Elis Regina, a alma musical do Brasil

17 MARÇO, 2017 -

Elis Regina viveu durante 36 anos, mas são muitos mais aqueles que conhecem a influência de uma voz com tanta alegria e folia. À imagem daquilo que a identidade brasileira transmite, Elis quis sempre ir até ao expoente da sensação dramática e da expressão artística, conhecendo um estatuto que a descolou dos demais músicos canarinhos. Uma voz jovial e vivaz tanto no jazz, como na Bossa Nova, como na Música Popular Brasileira, como até no samba e no rock, além de uma presença franzina mas desmedida em alma nos palcos. Colaborou com uma plenitude de artistas e deixou um legado riquíssimo, que ainda hoje se emaranha naqueles que associam o Brasil ao país da música deleitosa e extra-melodiosa. Como lhe chamara Vinícius de Moraes, a “Pimentinha” tornou-se numa dessas referências nacionais e entoou notas e palavras que se uniram na lírica e nas partituras universais.

Elis Regina Carvalho Costa nasceu a 17 de março de 1945 em Porto Alegre, pleno sul do Brasil. O seu primeiro nome derivou de uma personagem de um romance que a sua mãe lia perto da altura do seu nascimento. O seu pai tentou batizá-la Elis Carvalho Costa, associando os dois apelidos dos progenitores à recém-nascida. No entanto, e com a Conservatória a levantar dúvidas quanto ao género associado ao nome, inspirou-se numa prima que havia sido batizada como Sandra Regina e acresceu “Regina” a seguir a Elis, uma vez que “Sandra não lhe soava tão bem.

A carreira precoce e vivida da cantora começou bem cedo, estreando-se num programa de rádio juvenil denominado “O Clube do Guri“, emitido na Rádio Farroupilha. A sua família vivia num apartamento no bairro Passo d’Areia, na zona norte de Porto Alegre, no seio da conhecida zona Vila do IAPI. Cinco anos depois, com somente 16 anos, lançou o seu primeiro LP, promovido pela Continental e embaixado por Wilson Rodrigues Poso. Num estilo pomposo e empolgante, “Viva a Brotolândia” (1961) nasceu e mostrou o novo prodígio da música canarinha. Isto já vinha sendo consolidado pela Rádio Gaúcha, onde figurava como estrela, e pelos galardões que foi recebendo a nível nacional, tal como o de melhor cantora radiofónica. “Poema do Amor” (1962), “Ellis Regina” e “O Bem do Amor” (ambos de 1963) foram os que se seguiram, antecipando uma nacionalização em termos de atuações da artista.

Com somente dezanove anos, já tinha uma agenda repleta de concertos na costa que liga o Rio de Janeiro a São Paulo, para além de atuar em vários programas de televisão e de se tornar numa das caras principais do “Beco das Garrafas“, que congregava uma série de talentos emergentes canarinhos. Dirigido pela dupla de Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, viria a casar com este em 1967, permanecendo nos espetáculos da responsabilidade dos dois e associando-se ao grupo Copa Trio, alinhando com o músico Dom Um Romão. Atuando já com fragrâncias de bossa nova, também privou com o coreógrafo Lennie Dale, que foi um dos responsáveis pela sua vivacidade em palco e pelas dinâmicas que neste começou a exibir, tanto com o corpo como com a mente.

