Eduardo Rêgo, a voz da BBC: “A perseverança esteve sempre na minha vida”

24 AGOSTO, 2017 -

Desgravar – o ato de passar para o papel a gravação de uma conversa – é, quase sempre, uma parte extremamente aborrecida das entrevistas que, quase todas as semanas, tentamos trazer aos leitores. São muitos carateres para cortar, muitas horas de conversa para ouvir e transcrever. Mas desgravar uma entrevista de Eduardo Rêgo é uma experiência sensorial incrível.

Se o nome lhe é apenas familiar, talvez uma curta apresentação o ajude – Eduardo Rêgo, para quem a «língua é um trabalho de filigrana» -, é locutor dos programas BBC Vida Selvagem e O Nosso Mundo. A conversa desenvolveu-se em dois atos. O primeiro teve lugar há mais de um mês, no Porto, durante o Encontro Nacional de Veículos Elétricos. Por incompatibilidade de agendas, a segunda parte concretizou-se esta semana, em Lisboa. Também a vida de Eduardo pode partir-se quase assim, em duas fases: a primeira em que foi membro de uma congregação religiosa e em que, já na reta final do noviciado, escolhe outro caminho, o da comunicação social. Tinha quase trinta anos, vieram os programas que conhecemos, o casamento, duas filhas. Talvez seja oportuno acrescentar um terceiro degrau, que está a subir agora e que é o culminar do respeito que sente pelo planeta – «transpiro, respiro o amor pela natureza, está em todos os meus poros». Esse amor, um projeto inédito de proteção ambiental que tem por base o mercado voluntário de créditos de carbono – já lá vamos – dá pelo literal nome de ‘Loving The Planet’ (em inglês porque quer chegar ao mundo). Neste caminho, tem a seu lado Ricardo Pinheiro da GAL Global Associaton For Life – Economia Verde, que no Porto se juntou à conversa para explicar o que é o tal mercado dos créditos de carbonos e como funciona.

Há 28 anos a usar a voz para pintar a savana africana e os pingos da chuva da Amazónia, Eduardo Rêgo, que muitos não sabem que não é biólogo – «os médicos de clínica geral do planeta» – fala-nos com o enlevo de todos os apaixonados. Pela força com que puxa esta carroça, comecemos primeiro por aí, pelo «grande projeto» da sua vida, para depois passarmos pelos seus premonitórios primeiros anos.

Já agora, uma informação operacional: a app da ‘Loving The Planet’ foi lançada agora, no final da Volta a Portugal – depois do download e com uma contribuição monetária, cada um de nós pode ajudar a diminuir a nossa pegada ecológica ao investir em projetos já no terreno. Sabia que cada português produz uma média anual de seis toneladas de carbono? Bem, mais vale passarmos à conversa.

Como surgiu a ideia de criar a Loving The Planet?

A universidade do Porto convidou-me para fazer um ciclo de conferências na reitoria subordinado ao tema “A terra em transformação”, desde o Big Bang até hoje. Estamos a viver mais uma transformação com muitos atropelos à pureza da atmosfera, fruto da nossa intervenção muitas vezes arbitrária no planeta e tudo isto tem custos. De maneira que eles acharam que eu seria eventualmente a pessoa que articularia todos estes saberes, digamos assim, da biologia à antropologia. Nesse ciclo estiveram académicos de todo o país. Não só do país, na verdade. E aquilo começou a mexer comigo. E de facto mexeu tanto que criámos a Loving the Planet.

Pensou numa forma de ativismo muito concreta. Explique-nos um pouco melhor em que consiste o projeto.

Há muita consciência ambiental, apontam-se malefícios, chora-se. E nós estávamos os dois, eu e o Ricardo, cada um no seu quadrante, a querer apresentar soluções. A querer fazer. Com este projeto queremos apresentar cadinho de soluções, de uma forma transparente. Efetivamente temos um espírito de missão e pensamos muito bem as coisas, só avançamos quando há viabilidade. Por isso é que todas as nossas coisas têm muita lógica.

