foi julgado, só Karadima foi julgado e todas as acusações foram confirmadas, só que Karadima não foi preso porque os crimes já tinham prescrito. E a culpa da prescrição de quem é? Do cardeal Errázuriz, um dos amigos de Francisco no C9, que escondeu demasiados anos as denúncias contra Karadima. Francisco poderia dizer que não conhecia bem o cardeal Pell [arcebispo de Sidney que o Papa nomeou como seu braço direito para as finanças e cujo julgamento de pedofilia começou na semana passada] porque se encontrava em Buenos Aires e o outro em Sydney, mas conhecia muito bem Errázuriz e o caso Karadima. Francisco resolveu ignorar completamente a situação porque para ele a pedofilia é uma questão secundária do seu Pontificado.

Mas se se muda de política sobre um assunto, não é preciso ter-se cuidado quando se escolhem pessoas? Se se quer lutar contra a pedofilia, mesmo de forma secundária, porque se escolhem três cardeais que estão envolvidos nestes escândalos?

Porque ele prefere a fidelidade à batalha dos princípios. Errázuriz é amigo dele, provavelmente vamos descobrir daqui a alguns meses que ajudou a diocese de Buenos Aires desde um ponto de vista económico. Ainda não sei, mas estou a trabalhar nisso. E, com certeza, Maradiaga [cardeal hondurenho], de quem ainda não falámos, mas que é o coordenador do C9 e é um grande amigo de Francisco. O Papa não deu importância ao facto de Maradiaga ter protegido um padre da Costa Rica pedófilo, fugitivo da Interpol, que foi encontrado na cama com uma criança de oito anos pela mãe desta. Este padre pedófilo deu a volta à América do Norte, à América Central até chegar às Honduras. Em Tegucigalpa, que é a diocese de Maradiaga, encontrou hospitalidade durante seis meses. Maradiaga é alguém que em Roma, em 2004, quando houve o escândalo ‘Spotlight’, devido à investigação dos nossos colegas do Boston Globe, disse que o Boston Globe e a CNN eram bestas, amigos dos judeus de Israel, que as denúncias não eram verdadeiras e que o cardeal Law era um santo. Também disse que nunca denunciaria um padre ao FBI, mesmo que fosse pedófilo, porque os padres não são polícias. Um homem que diz esse tipo de coisas, dez anos depois, graças a Francisco, converteu-se num dos homens mais poderosos do Vaticano. É por isso que não acredito na revolução de Francisco.

Acredita que Francisco pense como Maradiaga, como Pell?

Não sei. Quando comecei a escrever na L’Espresso, não sobre Luxúria, mas sobre as primeiras investigações relacionadas com Pell, Francisco ia à sala de imprensa do Vaticano atacar-me diretamente, dizendo que eu era um jornalista que inventava coisas, que queria fazer um escândalo e assegurou ele, Papa, que defenderia sempre Pell até prova em contrário, isto foi há três anos. Ele já foi acusado de ter abusado de algumas crianças. Acho que é muito difícil que Pell venha a ser condenado porque são acusações muito antigas e difíceis de provar, mas isto não me interessa. Para julgar Pell desde um ponto de vista ético e moral não preciso dos juízes porque tenho documentos originais vindos da Austrália, de como durante 20 anos Pell defendeu pedófilos na Austrália e como tentou defender o dinheiro da Igreja em vez de ajudar as vítimas, que pelo contrário foram humilhadas, manipuladas e destruídas uma segunda vez. Se para a Justiça não são crimes, para mim são sentenças morais, éticas que deveriam impedir Pell de obter a posição que obteve. Francisco diz ‘temos que esperar pela Justiça antes de julgar’, não concordo, há questões de moral que não têm nada a ver com questões penais. Em casos de pedofilia envolvendo padres ou cardeais, Francisco sempre se preocupou em afastá-los, mesmo quando não havia questões penais pendentes. Salvo quando são amigos seus. Então, como é? Decide como ele quer? Não pode ser assim.

Então, ele protege os seus amigos e não a Igreja?

Exato.

Em todos estes casos de pedofilia e todo o silêncio, isso não é a Igreja a tentar sobreviver a dizer que é mais importante a Igreja do que o indivíduo, do que as vítimas?

É verdade, mas é uma tentativa muito estúpida, porque os escândalos aparecem. Se não consegues ter uma verdadeira transparência e fazer uma revolução, e tentas sempre esconder tudo, os fiéis afastam-se da Igreja. Ainda hoje em Itália e Espanha não há obrigação de denunciar à Justiça – não sei qual é a situação em Portugal – se um bispo souber que um sacerdote viola crianças. Em Itália, pode denunciar o caso só à Congregação para a Doutrina da Fé. Alterar esta lei demoraria um minuto ao Papa Francisco, mas não o faz. Dou um exemplo, em 2014, duas comissões da ONU, a Comissão Contra a Tortura e a a Comissão para a Defesa da Criança, pediram ao Vaticano que divulgasse as informações sobre os processos em curso na congregação sobre filhos de padres, pediu-lhes para retirarem a obrigação do silêncio em relação a este tipo de processo, porque se alguém falar destes processos secretos arrisca a demissão e a excomunhão, e não obteve qualquer resposta. Não sabemos nada sobre os 1200 processos que foram abertos nestes três anos de Pontificado sobre padres pedófilos em todo o mundo. São o dobro dos do Pontificado de Ratzinger [Bento XVI]. Fala-se sempre menos da pedofilia agora porque a propaganda do Vaticano é muito forte, mas os números oficiais que publico em exclusivo mostram que o fenómeno ainda é mais grave do que antes.

