Em ‘Girls’ podes ser quem quiseres, até tu próprio

18 ABRIL, 2016 -

Terminou a 5ª temporada da série criada pela entusiasmante, trabalhadora e criativa Lena Dunham: “Girls”.

Desde 2012 que seguimos a vida das quatro mais defeituosas e complicadas raparigas – Hannah, Jessa, Marnie e Shoshanna – monstrinhos criados pela sociedade contemporânea do desemprego, dos social media, dos iphones, dos hipsters e das inseguranças. É por isto que se pauta esta série: pela insegurança em quem são (somos), pela formação pessoal e profissional, pelo crescimento e maturação, pelos desgostos amorosos e amizades falhadas.

Depois de outras 4, esta foi de longe a “season” mais madura e interessante das 5. Vimos Hannah a acabar a 4ª temporada com uma nova e promissora relação com Fran, um professor que dá aulas na mesma escola do que ela e que será talvez o primeiro namorado equilibrado e crescido que a personagem principal de Girls alguma vez teve. A frenética e tagarela Shosh (anna) está no Japão a trabalhar como marketeer, a toxicodependente em recuperação Jessa está metida num sarilho com Adam e a insuportável Marnie encontra-se em vias de se casar e divorciar (tudo de uma vez só).

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Não pode dizer-se que esta temporada tenha arrancado logo de imediato de uma forma apelativa e cativante, com o casamento impulsivo de Marnie e a relação aborrecida de Hannah com Fran, mas esta década de episódios vai evoluindo e progredindo à medida que as semanas passam, com músicas pop electrónicas e “folkezinhas” – às vezes demasiado tocantes ou outras até impressionantemente divertidas – à mistura. As coisas começam a melhorar quando Fran se revela como um namorado não tão perfeito assim, que invade a privacidade de Hannah e que guarda fotografias de ex-namoradas no telemóvel para servirem de inspiração para a masturbação; quando Marnie se envolve com o seu ex-namorado, interpretado pelo atraente e misterioso Christopher Abbott, num dos episódios mais bem escritos e realizados de toda a série; quando Jessa e Adam desenvolvem uma relação supostamente secreta ou até quando Elijah se apaixona por uma estrela de televisão.

Em todos estes pequenos terramotos, podemos concluir que não, não há pessoas assim tão perfeitas e estáveis, que envolvermo-nos com alguém que já não faz parte da nossa vida e que já não conhecemos, em busca de uma reviravolta ou de um novo rumo, talvez não seja assim tão boa ideia; e que trair a nossa melhor amiga pode ser demasiado doloroso e destrutivo. Até Shoshanna tem um grande poder nesta temporada: as suas tentativas falhadas de suceder no emprego são o símbolo da nossa geração incomensuravelmente perdida.

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Muita gente nos seus 20 anos deve ter refletido ou ainda vai refletir imenso com estes episódios. Eles são uma busca pelo futuro, os pontos de interrogação na nossa cabeça quando acabamos o curso e não sabemos o que raio vamos fazer a seguir, o sentimento de vazio quando acabamos uma relação ou até a voz que ecoa cá dentro a perguntar “quem sou eu afinal?”. Tudo isto tem a sua apoteose nos últimos dois episódios (9 e 10), denominados pelos produtores, realizadores e criadora da série como “a última hora da 5ª temporada de Girls”; No nono, Lena contracena com Jenny Slate, uma comediante judia que já atuou ao lado de Jake Lacy (Fran em Girls), em “Obvious Child” (uma comédia simples e genial); ela é Tally, escritora de 2 célebres livros de prosa e de um outro de poesia – portanto, uma inspiração ou dor de cotovelo para Hannah -, que põe em causa a sua existência enquanto pessoa e que mostra à amiga gordinha e desajeitada como ela não está sozinha na indecisão.

Já no décimo, deparamo-nos, pela primeira vez em muito tempo, com um sentimento de adoração e respeito por Hannah, como uma mulher que luta pelo seu bem estar e dos outros, abrindo o seu coração para aceitar calmamente a relação de Jessa com Adam.

A verdade é que “Girls” se diferencia do resto das séries sobre pessoas que estão a aprender a ser adultas porque as personagens são extremamente identificáveis e humanas. Não há cá as raparigas perfeitas de 90210 Beverly Hills; estas aspirantes a mulheres são irritantes, tomam decisões erradas, dizem coisas que magoam, estragam tudo na maior parte das vezes, têm celulite, uma delas é gorda e adora mostrar as partes mais obesas do corpo a saltar em cima de um homem, os rapazes são corcundas, socialmente “awkward”, um é gay, o outro feio, outro mulherengo e depressivo e o outro demasiado esquisito para ser descrito em adjetivos. São humanos.

Em “Girls“, podes ser quem tu quiseres; Lena Dunham criou um mundo de pessoas em que é normal ser-se anormal, desorientado e defeituoso, mas com muita vontade de crescer.

Texto de Joana Jorge

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