Ou seja, isto não é um projeto utópico de salvação da natureza.

Não tem nada de utopia. Quer dizer, há uma componente de sonho muito importante, que move a vida e move montanhas, mas há subjacente esta assertividade do ver muito bem o que é viável. A nossa missão é promover a consciencialização ambiental e o desenvolvimento sustentável, que é sempre isso que está em jogo, potenciando o mercado voluntário de créditos de carbono através de uma plataforma de financiamento colaborativo chamada Loving The Planet. Criámos uma aplicação que está a ser minuciosamente trabalhada para que efetivamente as pessoas percebam a bondade do projeto. Não basta mandar para fora que é bom. Temos que provar que é bom e que isto efetivamente tem aplicação no terreno.

Ricardo Pinheiro: Em termos práticos, usámos a ideia do mercado voluntário de créditos de carbono, que não fomos nós que inventámos. Vem do tempo do protocolo de Quioto, que dizia que tem de haver mercados de carbono para equilibrar ou para minimizar o buraco de ozono e as alterações climáticas. Há mercados de carbono organizados a nível global e há setores de atividade que são obrigados a comprar e compensar a sua pegada e depois há os mercados voluntários que, como o nome indica, são iniciativas voluntárias. E nós, a partir desta política mundial, criámos um inovador mercado voluntário de créditos de carbono em Portugal, que na prática será o primeiro. Como é que se transforma isto? Os créditos de carbono são, no fundo, a compensação de quem polui, a lógica do poluidor pagador. Se as pessoas quiserem compensar a sua pegada, dos quilómetros que fazem num carro de combustão, do lixo, da eletricidade e gás que consomem, etc., podem patrocinar projetos de desenvolvimento sustentável que estão do outro lado da balança. E esta plataforma cria esta relação entre o poluidor e vai financiar esses projetos, por isso é que é uma plataforma de financiamento colaborativo, o chamado crowdfunding.

O que é que as pessoas podem fazer para compensar a sua pegada?

Ricardo: Primeiro, calculá-la. Há muitas calculadoras na internet que nos vão dizer, com base nos dados que lá colocarmos, quanto CO2 produzimos. Estamos a fazer um filme que vai explicar isso. Por exemplo, poluímos cem gramas num dia. Chegamos ao final do dia e podemos pegar naquilo e dizer assim «para compensar e ser verde, vou escolher um projeto na plataforma do Loving the Planet». No fundo, posso colocar lá uma conta bancária, onde posso ter 50 ou 100 euros e nesse dia quero compensar 100 gramas de emissão de carbono. Essa conta vai-me transformar os cem gramas num valor monetário. E nós lá atribuímos um valor: uma tonelada corresponde a trinta euros. E esse dinheiro depois é aplicado no projeto que escolher. Todos os projetos que estiverem na plataforma terão de ser validados por um conselho científico multidisciplinar e têm todas as componentes de desenvolvimento sustentável – o social, o económico e o ambiental. Não é só dar um euro, plantar uma árvore. Tem de haver todo o enquadramento do território. De um sonho utópico chegámos a algo muito real.

Quais são os projetos que já têm?

Ricardo: Por agora tem dois projetos no Parque Nacional da Peneda Gerês. Um dentro do município de Arcos de Valdevez, e outro no município de Montalegre. São projetos piloto que iremos lançar na Volta a Portugal e a própria organização da Volta também vai compensar a sua pegada. [A Volta A Portugal, que entretanto terminou, adquiriu 800 toneladas de CO2, o suficiente para pagar o valor total preservação do Bosque Ensombrado em Avelar, Montalegre, nos próximos dez anos]

Eduardo: Quando começámos a ventilar estas matérias, partimos para uma moeda a que chamámos «biocoin», que consideramos bem mais poderosa do que o próprio euro. O Ricardo tem uma frase muito gira que para mim é sintomática de tudo isto de que estamos a falar. A Natureza, como não está em saldo, vale mais do que… É preciso esta consciencialização. E nós criámos esta moeda que vale trinta euros. As pessoas assustam-se a princípio, mas quando dizemos que cada português produz em média por ano seis toneladas de CO2, a pessoa ainda fica mais assustada consigo própria.

