Emicida: ‘O hip hop era o que a globalização devia ser sem ligar a dinheiro’

9 AGOSTO, 2017 -

Assume-se como alguém que é da cultura de resistência, mas pronto para empunhar o archote nos maiores palcos do mundo

Por ironia da História, muitas vezes repetida ao longo das 19 edições do Festival Músicas do Mundo, a terra que viu nascer Vasco da Gama alberga um dos eventos musicais mais plurais e diversificados, juntando músicos de todo o planeta. O processo dos Descobrimentos não foi um paraíso. “O tempero do mar foi lágrima de preto/ Papo reto, como esqueletos, de outro dialeto/ Só desafeto, vida de inseto, imundo/ Indenização? Fama de vagabundo/ Nação sem teto, Angola, Ketu, Congo, Soweto”, cantou o rapper brasileiro Emicida no palco do Castelo de Sines. Formaram-se longas filas para o ver. Na ponta delas, uma equipa da GNR revista os sacos e, às vezes, as pessoas, em busca de droga e algo mais. Em palco, Emicida lembra o orgulho de cantar e de poder estar em sítios como este. Mas que há muitas coisas ainda a fazer. “Eu nasci numa casinha pobre de madeira, numa favela, e estou cá.” Mas diz que mesmo cumprindo esse sonho de cantar, o pesadelo persiste. “Há pouco entrei pela porta de todo o mundo. Eu respeito os policiais que velam pela segurança de todo o mundo. Mas ao passar por eles, disseram-me, ‘tira o casaco que vocês, os do teu tipo, andam sempre armados’.” E recomeçou a cantar, poderia ser a letra da sua canção “Levanta e Anda”: “Quem costuma vir de onde eu sou/ Às vezes não tem motivos pra seguir/ Então levanta e anda, vai, levanta e anda/ Vai, levanta e anda.”

O concerto de Emicida faz-se de várias referências e homenagens. A primeira música é antecedida de uma passagem mítica de Cartola, de quem Emicida diz que é o grande historiador do Brasil, com os acordes de “Eu preciso me encontrar”. A meio da atuação em Sines soa o funk da favela, garantindo: “Eu só quero é ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é/ E poder me orgulhar/ E ter a consciência que o pobre tem seu lugar/ Fé em Deus.” Um discurso muito pouco consentâneo com Emicida, o rapper que reivindica que não há lugares onde não possa estar. Aqui fica uma conversa ao lado de Luís Oliveira, da Antena 3.

O tema precursor do rap e do hip hop dizia que “a revolução não seria televisionada”.

Do grande Scott-Heron.

Acha que, embora não televisionada, ela pode ser cantada em rima? 

Acho que sim. De repente, o digital até traz maiores possibilidades de ser twittada e facebookada, tem várias plataformas. Acho que a gente construiu uma coisa muito bacana a nível mundial: o hip hop era o que a globalização devia ser, sem ligar a estas coisas de dinheiro. Se for na Palestina, você vai escutar Shadia Mansour, mostrando a perspetiva daquela parte do mundo; se for ao Brasil pode escutar Criolo e Emicida. Assim como você vem aqui, você escuta Dialema, Capicua ou Valete. É paradoxal dizer isso, que nós fazemos uma revolução silenciosa, até porque a nossa é muito barulhenta. Mas a nossa revolução vai-se construindo e solidificando na rua de uma forma silenciosa a partir do momento em que a gente influencia uma geração que tem muita energia e desejo de mudança. Eu sou fruto daqueles artistas, que eu escutei, que vieram antes de mim e me formaram como gente.

Aliás, disse numa entrevista que aprendeu a ler e a gostar de livros nos discos, que essas foram as suas primeiras formas de chegar às histórias. 

A minha prática é essa. A música popular é o livro de História do povo, sobretudo nos países do hemisfério sul. Vejamos o caso do Cartola: quando você lê o livro de História do Brasil, muitas vezes, nos mais profundos e sérios, vão falar sobre a ditadura militar e dar uma perspetiva séria do que podemos chamar de asfalto. Mas se quiser uma imersão profunda no que é o Brasil e são os brasileiros, você tem que escutar o samba. É na poesia do Cartola que você vai entender como as pessoas viviam de facto. Por isso, eu me refiro a esse tipo de músicos como os grandes historiadores não oficiais.

Mas não é um falhanço até dessa capacidade revolucionária da música haver no Brasil 80% de negros na música e apenas 1% dos não brancos chegarem ao poder?

Paradoxos doloridos de um país como o Brasil. A estrutura racista é muito forte. É uma teia muito bem construída. Então, você precisa de ter um processo de consciencialização dura, longa e contínua para que as pessoas consigam compreender. Acredito que o momento caótico que o Brasil está passando, de alguma forma, também se deve a isso. Você não tem uma pluralidade verdadeira no Congresso, o que fez com que tudo pendesse para o lado da corrupção, que é a norma vigente nas camadas sociais que mandam no Congresso.