A sua carreira permaneceu sólida, nunca tendo desvirtuado a sua orla de atuações dos palcos e dos ecrãs. A primeira metade da década de 60 seria ainda bafejada com mais convites, tais como a atuação no atual Teatro Abril, em São Paulo, a apresentação do programa “O Fino da Bossa“, com Jair Rodrigues, e o primeiro disco a atingir o milhão de cópias vendidas, sendo este “Dois na Bossa“. Este nome seria replicado em mais dois álbuns da sua autoria, lançados entre os anos de 1965 e 1967, para além da produção de “Artistas” (1966, o primeiro disco independente produzido no Brasil). Além disso, arrecadou o galardão Berimbau de Ouro, na categoria de melhor intérprete, e, com a canção “Arrastão“, escrita e composta por Edu Lobo e Vinícius de Moraes, conquistou o primeiro Festival de Música Popular Brasileira na TV Excelsior. Desbravou e atuou também na Europa, em especial no recinto parisiense Olympia, contemplando esse teatro por duas ocasiões com o seu natural e robusto talento, e logo no ano de 1968, bastante agitado nas camadas mais jovens da população de Paris. Estavam lançadas as bases daquela que seria uma carreira marcante e triunfante, carreira essa que teria inspiração na cantora Ângela Maria, homenageada por Regina em várias ocasiões.

Já nos anos 70, o objetivo da exploração musical de Regina tornou-se o refinamento do potencial vocal e a mestria das suas diferentes dimensões, tanto em toadas mais suaves e subtis como na euforia e folia caraterística do ADN brasileiro. Contudo, a sua notoriedade ainda não tinha alcançado total unanimidade, atuando para uma cética plateia na mostra musical paulista “Phono 73“. Aquilo que viria a derreter a gélida barreira entre o público e a cantora seria a apresentação feita da mesma por Caetano Veloso, com este a nomeá-la como a “melhor cantora da terra”. No estúdio, mais dois êxitos, com “Elis” (1973), e uma sublime sinergia com o pianista e cantor Antônio Carlos Jobim, em “Elis & Tom” (1974), tornando-se numa das referências culturais do maior país sul-americano.

O seu maior espetáculo decorreria precisamente no ano seguinte, com o nome do mesmo a ser homónimo ao álbum cujo título é “Falso Brilhante” (1976). Este espetáculo culminaria em quase três centenas de concertos e tornar-se-ia, com naturalidade, num dos mais bem-sucedidos no panorama nacional. No apogeu desta dualidade, fundindo a música com a arte e o papel da cantora com o de artista, esteve também em destaque nos espetáculos “Transversal do Tempo” (1978, que refletiu o ambiente conturbado vivido no seu país), “Essa Mulher” (1979, dirigido por Oswaldo Mendes, e dando origem a um disco com o mesmo nome), “Saudades do Brasil” (1980, um sucesso pela sua espontaneidade e orquestrado por Ademar Guerra e pela coreógrafa Márika Gidali) e “Trem Azul” (1981, de Fernando Faro).

Estes seriam tempos que não mais seriam experienciados da mesma forma pela artista, acabando por ser vítima da sua postura ativista e revoltada perante a Ditadura Militar que se havia instalado no Brasil. Assim, e nos denominados “anos de chumbo”, Elis viu a sua carreira afetada por toda a contestação que emitiu e que radicou na entoação do Hino Nacional, sendo obrigada pelo Estado a tal efeito e enraivecendo a ala esquerda da sociedade canarinha. Porém, nem isto a demoveu de se envolver e de expressar o que sentia perante a realidade vivida, além de colocar a tónica no papel da mulher nesse prisma, deixando o papel letárgico que levou o homem a assumir as despesas de grande escala e emancipando-se em torno desses objetivos comuns e desligados de restrições de acesso. Mostrou esta proatividade a que apelava, sendo umas das figuras femininas entrevistadas pela Rede Globo, no especial “Mulher 80“. Tal como ela, as vozes das cantoras Maria Bethânia, Fafá de Belém, Rita Lee, Gal Costa e da atriz Regina Duarte envolveram-se na discussão do papel da mulher no meio artístico e na abordagem de temas mais ou menos polémicos da sociedade brasileira.

Tornou-se também voz ativa quanto à exortação para amnistiar diversos artistas brasileiros, acabando esta prática por se institucionalizar e por ter como hino “O Bêbado e a Equilibrista“, composta por João Bosco e Aldir Blanc. Esta música acompanharia as diversas iniciativas da amnistia, além de acompanhar aqueles que pugnavam pela sua própria libertação do exílio. Em 1981, Elis deu o toque final à sua envolvência política e tornou-se membro do Partido Trabalhista, integrando-se na discussão dos direitos de produção e de criação dos músicos brasileiros e encabeçando a Associação de Intérpretes e de Músicos (ASSIM).