Mas há pessoas dentro da Igreja que querem mudar as coisas?

Sim, senão eu não conseguiria publicar documentos deste tipo… Estão muito desiludidos com o Papa Francisco, acharam que podia levar a cabo uma reforma pequena que tinha sido começada por Ratzinger, que fez qualquer coisa – Ratzinger foi um Papa que não teve sorte porque era muito pouco mediático, muito tradicionalista e conservador e, por isso, os jornalistas não gostavam dele, mas fez coisas importantes. As coisas que ele fez em relação à pedofilia, que não foi muito, mas duplicar o tempo para a prescrição dos crimes no Vaticano, mandaram embora quase 600 padres em poucos anos. O incrível é que Francisco fez muito menos.

A diferença é que Ratzinger era um académico, um homem de livros não um homem do povo e Francisco sabe que é popular…

Ele é extraordinário nisso, a comunicação de Francisco com os fiéis é realmente revolucionária. É a coisa em que ele está mais interessado, ser pastor das pessoas, ser um Papa ecuménico, aberto ao diálogo com as outras religiões. O Papa Francisco fez realmente algumas coisas notáveis, eu critico-o a partir da esquerda porque acho que num governo da Igreja fez pouquíssimo desde o ponto de vista económico, desde o ponto de vista da pedofilia e também desde o ponto de vista doutrinário. A revolução não se pode fazer só com as palavras, mas tem de se fazer com os atos.

No seu livro fala sobre um lobby gay, tem um capítulo só sobre isso. Que importância tem na Igreja a orientação sexual nas decisões que fazem ou influenciam?

Ainda se tem que contar bem a história da lobby gay, mas foi de importância crucial no primeiro Vatileaks e nas demissões do Papa Ratzinger. É um grupo poderoso, não sou eu que o digo é o próprio Ratzinger, numa biografia publicada há um ano, que refere a existência de um grupo de poder ligado à orientação sexual composto por cinco ou seis pessoas, sem referir nomes. Posso dizer que era um grupo perto de Ratzinger e de Bertone [secretário de Estado do Vaticano de 2006 a 2013], que geriu o poder durante os sete anos do Pontificado como um lobby, como um grupo muito unido que controlou as grandes riquezas do Vaticano e que destruiu as carreiras daqueles que se metiam com eles. Para travar este grupo, um grupo de apoiantes de Ratzinger começou a fazer sair uma série de documentos, a que se chamou Vatileaks 1. Posso dizer que este choque, esta guerra de documentos levou ao fim de Ratzinger. O lobby gay é ainda muito forte no Vaticano, para o ex-chefe da guarda suíça [Elmar Mäder, que ocupou o cargo de 2002 a 2008], seria como uma máfia que põe em risco a vida do Papa. Eu acho que é um pouco exagerado.

Se é um lobby tão forte, porque é que estes não lutam para mudar a doutrina da Igreja para os homossexuais?

Porque muitas vezes são compostas pelos homens mais conservadores da Igreja. É um paradoxo, mas é assim. Com certeza a doutrina não foi mudada porque o mundo conservador homossexual e heterossexual está em maioria. Francisco, deste ponto de vista, é considerado praticamente um herege. Nisto apoio muito a coragem de Francisco, uma coragem visionária, porque se a Igreja não mudar e não se abrir ao mundo, arrisca-se a entrar numa crise irreversível.

O Cardeal Pell ainda tem poder no Vaticano?

As histórias das acusações de pedofilia destruíram-no, foi suspendido do cargo de secretário da Economia enquanto espera o fim do julgamento. Mesmo que seja absolvido e retome o cargo será por pouco tempo até ser reformado. O tempo de Pell acabou.

O Papa disse que um dos cancros da Igreja é o clericalismo. Acha que isto tem alguma coisa a ver com isso? O problema do clericalismo?

Completamente. O clericalismo é o vício de uma parte importante da Cúria de Roma que olha só para os seus interesses e para o seu poder. Consideram-se príncipes da Igreja e vivem como se fossem faraós e que se defendem uns aos outros. Se isto se não é máfia, é muito parecido.

Acreditou que este Papa ia lutar contra este clericalismo?

Achava que ia fazer mais. Pelos vistos, não tem a força, nem a vontade de fazer o que prometeu. Já passaram quase cinco anos desde o início do seu Pontificado e, desde um ponto de vista económico, desde um ponto de vista doutrinário, desde um ponto de vista do governo, dos escândalos, nada mudou.

Ratzinger poderia ter feito melhor?

Não sabemos isso porque a história não se faz com ‘ses’. Ratzinger fez no campo da guerra contra a pedofilia algumas coisas, sempre demasiado pouco. Tinha acabado de começar e demitiu-se, por isso nunca vamos saber…

Entrevista de António Rodrigues / Parceria jornal i

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