Ricardo: Isso significa que cada pessoa devia afetar 180 euros do seu rendimento anual para compensar a sua própria pegada.

Qual é a reação das pessoas quando sabem, ao certo, quão fundo é o sulco que cada um de nós está a deixar?

Eduardo: Quando lhes dizemos que cada um de nós gasta seis toneladas, deixa-se de olhar a pessoa ao lado como o poluidor. As pessoas assumem que elas próprias o são.

É enfiar o barrete, na linguagem popular.

É isso mesmo.

São apoiados por conselhos científicos de várias universidades, o que confere legitimidade também académica ao projeto.

Eduardo: Certamente. Temos várias universidades envolvidas, desde logo a do Porto, a Faculdade de Ciências, com o professor Talhadas dos Santos. Depois temos duas presenças do IPCA (Instituto Politécnico do Cávado e do Ave) que está connosco desde o início. São excelentes a nível da contabilidade pública, conhecidíssimos, essa valência tinha de estar connosco e está. A presidir o conselho científico temos uma pessoa que é o professor Castro Rego, do Instituto Superior de Agronomia. Toda a gente reconheceu logo ali que devia ser ele o cabeça do grupo. Temos mais gente do ISA e de outros pontos da universidade de Lisboa, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Universidade de Évora. E o conde Calheiros.

Ricardo: Qualquer projeto de desenvolvimento sustentável que seja submetido na plataforma pode ter muitas valências. É a ideia de que não é só plantar uma árvore. Por isso é que temos de ter um conselho científico multidisciplinar, competente, para avaliar e validar os projetos.

De todos os contactos que têm tido, sentem que os portugueses estão mais preocupados com as questões ambientais?

Eduardo: Estamos num crescendo. Percebe-se que há muito mais apetência para a sustentabilidade. Eu sinto isso, no início estávamos a tentar semear o projeto, agora já temos retorno. Queremos lançar um novo paradigma. E podemos ser um país florescente, falta aproveitar estas equações novas. Temos um mar imenso, uma costa brutal, uma floresta riquíssima…

Esse pensamento sobre as potencialidades naturais pouco exploradas do nosso território é, aliás, assunto recorrente.

Sim, por isso é que sentimos necessidade de apresentar esta proposta concretíssima para aplicar.

Ricardo: Os próprios habitantes do Gerês dizem-nos que estão cansados de ouvir que o Parque Nacional é uma das maravilhas, que tem um potencial enorme. Mas como é que se materializa isto? O que é importante aqui é a valorização do potencial dos recursos. É o que chamamos em contabilidade de ativos ambientais. São aqueles que vêm da floresta, ou do mar, são todos aqueles que geram créditos de carbono e retêm CO2. É preciso sabermos quanto é, qual é o valor daqui. Vamos capitalizar o país e não os sistemas financeiros internacionais. Não as bolsas. Na semana passada [início de julho], houve uma conferência na Universidade de Lisboa e o pessoal do Direito afirmou que temos uma contabilidade pública do tempo do Marquês de Pombal. Uma contabilidade de tesouraria, do défice, aquela lógica de caixa em que só contabilizamos aquilo que recebemos e que pagamos, uma lógica de mercearia. O problema é que à administração central custa implementar os sistemas de contabilidade que já estão aprovados e que já dizem que temos que capitalizar esses ativos da natureza. E aí vamos saber quanto é que o país vale em termos de ativos. E se calhar a balança já começa a equilibrar.

Eduardo: Estamos acerrimamente a defender os ativos ambientais como o capital do futuro. E não há melhor fórmula. Temos recursos de excelência, mar e floresta, só temos que capitalizar isto.

