E o rei do kitsch encheu-se de ar

14 AGOSTO, 2017 -

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Esqueçam-se os crocodilos e os golfinhos, as bolas da Nivea a combinarem com bolas de Berlim. Agora é tempo dos donuts e das fatias de pizza virem da América destronar os velhinhos insufláveis. Melhor do que isso só a moda dos cisnes gigantes que nos apresentou Taylor Swift, que logo se fizeram acompanhar pela nova vida dos eternos flamingos.

Exercício de mau gosto ou nem por isso só John Walker para nos esclarecer. Com esse slogan estreava em 1972 o seu Pink Flamingos, comédia negra transgressiva protagonizada por Divine que na América de Nixon conseguiu encontrar o seu público para se fazer filme de culto. América há muito povoada por flamingos de plástico, ícone da cultura popular, ode ao kitsch do subúrbio. Recuemos mais atrás, ao ano de 1957, quando inspirado por uma fotografia da National Geographic Don Featherstone desenhou o primeiro flamingo ornamental de plástico para a Union Products, onde trabalhava. Esculturas vendidas a 2,76 dólares o par, depressa os flamingos cor-de-rosa tomaram o lugar aos gnomos no pódio dos enfeites preferidos de jardim. Conta-se que à data da sua morte, aos 79 anos, Featherstone tinha 57 flamingos no jardim em frente à sua casa, em Fitchburg, no Massachusetts.

Mas, como sempre e em tudo, os dias dos flamingos não foram sempre felizes até aos tempos de hoje.

Como qualquer objeto de decoração kitsch, a criação de plástico de Featherstone teve altos e baixos e esteve praticamente ameaçada de extinção pela cultura hippie na década de 1960 – nos jardins já não se queriam as avezinhas em plástico cor-de-rosa, subitamente desaparecidas das lojas e das revistas de decoração que as substituíam por fontes e rochas a puxarem ao natural. Sol de pouca dura com a década que aí vinha, até porque tudo o que se torna demasiado mau passa a cool para voltar a objeto de culto da cultura material americana. E quando Walker apareceu com o seu Pink Flamingos, o animal de plástico estava já de volta e em força, de novo objeto da cultura material americana como kitsch consciente e irónico, como símbolo de revolta, de indignação. Ostentados como mascotes em bares gay e usados em bijuteria por drag queens, em 1979 um grupo de estudantes da Universidade do Wisconsin-Madison decidiu decorar com 1008 dos pequenos animais de plástico o jardim em frente ao gabinete do reitor – gesto que em 2009 levaria o poder local de Madison a elevar o flamingo ao estatuto de ave oficial da cidade.

E assim o flamingo de jardim foi fazendo o seu caminho até em 1987, nos 30 anos da criação de Featherstone, o governador do Massachusetts o ter lembrado como «contributo essencial para a arte popular americana», ao mesmo tempo que eram criadas a Sociedade Internacional para a Preservação dos Flamingos de Relva e a Flamingo Fanciers of America, num movimento que culminaria com a decisão do Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles começar, em 1998, a vender já mais do que icónicos flamingos na sua loja, por 19 dólares.

Da relva e de todo o tipo de objetos decorativos que os fizeram ressurgir em força neste século (ao lado de ananases e outros que tais) às piscinas e às praias foi menos que nada. Porque nem só nas tatuagens os golfinhos passaram de moda, também nos insufláveis de verão, aos poucos substituídos pelas fatias de pizza, donuts dentados, palmeiras ou cisnes a lembrar os barcos mais antigos que o desenho de Featherstone. Em 2015, Taylor Swift publicou no Instagram uma fotografia com o seu namorado, o DJ Calvin Haris, em cima de um cisne insuflável. Corrida dos seguidores aos cisnes insufláveis – e da imprensa ao que seria este nova tendência, para Paul Anzalone, o responsável pela empresa que desenhou o primeiro cisne insuflável, a Swimline Corp, explicar que foi em 2006 que começou a desenvolvê-lo. «Levámos cerca de cinco anos a que as pessoas realmente se interessassem pelo cisne», disse à Forbes, acrescentando que as primeiras experiências foram com um pato gigante. E os patos podem não ter virado moda, mas os cisnes sim. É espreitar os resultados das pesquisas por #swangoals, #swanlife. Dois anos depois, a Amazon fala num aumento de vendas de insufláveis de piscina gigantes na ordem dos 200% em apenas um ano e neste verão até a Primark e o Lidl se renderam à tendência, oferecendo insufláveis por um preço bem abaixo dos 40 ou 50 euros que rondavam os recém-inventados brinquedos de piscina para adultos do novo século.

Dispararam as vendas dos novos insufláveis, e se se querem cisnes brancos por que não pretos ou dourados (até no verde de mau gosto de Sara Sampaio). E por que não unicórnios, ou os velhinhos flamingos – na verdade nada melhor do que os flamingos, ou nunca ouviu falar no millennial pink?

Artigo escrito por Cláudia Sobral, publicado no nosso parceiro jornal SOL

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