Numa fase de declínio da própria estrutura política autoritária, e numa crescente aura de que as liberdades de todos estariam para voltar proximamente, Elis Regina partiu surpreendentemente aos 36 anos. Corria o dia 19 de janeiro de 1982, e a cantora havia abusado do álcool e da cocaína, vícios que nunca foram nem seriam anónimos à esfera artística desse país, além de ter também tomado um fatal ansiolítico. O impacto que essa perda teria no contexto nacional seria tamanho, sendo posterior à partida do cineasta Glauber Rocha e anterior à do também músico Raul Seixas. Deixou três filhos: o empresário e produtor João Marcelo, do seu primeiro casamento, e o músico Pedro Camargo Mariano e a célebre cantora Maria Rita, do matrimónio contraído com o pianista César Camargo Mariano, com quem também colaborou amiúde na própria música que interpretou.

Importa salientar a influência que Elis Regina teve nas gerações futuras e o esplendor versátil e consagrado pelas mais várias origens musicais. A Bossa Nova nunca abandonou o trajeto daquilo que seria a sua carreira, mas sentiu-se mais compreendida pelo regionalismo e pela vibração extasiante e contagiante da Música Popular Brasileira (a comum MPB). Todavia, também o jazz recebeu o seu contributo, lançando um álbum com o conotado harmonicista Toots Thielemans (“Honeysuckle Rose Aquarela do Brasil“, datado de 1969). Seguindo a sua evolução estilística e artística, também sentiu nas guelras o samba e popularizou as músicas “Tiro ao Álvaro” e “Iracema“, em conjunto com o virtuoso artista Adoniran Barbosa. Em muito se fez valer da sua leve rouquidão e da excelsa afinação das suas cordas vocais, não vacilando nas diferentes oscilações sonoras e emocionais que a música a levava a sentir. Também no pequeno ecrã causou sensação, sendo a causa dos sucessos dos festivais musicais da TV Record; e foi responsável pelo lançamento de nomes que hoje figuram no topo das considerações sobre as melodias com origem brasileira, tais como Milton Nascimento — que lhe chamou de musa inspiradora —,  Gilberto Gil, Tim Maia e Sueli Costa.

Elis Regina é precisamente aquilo que o nome de Edith Piaf é para os franceses, ou os de Ella Fitzgerald e Billie Holiday, para os norte-americanos. Uma diva com jeitos singulares e particulares, nunca temendo a opinião alheia ou o constrangimento interno, dando asas ao seu ideal criativo e à veia que a liga às raízes e às origens mais regionais e tradicionais. Desde a televisão até aos palcos, sem nunca desprezar o valoroso repertório musical na forma de álbuns e de espetáculos radiofónicos, deu ênfase à dicotomia arte-música. Além de um sorriso carismático e de uma figura afável e descomprimida, foi uma das primeiras a emergir na segunda metade do século XX, dando voz a temas existentes no subconsciente de todos os brasileiros, como “Madalena” (1971, do álbum “Ela”), “Querelas do Brasil” (interpretada no espetáculo “Transversal do Tempo”) ou “Águas de Março” (1974, ao lado de António Carlos Jobim). Elis Regina foi também a primeira a constar na Ordem dos Músicos do Brasil, estando a sua voz numa lista de instrumentos, e foi uma das mais tentaculares artistas do país, colaborando com diferentes artistas da sua e de outras gerações, precedentes e seguintes. “Elis, Essa Mulher” (1979), “Saudade do Brasil” e “Elis” (os dois de 1980) rematariam uma carreira que, não obstante curta, se amplificou pelo significado e pela mística da sua presença. Uma história que se representa pela voz incansável e insaciável de alguém que sobrevive aos tempos e que assobia como os ventos ao ouvido de quem a ouve.

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