Descemos para Lisboa, para a segunda parte da conversa que, a partir daqui, é apenas com Eduardo Rêgo

No Porto, falámos principalmente da Loving The Planet. Por que acredita tanto neste projeto?

Tenho histórias de vida que me permitem acreditar que vou conseguir. Uma delas é uma ida a Sevilha. Eu era diretor de uma rádio local, a Rádio Mais, na Amadora, e quis levar um grupo de ouvintes a Sevilha – uma Expo mundial é sempre um acontecimento. Telefonei para a CP para alugar um comboio, mas fui dizendo que não tinha dinheiro. Eles chamaram-me louco logo ao telefone. Arranjei os patrocínios, as sandes e bebidas. Só sei que, no dia marcado, fomos lá – ainda sempre louco em todos os telefonemas que fazia, em que me diziam sempre que não tinha hipótese –, e o comboio estava parado em Santa Apolónia à nossa espera. Fomos, viemos, foi uma experiência rara. E estou ainda para saber o nome da pessoa com quem falei e que me fez não pagar nada.

Esse tipo de experiências fá-lo acreditar que este seu novo projeto é possível?

Sim, posso contar-lhe outra emblemática, ainda estava na Rádio Renascença. Lembrei-me que era interessantíssimo colocar uma pessoa a bordo de um avião e fazer a reportagem lá de cima, dizendo o que se estava a passar. Era verão, ia apanhar fogos, as praias cheias, ia apanhar a morfologia diferente e ia falar lá de cima. Liguei para o Estado Maior da Força Aérea e mais uma vez chamaram-me louco. Daí a umas semanas lá estava a ir ali do aeroporto de Figo Maduro num teco-teco, que é um aviãozinho pequenino que tem uma hélice à frente e outra atrás e faz assim um barulhinho característico. Íamos daqui para Monte Real, Leiria, para a base militar. A logística a crescer, toda a gente a dizer que não podia ser. Mas pôde ser. No dia marcado para o evento, arranjei uma tela gigante com o logo do programa da rádio, um programa que eu tinha aos domingos das 7 às 11. A tela foi arranjada por uma pessoa que pintava os anúncios dos cinemas, antigamente era assim. No dia consegui o General em estúdio naquelas horas, o que foi excelente. Consegui cumprir todos os itens a que me tinha proposto. A repórter foi lá para cima, voou, e depois quando vinha subiram dois caças para escoltá-la até Lisboa.

Isso em que ano?

1982 ou 83. Quando aterraram em Figo Maduro, oito paraquedistas subiram e foram para a praia de Carcavelos para saltarem do avião, com um deles a dizer diretamente para a rádio o que estava a sentir.

A perseverança sempre foi uma característica sua?

Sempre. Sou carneiro de signo (risos).

Em miúdo já era assim? Gostava que me falasse da sua infância. Onde nasceu? Bem sei que são muitas perguntas coladas (risos).

Já era assim. Nasci no Louro, Vila Nova de Famalicão. Sou minhoto! Quando vim para Lisboa tinha uma pronúncia marcadíssima, muito mesmo. Fiz um esforço muito grande. Gravava muitos programas para começar a gravar, passo a redundância, no meu subconsciente, a forma mais neutral possível de dizer as coisas. A tal ponto que um dia há uma editora que faz um estudo da minha voz e não a coloca em lado nenhum do país. Às vezes, quando estou a falar, há ainda um cheirinho de pronúncia, mas se estiver em estúdio não passa nada.

Quando voltava a casa apanhava novamente o sotaque?

Um cheirinho. Mas sabe… Não é que eu me tenha divorciado da terra, e agora estou a voltar imenso por força do Loving the Planet, mas estive muitos anos sem ir. Era mais fácil virem cá do que eu ir. Foi muito duro afirmar-me em Lisboa. Não tinha família aqui e queria afirmar-me, queria um lugar ao sol como profissional. E acho que consegui um registo próprio, o respeito dos colegas.

