Eichmann: ‘a banalidade do mal’

31 MAIO, 2016 -

Para Hannah Arendt, o funcionamento de um regime totalitário como foi o terceiro Reich é análogo a um conjunto de engrenagens, no sentido em que o seu “funcionamento” recaiu sobre a rede de funcionários públicos (ou do estado), que estavam interligados, e eram maniatados por Adolf Hitler com o objectivo de concretizar o ideal que ele próprio estabeleceu para a Alemanha. Tal como num motor de combustão, por exemplo, qualquer peça da engrenagem podia ser substituída. Este foi também um argumento amplamente usado por antigos funcionários públicos da Alemanha Nazi, entre eles Eichmann, na tentativa de se desculparem dos seus actos: “se não fosse eu a fazê-lo, poderia e tê-lo-ia feito outro”.

Tendo agora presente que os crimes de que Eichmann era acusado advinham da prática da sua profissão enquanto funcionário ao serviço de um regime totalitário, poder-lhe-iam ser imputados?

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Como que em resposta para esta questão, em “Ditadura e responsabilidade social” Arendt diz que “embora o procedimento dos tribunais ou a questão da responsabilidade social não permita que o homem descarregue sobre o sistema o peso das suas responsabilidades, o sistema também não é uma realidade que possa ignorar-se”. Assim sendo o “sistema” deve ser visto pelo poder judicial como uma atenuante, mas não uma justificação, para os crimes de Eichmann.

Arendt considerava que o crime perpetuado por aqueles, que como Eichmann, se despem da capacidade humana de pensar, e apenas seguem ordens que lhes são dadas, são aqueles capazes dos mais atrozes crimes. A este fenómeno a autora chamou de “a banalidade do mal”. Prova disto é a forma como Eichmann encarava como natural o exercício da sua profissão, que levava milhões para a morte, mas revoltava-se com a ideia de violência gratuita.

Outra questão importante é a de se poderia Eichmann se ter recusado a seguir as ordens que lhe eram dadas, salvando assim um número incontável de vidas. Arendt diz-nos que existiram aqueles que durante o regime de Hitler, ao dialogarem consigo próprios (ou pensarem) chegavam a conclusão de que não conseguiam consentir o que se estava a passar, e, ao recusarem-se a participar activamente na vida pública (ou politica), ofereciam resistência, ainda que passiva, ao regime. Estas pessoas tinham claro que não conseguiriam viver consigo mesmas se consentissem e participassem activamente num regime que tinha como um dos principais fundamentos “Matarás”. Mesmo a ameaça sempre presente da morte não dissuadiu este grupo de não-participantes, a quem a morte continuava a ser preferível a associação ao regime.

Ao verificarmos a existência de tais casos, podemos facilmente descartar a ideia de que Eichmann, ou qualquer outra engrenagem da “máquina” Nazi, se encontrava obrigado a lhe pertencer.

Assim sendo o “consentimento” de Eichmann, das políticas Nazi, pode ser apelidado antes de “apoio”, pois um adulto que consinta está a apoiar. E quem apoia deve ser responsabilizado deitando assim por terra qualquer argumento que Eichmann possa usar em defesa da sua actuação durante o Holocausto.

Texto de Carlos Simões

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