E hei de amar-te assim, perdidamente…

18 OUTUBRO, 2017 -

Amar é oblativo. Não há amor sem dádiva, sem entrega, mas também sem responsabilidade e sem rigor, sem autonomia e sem deveres e direitos

Gosta-se das coisas

Adoram-se os deuses…

… Mas amam-se as pessoas.

Amor. Palavra estranha. Pode parecer esquisita, tantas vezes é usada, seja na linguagem coloquial seja em poemas, romances, na televisão ou como vocativo. Inclusivamente, o verbo usado como constatação, “Amo-te!”, ou na sua forma interrogativa “Já não me amas?”.

A palavra amor é usada em versos e letras de canções. A frase “She loves you, yeah, yeah, yeah” marcou o início da carreira desses jovens “guedelhudos” de Liverpool que, afinal, às luzes atuais, até tinham o cabelo curto e usavam gravata… E que se designaram por Beatles. Jacques Brel implorava, em nome do amor: “Deixa-me ser a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão.” Amarfanhava-se assim, na letra do poema, em nome de algo que cria superior: o amor. Mas será isso o amor?

“Amo o meu filho!”, dizem os pais (por acaso, a talhe de foice, devo dizer que ouço mais o “adoro o meu filho” do que o “amo-o”, mas não nos detenhamos nesse pormenor). Mesmo a maioria daqueles, felizmente cada vez mais raros, que maltratam ou negligenciam os filhos, dizem, quando são descobertos e desmascarados: “Mas, senhor doutor juiz, foi para o educar, foi por amor!”

Estranha esta coisa, o amor, que faz o ser humano reagir das formas mais extremas. Atravessamos continentes para nos reunirmos à pessoa amada, mas também matamos por ciúmes e por falta de amor. Matamos e matamo-nos, em desespero. O amor leva-nos ao limite dos limites, em todos os sentidos do que é ser- -se humano.

Gostamos de amar. A presença do objeto ou da pessoa amada estimula no nosso cérebro as feromonas, hormonas de atração, e as endorfinas, as morfinas endógenas que, à semelhança das drogas legais ou ilegais, causam bem-estar e a sensação de felicidade e de plenitude mesmo que, por vezes, com efeitos secundários desagradáveis e destrutivos.

Há estudos que provaram que um dos maiores fatores protetores em situações- -limite, como os campos de concentração, é ter-se a noção de se ter sido amado, mesmo que esse sentimento seja apenas pertença do inconsciente, e de que alguém, algures, ainda nos quer e nos ama.

O amor liberta, rasga fronteiras e permite que a nossa força venha ao de cima – por vezes, como referi, até de forma inconveniente –, e é o fator maior de ligação entre os seres humanos. Mas… o que é o amor? Ou, posto de outra forma, retirando o artigo definido, o que é amor? O que é amar?

Infelizmente, o sentido do amor mistura-se amiúde com o sentido de posse, num regresso à insegurança e à omnipotência narcísica da infância. “É meu!”, com o subliminar “e, portanto, não será de mais ninguém!”. Porventura, quando algumas pessoas dizem “o meu marido” ou “a minha mulher”, ou até mesmo “os meus filhos”, usam os pronomes possessivos como uma ênfase no termo gramatical que indica um sentido estrito de posse. Por outro lado, há pessoas que ambicionam os que são dos outros pela simples razão de que são dos outros e não seus. Todavia, e que fique claro, o sentimento de posse, legítimo e saudável quando exercido dentro de baias lógicas e legais, refere-se a bens e territórios e não pode nunca aplicar-se, stricto sensu, ao amor.

Para melhor compreensão da necessidade de amar e ser amado, e do que é verdadeiramente o amor, tantas vezes confundido com outros sentimentos, intenções ou desígnios, convém introduzir uma palavra pouco usada na linguagem corrente: oblativo, que significa “que nada tem a cobrar, que nada pede em troca, que apenas é”. Ser oblativo é uma das características do amor ou, dito por outras palavras, não há verdadeiro amor sem este epíteto. Não quer isto dizer – calma, eventuais apressados em tirar conclusões – que amar implique aceitar tudo, perdoar tudo e apagar–se perante o outro. Pelo contrário. Amar é, antes de mais, exigir, ser rigoroso, ser intransigente em termos relacionais, mais do que porventura se seria quando comparando com o que acontece noutras relações, como a de amizade, de colegas ou a negocial.

Amar é ser verdadeiro, ser real, ser até duro e enfrentar as consequências do que se diz, mas dizê-lo com meiguice, com calma, sem aproveitar os erros dos outros para os amesquinhar, empobrecer, atacar ou sobressairmos nós, como tantas vezes vemos fazer ou fazemos, usando as velhas frases: “Eu bem te avisei!”, “Eu já sabia que ia dar nisso!”, “És sempre a mesma coisa!”, “Claro que não se podia esperar outra coisa de ti!”, “Estava-se a ver…», “Isso já eu tinha dito há muito tempo!”.

Amar é, numa definição-limite, não se precisar do outro para nada… e por isso é que se quer o outro, e se conjuga o verbo querer na expressão “querido”. Meu querido. Minha querida. O que significa “quero-te!” para lá das conveniências do dia-a-dia. Sem cobrar, sem ser moeda de troca para nada. Oblativo.

Claro que amar é difícil, complicado, ardiloso… Extenuante. Mas… não será verdade que as coisas mais desafiantes e complexas têm sempre duas faces muito vincadas? Amar é, também, ter de fazer opções, e é por isso que, na presença de várias escolhas, as coisas se tornam, por vezes, muito complicadas.

Amar é oblativo. Não há amor sem dádiva, sem entrega, mas também sem responsabilidade e sem rigor, sem autonomia e sem deveres e direitos. Não há amor – como não há nada na vida – sem o que costumo referir como os “quatro tês” – talento, trabalho, tempo e técnica –, bem como cobrando, vigiando, impondo ou até encarando o amor como um negócio. Amar é amar. Ponto. E até educar é um ato de amor, assim como amar é um ato de educar, uma oportunidade de ensinar e de aprender.

Mesmo que julguemos muitas vezes sermos menos amados do que desejaríamos – sentimento que creio universal –, ama-se quando não se precisa dos outros para nada, ou seja, quando amamos apenas “porque sim”. Se o “porque sim” não é resposta, como nos dizem os psicólogos e pedagogos, neste caso – e excecionalmente – é-o. Mas a simplicidade da resposta não exclui – atenção! – uma série de constrangimentos e valores, de práticas e de métodos. Amar é aperfeiçoarmo-nos mutuamente. Com lógica, com pautas e regras, com sentido e objetivos, com a ideia do que queremos atingir em termos da pessoa e do cidadão que estamos a ajudar a construir e de nós próprios enquanto pessoas em construção também – porque o amor é mais do que um e um aniquilando-se, mas um e um mantendo-se, na construção de um terceiro, o “nós”.

Tão difícil que é amar… mas tão sublime…

Crónica escrita pelo Pediatra Mário Cordeiro / Parceria jornal i

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