Sentiu-se sozinho nesses primeiros tempos?

Senti. Nem quero contar as peripécias difíceis pelas quais passei. E nomeadamente em estúdio. Só eu sei, e nem sei se quero reproduzir, o sentimento profundo lá atrás, magoado, difícil, sempre à espera do fim do programa. Passei por alturas muito difíceis até psicologicamente. Mas consegui ultrapassar. A perseverança outra vez. Esteve sempre na minha vida. É o denominador comum da minha existência.

Tinha quantos anos quando veio para Lisboa?

Uns 25.

Por que veio?

Pertencia a uma congregação religiosa. No dia da Revolução estava a ir para as aulas para Universidade Católica Portuguesa. Foi uma euforia enorme. Nós éramos, ou melhor, eu fazia parte de uma congregação religiosa alemã, a Verba Divina, ou Verbum Dei, e que tinha uma forma de estar no mundo muito aberta, muito para a frente.

Como os Jesuítas?

Diria que mais! (risos). A passagem por essa casa ajudou-me imenso, ainda hoje tenho uma ligação muito estreita. Tenho ainda uma relação muito própria com o reitor.

O sentido de missão que sente agora vem daí?

Seguramente. É isto que agora lhe prego agora a ele (risos).

Onde é que surge então o bichinho da rádio?

Nasce precisamente num dos colégios que frequentei nesta congregação. Comecei em Guimarães, passei por Fátima onde fiz o sexto e sétimo ano antigo e o noviciado, que é um tempo de paragem para estudar em função da vocação que se tem e dos objetivos que se perseguem. Era ali que passávamos pelas brasas, pelo forno se quiser, da consciencialização interior para decidir «sim ou sopas». E eu decidi que sim, o curioso é isso. Decidi que queria continuar até onde pudesse. E depois quando estava mesmo na reta final decidi que não era aquilo. Agora às vezes dou-me conta disso. Que desisto de uma missão e que hoje sinto que tenho uma missão. Isto não é vaidade nenhuma, é um imperativo de consciência, sinto que não posso fugir disto. É uma coisa incrível.

Tinha quantos anos quando decidiu sair da vida religiosa, a primeira missão?

É curioso que fiquei sempre com ela fisgada que um dia algo do género ia acontecer, sempre senti que tinha qualquer coisa cá dentro que me dizia isso. Teria na altura uns 28 ou 29 anos. Entrei para aí com uns 14, em vez de ir para o liceu fui para o seminário, que tinha um percurso semelhante.

E a primeira vez que fez rádio?

Isso! Foi aí, em Guimarães. Tínhamos um edifício que não parecia bem um seminário, era uma espécie de hotel, não era branco como vulgarmente encontramos por aí. Era às cores, com muito vidro, tudo isso mexeu comigo. Só não eram de vidro as colunas do edifício, de resto era tudo janelonas, coisas enormes. Isto dava uma perspetiva muito aberta e muito rica em relação ao mundo. Muito transparente, também. O nosso refeitório, por exemplo, era um chapéu de sol às cores, aos gomos, com uma coluna no meio, tudo assim. Como é que eu não havia de sair um bocadinho para a frente! (Risos). E foi neste contexto. Pedi para me darem no segundo ou terceiro andar uma salinha que lá existia para começar a brincar às rádios, falar lá de cima, pôr música, enquanto a malta se divertia lá em baixo.

Um encontro pedido por si, mas um interesse espontâneo, então.

Sim, nasceu quase por geração espontânea. E aquilo resultou, já não houve a partir daí recreio nenhum sem música e sem algumas palavras. Não posso fugir a esta realidade, vou lá atrás e encontro sempre a semente da rádio ali. Depois é curioso que, quando saio da Católica e do seminário, a primeira pessoa que procuro é o padre Rocha e Melo, que era o responsável pela parte espiritual da Renascença, e eu procuro-o para ser locutor. Queria dar uma dimensão de mim para fora, que no fundo também era de missionário. Acho que isso me perseguiu.

