Emanuel Oliveira: “Muita gente fez queimadas. Habituámo-nos a gerir a paisagem com fogo”

20 OUTUBRO, 2017 -

Analista de fogo e formador na área dos incêndios florestais vê muito a mudar para o país deixar de ter as piores estatísticas da Europa, a começar pela profissionalização do combate aos fogos

Emanuel Oliveira passou o verão a fazer simulações sobre incêndios florestais para a AFOCELCA, grupo com que costuma trabalhar nesta área. Tem o trabalho que a comissão de peritos que estudou Pedrógão Grande já veio dizer que faz falta no Estado para prevenir novas tragédias. Em junho, o analista já tinha avisado que incêndios violentos como o que chocara o país podiam repetir-se, inclusive este ano. Não quer acreditar que aconteceu. Em Espanha, para onde já tem feito trabalho de análise, ardeu muito menos. São muitas as diferenças. A essencial, defende, é a profissionalização do combate ao fogo, com equipas profissionalizadas a combater as frentes de fogo na floresta e os bombeiros voluntários a proteger as populações, se tal for necessário.

Quando fez o alerta em junho, imaginava que poderíamos mesmo ter uma nova tragédia este ano? 

Infelizmente repetiu-se e as condições foram idênticas. Foi muito pior do que esperava. Ainda hoje não acredito que perdemos tanta área, matas nacionais e principalmente o número de mortes. Arderam casas, polígonos industriais. Isto teve uma repercussão a nível planetário, só se assemelha a algo que já tinha acontecia na Califórnia ou na Austrália e estamos a falar da Europa.

Nunca tinha havido fogos com esta dimensão na Europa?

Se compararmos com países com mais área ardida, Itália ou Grécia, não vemos nada assim. Mas vamos esquecer a bacia mediterrânica que tem um clima muito mais árido que o nosso. Nós somos atlânticos, temos condições diferentes.

E mesmo assim ardeu a faixa atlântica.

Ardeu tudo. Tudo alimentado pelo estado dos combustíveis com esta seca. A humidade da vegetação estava abaixo da média dos últimos 25 anos.

Para lá das condições, o que falhou?

Este ano falhou muita coisa, mas vamos falar destes últimos dias. Fala-se terrorismo, fala-se de muita coisa mas parece-me que isso está longe da realidade.

A suspeita de uma rede organizada a deitar fogo ouviu-se também na Galiza.

Galiza e Portugal nisto são parecidos. Temos gerido a nossa paisagem, de gerações em gerações, sempre com o fogo. No Alto Minho muita gente estava a queimar sobrantes no dia 15.

A fase crítica foi prolongada, seriam queimadas clandestinas. 

E havia vigilância? O final do período  crítico estava marcado até 30 de setembro. Foi prorrogado até dia 15 de outubro. Eu vivo num espaço rural, na fronteira entre Paredes de Coura e Vila Nova de Cerveira. Saio de casa e estou na floresta. Quando chega ao final do período crítico e sabendo que há um anúncio de de chuva, toda a gente faz fogueiras. Os pastores também. Pensam assim: se queimar, o fogo vai-se autoextinguir porque vem aí chuva.

Mas o governo prolongou a fase crítica até ao final do mês.

Nas terras ninguém sabia de nada.

Faltou aviso à população?

Nós técnicos sabíamos, mas fazer chegar a informação à maioria das pessoas é difícil. Não houve nada nos telejornais. A função que também deviam ter os media neste caso não tiveram. Dizer que não se pode fazer fogueira, que dá multa, que pode provocar mortes…

A Proteção Civil também só reforçou essa mensagem no domingo. 

Na televisão falou-se sobretudo do alerta de ventos fortes e de chuva. Dizia-se vem aí o Ophelia, é a primeira vez que um furacão está nestas latitudes e vai trazer grandes problemas.

Como acompanhou esses avisos?

