Em ‘Pure Comedy’, de Father John Misty, a solução é rir perante a desgraça

13 ABRIL, 2017 -

Pure Comedy é o projecto mais recente de Josh Tillman mas o artista norte-americano não é um estranho no mundo da música. Conta já com oito álbuns em nome próprio, lançados entre 2003 e 2010, e foi durante quatro anos o baterista da banda folk Fleet Foxes. Mas a maioria do público provavelmente conhece-o pelo nome Father John Misty. O trabalho deste alter ego foi uma estreia tardia na carreira do cantautor mas é sem dúvida a sua faceta musical mais interessante. Fear Fun foi o projecto que o lançou, um começo apelativo a nível instrumental com uma escrita honesta, cheia de humor, sarcasmo e ironia. As letras de Father John Misty mostram um observador da condição humana, uma pessoa extremamente atenta a tudo o que o rodeia e que sabe expô-lo com humor, um ser humano que escreve metáforas sobre o seu viver em sociedade. E a instrumentação é rica, diversa e bem adequada à escrita. Em 2015 chega-nos o predecessor de Pure Comedy, o amoroso I Love You, Honeybear, o trabalho de um homem apaixonado, que não perdeu o seu lado humorístico com a sobrecarga de neurotransmissores e que mostra um cinismo crescente na sua escrita em relação a Fear Fun. É uma espécie de álbum conceptual sobre Josh e a relação com a sua mulher, a fotógrafa Emma Tillman, um projecto biográfico extremamente bem explorado.

A rica instrumentação com sopros e violinos de “Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)” é suavemente bela e a curta letra revela uma história de amor repentina, fugaz e rápida, igual a tantas outras mas contada da maneira brilhantemente subjectiva de Josh Tillman. “True Affection” tem uma batida inorgânica, electrónica, discreta e suave, e fala de como por vezes os telemóveis e as mensagens que se trocam, que nos aproximam nos momentos de saudade, parecem tão frias e impessoais, e não chegam para acalmar um coração apaixonado. Mas a melhor música deste segundo álbum é sem dúvida “Bored in the USA”, um testemunho sentido sobre a classe média, um relato sarcasticamente honesto sobre uma sociedade em declínio e uma balada onde Josh Tillman aponta tudo o que vê de errado na mesma. Este brilhante tema resume o álbum e o estado de espírito da personagem Father John Misty: um cínico cheio de charme, que nos consegue encantar com a sua falta de encanto por grande parte do que o rodeia. E em Pure Comedy, vemos um cínico a absorver as mudanças ridiculamente brutais na sociedade que despreza resultando numa evolução da crítica sarcástica do artista.

Capa de Pure Comedy

Este álbum é o projecto mais extenso de Father John Misty até à data, um álbum com mais de uma hora de música e muita coisa para digerir, repleto de críticas ao viver actual apontados através do seu olhar cínico já conhecido. A faixa título introduz o álbum expondo vários males que assolam a nossa sociedade, sendo que segundo o autor encarar a desgraça e o declínio da nossa existência com humor parece ser a resposta mais adequada. O piano e a voz lembram Elton John e a sonoridade meio blues que por vezes se ouve dá força ao sarcasmo inerente à letra. Acaba com uma frase final de revelação, do autor para o mundo, a certeza de que não há ajudas espirituais e só nos temos uns aos outros durante a nossa estadia na Terra. Em “The Memo” Father John Misty critica a arte moderna e várias formas de entretenimento, um tema também explorado em “Total Entertainment Forever”, uma das músicas mais mexidas do álbum em que o entretenimento é encarado como uma ferramenta para a dormência, para estarmos sempre ocupados, adormecidos sem pensar no que realmente interessa. O instrumental deste tema é rico, possante, com um bom arranjo de sopros e uma bateria sempre ocupada e as duas primeiras frases “Bedding Taylor Swift/Every night inside the Oculus Rift” mostram um comentário social bem construído e com piada, digno do irreverente artista.