Como foi recebido pelos colegas que não tinham ligações à igreja?

Não fui posto de lado. Acho que granjeei sempre a simpatia, claro que há sempre alguns escolhos, alguém.

Fiz-lhe esta pergunta porque há pouco mencionou que teve momentos difíceis.

Foram eventualmente de outra ordem. Sei lá, às vezes a solidão, parece que não mas marca muito. Claro que também houve alguns desaires de carreira e de caráter laboral pelo meio. Sabe que esta coisa de queremos sempre rasgar o caminho e fazer coisas novas tem sempre os seus contras, há pessoas que nem sempre o entendem e que, se puderem, passar uma rasteirita, passam. Caí muitas vezes. Mas para levantar!

Teve essa conversa com o padre Rocha e Melo logo no dia em que deixou o seminário?

Até foi anterior, quando comecei a ver o cenário. Nesse entretanto gravo dois EPs com o coro da Gulbenkian. Antes de ir para lá ainda houve uma experiência – a própria igreja teve necessidade de se abrir e então a Renascença convidou jovens universitários para rezar o terço ao fim da tarde, introduzindo cânticos à viola, reflexões como achasse, havia algumas balizas mas muito poucas. E eu sou convidado por um colégio universitário de meninas para ajudar nesse processo e é dessa maneira que começo a ir à Renascença e a ter a certeza de que queria o caminho da comunicação.

Depois, na BBC, quem é que o convida?

Foi a RTP, convidaram-me para fazer a voz de continuidade, julgo que em 1989. Estive lá três anos. Há um colega meu que hoje infelizmente está arredado porque teve um problema de saúde, o Carlos Duarte, que tinha chegado da BBC de Londres. Era uma voz poderosa, linda, todos gostavam de trabalhar e de privar com ele. Apareço nesse contexto, para nos revezarmos na programação. E daí para os documentários foi um salto. Nos documentários vou encontrar o Eládio Clímaco, a Ana Zanatti, a Margarida Mercês de Mello, gente bonita, interessante, boa, que me ajudou. E é neste contexto que mando uma dica para a mesa que mexeu um bocado, que é o lançamento da estante [suporte] à frente do locutor. Não é possível, sem gesticular, fazer uma boa locução. Temos que estar libertos dos cadernos, das folhas, dessa preocupação, é essencial para falarmos como na vida. Continuo a achar que fui eu que introduzi isso, nunca tinha visto em lado nenhum. No início toda a gente estranhava (risos).

Depois vem a SIC, onde já está há 25 anos. Quanto tempo demora hoje em dia a gravar um programa, por exemplo o BBC Vida Selvagem?

Claro que tive de fazer a minha caminhada, melhorando, polindo, mas hoje é muito fácil pegar num texto que esteja até escabroso, em que as palavras não jogam, e o meu subconsciente já está de tal maneira apetrechado e treinado que volto a frase ao contrário e aquilo ganha poesia e encanto. Agora, com a tarimba adquirida, é pouco mais que o tempo normal, um pouco mais de uma hora. A preparar é que é muito tempo… A tradução leva muito tempo, sou muito exigente, a revisão científica também leva umas boas horas. Tenho um perito para isso. Somos uns quatro, em equipa que ganha não se mexe. Curiosamente a própria SIC faz isso com os técnicos, são quase sempre os mesmos. E depois, no final, faço eu a revisão de todas estas partes para que elas resultem naquele registo que já me conhecem. A minha maneira de falar é um pouco aquela que eu aplico nos guiões. Com fluidez, com muitas nuances, altos e baixos, dando cor às palavras. São quase 30 anos a lidar com estas questões, não só da beleza do discurso mas também da paixão pelo planeta.