Estávamos a ver que aquilo era ridículo porque não ia entrar chuva, apenas muito vento. Houve vários modelos probabilísticos a dizer que não ia haver precipitação mas sim muito vento, que na média estaria acima dos 45km/h com rajadas que podiam alcançar os 90km/h.

A que horas se apercebeu da dimensão que os fogos estavam a ganhar?

Aqui tivemos um fogo que começou antes no Forno de Bico, paisagem protegida em Paredes de Coura. Agravou-se e não se conseguiu apagar até ao final do domingo. As coisas começaram a perceber-se, não sabíamos era que ia ter esta envergadura. E compreende-se a complexidade: a elevada carga de combustível vivo disponível, muito seco. Depois os tais ventos muito fortes tombam a coluna de fumo e permitem que as projeções criem focos secundários.

Até que distância?

Quilómetros. Caem numa cama de combustível seco e rapidamente desenvolvem, seja terreno agrícola ou até jardins.

Segundo as estimativas do sistema de monitorização EFFIS, o fogo de Santa Comba Dão e o de Oliveira do Hospital podem ter superado 100 mil hectares, o que seria uma fatia importante da área ardida este ano. Fogos podem ficar desta dimensão ou significa falta de meios?

É difícil dizer porque não conseguimos saber qual foi em concreto a estratégia de combate seguida. Agora, com os meios que estavam disponíveis, acho de facto difícil que fossem controlados. Isto aconteceu também na Galiza: o dispositivo de resposta foi reduzido no final do verão.

Mas Espanha tem mais meios aéreos. O governo já veio dizer que cá não voaram mais por não haver condições. Na Galiza não voaram?

Voaram. Tivemos um incêndio em Monção onde praticamente não havia meios. O incêndio atravessou o rio Minho e entrou em Pontevedra, para As Neves. Eles tinham lá dois Canadair.

E nós?

Nós não tínhamos nada.

Mas podiam ter voado?

Na Galiza, ali ao lado, estavam a voar. Estamos a falar a 500 metros uma coisa da outra. A diferença é o espaço do rio Minho. Não tínhamos meios aéreos disponíveis. Mas o problema está longe de ser só esse. A Galiza, como toda a Espanha, tem um combate profissional aos incêndios florestais e nós não.

É algo que recomendam os peritos que analisaram a tragédia de Pedrógão.

Vamos ao caso galego para ver as diferenças. Lá eles tiveram cerca de 100 incêndios e cerca de 7000 hectares de área ardida naquele fatídico dia 15, isto segundo EFFIS.

O EFFIS que para Portugal estima 200 mil hectares ardidos desde sábado.

Pois, não tem nada a ver. Tal como cá, eles também tinham as equipas reduzidas, mas houve um incêndio em Lobios que entrou pelo Gerês. Voltaram a contratar as equipas e contrataram meios aéreos. Nós não. Além disso a diferença está nas equipas que combatem os fogos. Cá temos os bombeiros voluntários, que estão vocacionados para várias emergências, seja socorro na estrada, pré-emergência médica, combate a incêndios urbanos, industriais e por fim incêndios florestais.

Em Espanha como é?

Não têm as mesmas equipas a fazer tudo, o que é vital. Têm os bombeiros que combatem os incêndios florestais e os bombeiros urbanos que estão, por definição, concentrados em zonas com determinado número de habitantes. Os polígonos industriais a partir de determinada dimensão têm também um parque de bombeiros. O socorro pré-hospitalar é garantido por empresas especializadas, não são os bombeiros que o fazem.

O que está a dizer é que não há um bombeiro que durante o ano está a levar doentes ao hospital e no verão tem de ir combater fogos florestais.

Precisamente. Mas em termos de combate aos incêndios, a diferença mais significativa é esta: quando há um incêndio numa zona de interface, entre floresta e povoações, o incêndio no sistema espanhol muda de nível. O nível 1 é quando só está em espaço florestal e não ameaça ninguém. Aí intervêm os bombeiros especializados em incêndios florestais, que é o nosso equivalente à Força Especial de Bombeiros ou aos GIPS da GNR. O nível 2 é quando ameaça habitações. Quando o nível sobe, são acionados os tais bombeiros urbanos, que seriam os nossos bombeiros voluntários. O que é que isto permite: que uns bombeiros continuem a combater o fogo e que outros estejam a proteger pessoas e bens.

