E, de repente, era meia-noite no país de todas as cores…

16 AGOSTO, 2017 -

15 de agosto de 1947. Meia-noite. Indian Independence Act. A Índia tornava-se soberana, independente do Império Britânico.

Freedom at Midnight, escreveram La Pierre e Collins, os jornalistas que seguiram, dia a dia, os meses durante os quais Lord Mountbatten, o último dos vice-reis, assumiu a transferência de poderes. Não só para Jawaharlal Nehru, que se tornaria o primeiro-ministro indiano, mas também para Mohammad Al Jinah, o grande defensor da ‘Partition’, contra a vontade de Ghandi, divisão do território em zonas de influência hindu e muçulmana, dando origem ao Paquistão Ocidental e ao Paquistão Oriental, hoje chamado de Bangladesh.

Setenta anos se passaram, entretanto.

As salas de cinema portuguesas apresentam, sobre o acontecimento, na canícula do Verão, Viceroy’s House, realizado por Gurinder Chadah.

Os indianos festejarão um pouco por toda a parte. Por cá, também.

Já fui tantas vezes à Índia, que dificilmente as consigo contar.

Já passei por tantas estações de comboio na Índia que lhes perdei os nomes. Mas em todas encontrei um fascínio especial, um chamado obscuro, qualquer coisa escondida ainda por descobrir. As moscas picam como vespas por cima da roupa, as caras mais indesvendáveis cruzam-se nas plataformas. De onde vem este sikh de turbante cor de laranja e uma estranha pressa na mecânica dos passos? Com que sonha esse velho senhor enrugado bebendo a sua mistela de chá, leite e açúcar de olhar perdido nas linhas paralelas que se encontrarão provavelmente no infinito?

Quem terá direito à ternura daqueles olhos enormes, negros, aveludados, que espreitam por entre as pregas de um chawl púrpura?

As cores e o branco e preto

Homens escuríssimos de longos bigodes; carregadores de berrantes camisas vermelhas e cor-de-rosa; mulheres de meia idade de óculos de aros de massa grossa, barrigas à mostra caindo sobre os lunghis como odres apenas meio cheios; rapazes magros de dhotis brancos e chinelos cambados; guardas de estação de pomposas fardas castanhas e pingalins na mão; raparigas exibindo na testa bindis de cores vivas: encarnados, verdes, azuis, amarelos; homens ocidentalizados de fato e gravata e calças de ganga; gente suando em bica na exasperação do calor húmido; as carruagens enfileiradas num silêncio de ferros prometendo novos destinos e cumprindo sempre as suas promessas.

Há sempre uma certa ideia de Índia em todos os portugueses.

Miguel Torga escreveu: «Somos nós que fazemos o destino./Chegar à Índia ou não/É um íntimo desígnio da vontade».
Hoje, revemos as imagens da Independência, a branco e preto, e recordamos também o dia 17 de maio de 1498.
Dezasseis quilómetros a norte de Kozhikode, em Kappad Beach, um bloco de cimento inexpressivo exibe uma placa que diz: «Vasco da Gama landed here – Kappkadavu – in the year 1498».

A praia em redor não tem a suavidade das praias de Goa, embora abundem as palmeiras e os coqueiros. Kozhikode foi uma cidade de importância fundamental no comércio de especiarias do Mar Arábico, capital da poderosa dinastia de Samorim. Os portugueses chamaram-lhe Calecute.

«Esta cidade de Calecute é de cristãos, os quais são homens baços; e andam, deles, com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas, e outros tosquiadas. E andam nus da cinta para cima; e para baixo trazem uns panos de algodão muito delgados. E estes que assim andam vestidos são os mais honrados; que os outros trazem-se como podem».

Assim descreveu Calecute João Nunes ou João Martins, como também é por vezes identificado, o primeiro português a pisar as ruas da cidade, um degredado que Vasco da Gama mandou a terra para as primeiras impressões.

Entenderiam mais tarde os portugueses que estes cristãos que julgavam encontrar na Índia não eram cristãos e sim hindus, e que os santos vestidos de formas estranhas a que rezavam não eram santos e sim deuses ainda hoje para nós tão incompreensíveis. Assim era Calecute, assim não é agora Kozhikode. A antiga Calecute resume-se, hoje, aos investimentos dos seus emigrantes nos países do Golfo Pérsico e à decadente indústria dos barcos de madeira.

Estar na multidão

Setenta anos decorrem sobre a Independência.

Espreitei por todo o mundo o cancro devastador da pobreza. Mas na Índia vi a miséria. Uma miséria capaz de marcar a memória com o ferro em brasa de uma chaga que se não explica.

Dizem as estatísticas que, de há vinte anos a esta parte, entram em Bombaim mil e quinhentas novas pessoas por dia. Vêm dos campos e trazem nada consigo. E em Bombaim não há espaço para eles. Os velhos blocos de apartamentos estão cheios, os arranha-céus, entretanto construídos, estão cheios, as barracas erguidas a torto e a direito estão cheias. Foi V.S. Naipaul,  Nobel da Literatura, que escreveu: «Estar em Bombaim é estar na multidão permanente. De dia, as ruas estão apinhadas; de noite, os pavimentos estão repletos de gente que dorme».

Os pobres são necessários em Bombaim. Eles são as mãos e o trabalho barato. Mas a cidade não foi feita para os acomodar. As estatísticas dizem também que cerca de duzentas e cinquenta mil pessoas dormem nas ruas de Mumbai, como agora lhe chamam. É preciso entender que a mendicidade sempre foi importante para os hindus como uma espécie de teatro religioso, uma demonstração dos trabalhos do karma, uma lembrança permanente das obrigações de cada um para consigo próprio e para com as suas vidas futuras. Apenas o exagero dos números foi, com o tempo, desvalorizando esta ideia.

Índia! Um nome que se murmura como um grito de milhões de gargantas desafinadas.

Artigo escrito por Afonso de Melo, publicado no nosso parceiro jornal SOL

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