Estamos a aceitar o caráter emancipador do hip hop, mas o mesmo movimento que luta contra o racismo tem, nos seus telediscos – e não , não estou a falar do seu tema “Madagáscar” -, uma imagem submissa e de objeto sexual da mulher, quase como uma caricatura.

Caricatura em que sentido?

Basta ver alguns telediscos do gangsta rap?

Têm é que falar com os americanos, que chamam mulher de bitch, música atrás de música, não são os brasileiros, não. Não estou a dizer que no Brasil não haja sexismo. É preciso combater isso. Mas quem tem o hábito de tratar mulher preta de favela como sinónimo de vadia não é o meu país, não. (risos)

Gostei muito quando respondeu aos críticos da sua canção “Madagáscar”, que o acusavam de sexismo, dizendo que gostava mais do Twitter que do Facebook porque as pessoas só tinham 140 carateres para dizer disparates.

É mesmo isso. Essa limitação ajuda as pessoas a pensarem: “Pelo menos vou usar esse pedacinho com um pouco mais de inteligência.” O pouco com inteligência pode ser muito, não é, mano?

Luís Oliveira (Antena 3) – Como vê essa mudança: antigamente, o hip hop tinha de conquistar espaço, agora já está presente nos grandes palcos, como aqui nas Músicas do Mundo?

Isso acontece um pouco por todo o mundo. Acredito que não tem volta, isso é uma tendência global. Já é assim há muito nos EUA e costuma acontecer que o resto do mundo acabe por seguir o que os EUA impõem. Não sei como é em Portugal, presumo que seja semelhante, mas no Brasil a cultura hip hop ainda é muito underground. Isso construiu uma atmosfera de respeito e liberdade. Fundir com o mercado pode ser interessante. Participar do maior festival do mundo, também. Mas a gente também tem de valorizar aquilo que trouxe a gente até aqui. Se nos transformarmos num produto de mero entretenimento, talvez isso não dure muito. Se a gente lutar pela verdade e as raízes da cultura, a gente tem a chance de se solidificar e transformar as coisas de modo a que o mundo possa beber um conjunto de valores que parecem estar esquecidos.

Luís Oliveira – É interessante que nestes festivais se possam ouvir os problemas de São Paulo com o Emicida e depois ouvir um grupo árabe a falar dos problemas da sua gente?

A pressão é muito grande, mesmo que estejamos quase no mês de agosto. (risos) Sim, é isso que torna o hip hop importante, essa capacidade de expressar essa interculturalidade e essas reivindicações diferentes. E não é só geográfico, é importante que começam a expressar–se as reivindicações das mulheres e dos homossexuais. É a riqueza de perspetivas que vai permitir o hip hop dar um passo rumo à maturidade. Esta capacidade vê-se até em grandes discos da indústria musical. O último disco do Jay Z, falando dos americanos, foi um passo rumo à maturidade pouco habitual pela música rap no mainstream, sabe, ele abriu feridas que o tornam até vulnerável. Normalmente, não há essa capacidade de a indústria tocar na ferida. Quando você se coloca com os seus problemas comuns e o seu coração na mesa, você se mostra uma pessoa. Quando faz isso dá um grande passo. Se a gente for pensar, a cultura hip hop está nas vésperas de completar 50 anos. Pela primeira vez, você tem pessoas que são mais velhas e que consomem essa cultura. Há pessoas de 50 anos que nasceram e cresceram imersas na cultura hip hop. O movimento também se vai ver obrigado a amadurecer os seus pontos de vista. O componente tempo também é muito valioso para esse processo.

Não há o perigo de o movimento, em vez de se tornar mais sério, maduro, acutilante e crescer, apenas engordar?

Toda a gente engorda. É o caminho natural. Olha aqui a minha barriguinha. Isso não é naturalmente mau. (risos)

Não corre o perigo de ser reintegrada e expropriada pelo mercado? Fala de Jay Z como se fosse uma novidade, mas o Tupac já fazia muito mais há uns anos.

Mas há uma grande vantagem que o Jay Z tem acima do Tupac: é estar vivo. Eu acredito que o mundo precisa aprender a aplaudir os pretos vivos. É um hábito que a gente precisa criar e o Jay Z é uma excelente aula para isso: vivo e bem-sucedido. Esta evolução da cultura industrial pode trazer benefícios que não sejam só entretenimento. Mas acredito que a cultura de resistência sempre vai existir, porque essa é a raiz do hip hop. Não sei se ela será maioritária em relação à indústria, mas sempre vai existir.

Ámen.

Entrevista de Nuno Ramos de Almeida, publicada no nosso parceiro jornal i

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