Uma das críticas dos relatórios é que, para proteger pessoas e bem, deixam-se as frentes de fogo livres.

Pois e é assim que o fogo cresce. E depois  a própria interação de frentes, projeções, leva a novos incêndios. Que foi basicamente o que vimos acontecer todo o verão e agora num dia fatídico. As forças no teatro de operações em Espanha têm coordenações de diferentes, mas um diretor de extinção, uma pessoa que tem formação mas tem experiência. Pode ter começado por peão. Ninguém por ter uma licenciatura passa a diretor de extinção de um fogo de grande dimensão.

Já trabalhou em fogos florestais em Espanha. O que faz concretamente um analista?

Trabalho numa empresa que faz prestação de serviços de análise para a Galiza e cá por exemplo para a AFOCELCA. É um trabalho de pré-incêndio quase. É saber se há condições para um incêndio deflagrar e onde. Dou-lhe um exemplo concreto deste verão de um trabalho. O que eles queriam saber era se os incêndios que estavam a deflagrar no país punham em risco as plantações das empresas associadas, a ALTRI ou a Navigator. De quatro em quatro dias, fazia a previsão estratégica e comunicava a meteorologia de incêndio prevista que poderia desencadear fogos complicados em determinadas zonas.

E depois as empresas têm os seus meios para combater eventuais fogos?

Neste caso têm. Por exemplo o incêndio de Vila Velha de Ródão que passou o Tejo ali na zona de Gavião. A empresa estava preparada do outro lado da margem para parar o incêndio. E se for ver o perímetro, parou nos povoamentos florestais do grupo porque conseguíamos prever onde o fogo ia passar.

Conseguem fazer essas projeções com uma antecedência de quantas horas?

Trabalhamos em 24 horas, 12 horas ou seis horas, depende da dimensão do fogo, das condições meteorológicas.

Um dos alertas dos relatórios entregues ao governo é que essa análise e previsão não é feita pelo Estado.

Não é feita pela Proteção Civil, não é feita pelo Instituto de Conservação de Natureza e Florestas. Na Galiza um incêndio florestal tem um coordenador aéreo que tem um helicóptero de análise, contratado para sobrevoar os incêndios e coordenar os meios aéreos envolvidos. Tem computador a bordo, internet de banda larga, não há falhas nas comunicações.

Este verão chegou a haver um avião militar a sobrevoar o país.

Mas sem haver análise a bordo não funciona. Sobrevoa e tira fotografias, não temos ninguém a tratar essa informação. Cá faz-se um perímetro do incêndio a olhómetro, desculpe-me a expressão. E há outro problema. Nem um helicóptero nem aqueles aviões pequenos podem ir lagar água sem equipas terrestres para dar apoio. O que é que acontece em Portugal? Lança-se água para nada. Muitas vezes não há uma equipa de suporte em terra. Na Galiza há equipas helitransportadas, helicópteros que levam 18 homens preparados para o combate florestal.

Uma da proposta da comissão técnica de peritos é maior envolvimento militar nesta área. Faz sentido?

Fazer faz, mas vejo dificuldades na operacionalização e formação. A menos que se crie uma estrutura como a Unidade Militar de Emergências de Espanha.

Foi esse modelo que os peritos visitaram.

Sim, não sei qual será o custo disto. Penso que seria melhor reforçar equipas que já existem e estão mal utilizadas. Reforçar o corpo de sapadores florestais, que são as equipas que trabalham o ano inteiro no espaço florestal, que conhecem o território. Essas pessoas este ano não foram integradas no sistema e o serviço deles tem sido desvalorizado. Tem sido anunciado pelo governo que vão ser reforçados, mas têm de ter autonomia e integrado nas forças de combate a incêndios florestais.