Mesmo com a técnica, que foi adquirindo, penso que esse encanto só é conseguido quando se gosta muito daquilo que se faz.

Muito. É verdade pura. Gosto muito do que faço, gosto muito de escrever, todos os guiões (da Loving The Planet) que temos dos filmes são feitos por mim e depois vai alguém para o terreno captar imagens daquilo que digo. É a tal história: o que se escreve primeiro, a letra ou a música? No nosso caso, nasce a letra primeiro e depois a música vem com as imagens que pintam aquilo que é dito. Temos toda uma mensagem que escrevo com os meus olhos de apaixonado, de louco pela natureza.

Pensa no momento em que vai deixar a locução?

Não penso. Só penso em ter força bastante para levar mais longe isto. Aliás, os telespetadores pedem-me muito isso, dizem-me que o documentário sem mim não será a mesma coisa. Começo a acreditar nessas pessoas. Na própria Carta de Reclamação Sobre Portugal [um vídeo partilhado milhares de vezes ao qual emprestou a voz] vi imensos comentários à minha carreira. E isso é bonito. É o registo da minha vida traduzido em pequenos comentários. Há dias fiquei emocionado quando um jovem me escreve e me diz que é de Cabo Verde mas que passou a meninice a ouvir-me. É lindo isto. Dá-me força para continuar.

Costuma sentir esse reconhecimento na rua?

É constante. Uma vez tive um inglês que estava em Portugal há uns anos e que me disse que aprendia português a ouvir-me, que com a minha forma de comunicar conseguia ouvir as palavras todas até ao fim. É isso que eu quero, foi isso que eu quis sempre. E depois ter este retorno é a coisa mais bela que pode acontecer, não há prémio maior do que as pessoas reconhecerem aquilo para o que trabalhámos.

Vou buscar Friedrich para a conversa – lembra-se da primeira vez que experienciou um momento de contemplação pura na natureza, que se sentiu arrebatado pelo mundo que o rodeia?

Não posso fugir à pergunta e sou direto. Mais uma vez recordo-me de um momento que para mim me marcou – e veja por aqui a abertura dos missionários a que estava afeto na altura, em Guimarães. O professor entra na aula e diz assim: ‘Hoje a aula é no campo’. Naquele tempo havia muito menos poluição, estou a falar do início da década de 60. E o professor diz assim: ‘Vou dar um prémio no final a quem registar mais sons da natureza’. Que comunhão maior do que esta é possível? Ficámos todos de ouvido arrebitado para apanhar todos os sons. Os grilos, os passarinhos. O balancear das folhas tem um som próprio, se ficarmos em silêncio nós ouvimos. Quanto mais formos capazes de ouvir, a nossa criança interior desperta para um mundo que devia ser sempre o nosso mas do qual tantas vezes nos divorciamos por força do ruído que nos envolve.

Ganhou esse concurso?

(risos). Não sei se ganhei, não vou arriscar dizê-lo. Mas seguramente fiquei feliz por aquela experiência. Até porque vem daí o meu casamento com a natureza. Já tive pessoas que me contestaram por falar com tanta paixão de sítios nos quais nunca estive. Penso que. se estivesse num país que me pudesse apoiar devidamente, como ao meu colega David Attenborough, que tem essa sorte, seguramente teria ido mais longe e trazido para cá uma leitura muito portuguesa daquilo que visse. Mas não tive, pronto.

Acha que ainda pode vir a ter?

E porque não? Acredito sempre que é possível, francamente.

Entrevista de Mariana Madrinha, publicada no nosso parceiro jornal SOL
Fotografia de Mafalda Azevedo

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Estes documentários são o resultado de 5 anos de gravações um pouco por todo o mundo 

'The Birds and Other Stories' é uma colecção de contos da escritora inglesa 

A obra literária 'The War of the Worlds', ou em português 'Guerra dos Mundos

John Peter Berger faleceu hoje aos 90 anos. O crítico de arte, romancista, pintor