É notória uma mudança na abordagem instrumental de Pure Comedy. Ao contrário de I Love You, Honeybear em que a instrumentação era rica, variada e forte, este novo álbum apresenta instrumentais mais contidos, com bastante piano e guitarra acústica. Mas os arranjos de cordas e sopros que também se ouvem ao longo deste projecto são bastante agradáveis ao ouvido. Destaca-se “Things That Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution”, com um arranjo magnânimo de sopros e cordas que eleva a atmosfera geral da música. A letra descreve uma perspectiva de um mundo pós-apocalíptico que sucumbiu às implicações nefastas do aquecimento global, retornando às raízes e à natureza que nos viu evoluir enquanto espécie. Mas apesar desses mundos inventados preencherem uma parte considerável de Pure Comedy, há espaço para a descoberta da psique da personagem Father John Misty, revelando inevitavelmente pormenores sobre a pessoa que o criou. “The Ballad of the Dying Man”, uma canção leve e despida de instrumentação complicada, fala de um homem assertivo no seu comentário social, que considera ser de importância vital na luta contra a ignorância mundial. Mas o auge desta exploração biográfia de Josh Tillman surge em “Leaving L.A.”, uma longa viagem que começa por descrever a saída do artista de Los Angeles e que se vai tornando progressivamente mais pessoal e intimista ao longo dos seus dez versos, um desabafo honesto e bem estruturado acompanhado de guitarra e o ocasional vibrar discreto de violinos.

É neste ponderar da realidade que Pure Comedy se destaca dos projectos anteriores. O autor está cada vez mais atento ao que o circunda, seja a divisão social  cada vez mais aparente da sua terra natal (através da pensativa “Two Wildy Different Perspectives”, que dispensa metáforas) ou o crescente narcisismo e abordagem individualista de culto ao eu descrito em “A Bigger Paper Bag” ou “The Memo” (nessa última música, a frase “Narcissus would have had a field day if he could have got online” resume bem esta abordagem de Father John Misty). Mas o seu pragmatismo pessimista não o deixa esquecer da inevitabilidade da sua existência atómica perante a imensidão imensurável do Universo, fielmente descrita em “In Twenty Years or So” (destaque para o primeiro verso “What’s there to lose/For a ghost in a cheap rental suit/Clinging to a rock that is hurtling through space?”). É um artista que aponta veementemente o dedo à sociedade e às pessoas absorvidas na sua vivência mundana que escolhem ignorar a fragilidade e a curta duração da vida humana, sem ele próprio nunca permitir a si mesmo esse esquecimento tão familiar ao mundo.

O terceiro trabalho de Father John Misty é uma espécie de ensaio, uma “dissertação” musical sobre a sociedade ridiculamente verdadeira da qual o artista faz inevitavelmente parte. É sem dúvida o seu trabalho mais honesto: se em I Love You Honeybear estávamos perante um cínico apaixonado, neste novo projecto vemos um homem que confronta os seus medos e o seu lugar na sociedade de forma real e bastante introspectiva. É um álbum pensativo e que certamente fará mais sentido para quem já conhece e está familiarizado com a discografia de Father John Misty e a personagem criada por Josh Tillman, com o lado sarcástico, humorístico e cínico que o cantautor norte-americano tem vindo a mostrar. Pure Comedy é um álbum sobre perceber que no final do dia temo-nos uns aos outros. O mundo imperfeito, colado aos smartphones e a uma realidade cada vez mais digital, o mundo hipócrita e preso na sua prisão de crenças e dogmas, unido numa passividade dormente, esse mundo é tudo o que temos nesta passagem efémera pelo universo. O humor, o sarcasmo e o cinismo são respostas por vezes válidas neste mundo cada vez mais desapontante mas há que saber aproveitar as coisas boas que surgem da vida e essa é a mensagem que fica do álbum: o cínico personagem Father John Misty não se sobrepõe ao comum mortal que é Josh Tillman, um observador nato com os seus ideais, as suas virtudes e as suas falhas de carácter, mas que sabe apreciar o lado bom da sua existência. Porque no final da vida, antes do último suspiro e da última passagem pelo feed de notícias de uma qualquer rede social, relembramos os melhores momentos, aqueles que nos fizeram sentir verdadeiramente completos e em que aproveitámos realmente a dádiva que é estar vivo.

Músicas preferidas – “Pure Comedy”, “Total Entertainment Forever”, “The Memo”, “Two Wildy Different Perspectives” e “Things That Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution”
Músicas menos apelativas – “Birdie”, “Smoochie” e “When the God of Love Returns There’ll Be Hell To Pay”

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