Este sábado são esperadas medidas de fundo no conselho de ministros extraordinário. Qual é a expectativa?

Se calhar tenho expectativas elevadas de mais, mas creio que temos de exigir aos nossos governantes e políticos para que nos deixemos de partidarismos e acabemos com esta vergonha. Porque isto é anual. Não é 2017. Nós somos sempre os piores da Europa.

Os incêndios florestais deviam sair do Ministério da Administração Interna para o Ministério da Agricultura?

Sou um crítico da política dos três pilares. Dividem-se as responsabilidades para ninguém ter responsabilidades. Temos o pilar da prevenção, o pilar da vigilância e o pilar do combate. Isto hoje está espalhado em dois ministérios, Agricultura e MAI, entre o ICNF, a GNR e a ANPC. O MAI tem combate, fiscalização e vigilância. A Agricultura tem a prevenção.

Devia então estar tudo no mesmo ministério?

Como em qualquer país civilizado. Se querem pôr tudo no MAI, ponham tudo no MAI, mas normalmente nos outros países está no ministério que tutela as florestas, que tem o conhecimento e know-how. Isto não acontece só em Espanha e Itália, acontece nos EUA, no Canadá, na Austrália, até no Brasil. Tem de haver um único organismo a tutelar esta área. A segunda questão importante é o tal reforço da profissionalização.

Mas por exemplo em Pedrógão Grande e Góis estiveram no combate ao fogo 175 corporações de bombeiros.  Deixariam de combater os incêndios?

Os incêndios florestais exigem condições até físicas que a maior parte das nossas corporações não têm. Seriam chamados a proteger as populações quando um incêndio florestal põem em risco povoações e áreas urbanas. É para isso que os nossos bombeiros estão preparados e têm cada vez mais formação para tal. Se não fossem eles teriam ardido muito mais casas. Agora eles não conseguem dar resposta às casas e ao incêndio florestal propriamente dito.

E como poderiam ser reforçadas as equipas dos incêndios florestais?

Com o reforço das estruturas existentes: sapadores, Força Especial de Bombeiros e GIPS da GNR, para trabalharem o ano inteiro. No verão ou sempre que as condições exigissem, podiam recorrer-se a serviços privados como acontece em Espanha. Mas mesmo sendo privados ficam todos sob a tutela da entidade que coordena a resposta a incêndios. Vão para o terreno e até as fardas são iguais à do Estado, não há confusões.

Os bombeiros voluntários aceitariam essa divisão de funções?

Acho que para eles seria um alívio. Porque se não temos de exigir mais responsabilidades: qual é o exame físico obrigatório para um bombeiro poder ir para um incêndio florestal? Estamos a falar de um trabalho de grande desgaste, muitas horas, muita pressão física e psíquica. Quem é que se responsabiliza por esses homens? Que plano de saúde têm?

Em muitos eucaliptais ardidos veem-se novos rebentos já grandes.

O problema não está na espécie. Está na falta de gestão de qualquer espécie. O Pinhal de Leiria ardeu todo e era pinheiro. Há quanto tempo não havia gestão na mata de Leiria, fogo controlado?

Há quantos anos?

Acho que a última queima foi em 2009 e estamos a falar de queimas isoladas. Se uma mata nacional e uma área protegida não tem meios algo se passa. Se tivesse, se calhar não tinha ardido. Tem de haver gestão defensiva, com fogo controlado para eliminar a camada de caruma que se acumula durante anos. Fez-se se calhar desramações, prevenção e limpeza dos caminhos. Isso com certeza foi feito. O problema é o resto.

Para um analista, a mata de Leiria arder quase toda é algo concebível?

É um desgosto como cidadão, é algo surreal a dimensão do incêndio. Mesmo que não pudesse ser evitado um incêndio, era evitável que atingisse aquela dimensão.

Entrevista de Marta F. Reis / Parceria jornal i
Fotografia de Miguel Silva

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