“A estratégia do louco” pode fazer buuum

14 AGOSTO, 2017 -

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Nas últimas semanas, Donald Trump ameaçou destruir a Coreia do Norte e invadir a Venezuela. Estamos perante mera má retórica ou o mundo corre perigo de morte?

Numa fascinante reportagem publicada na revista brasileira “piauí”, o jornalista da “New Yorker” Evan Osnos relata a última moda dos multimilionários norte-americanos: preparar-se para um mundo depois de uma catástrofe nuclear. Steve Huffman, de 33 anos, cofundador e CEO do site Reddit, avaliado em 600 milhões de dólares, era míope até novembro de 2015, quando fez uma intervenção a laser nos olhos. Não por vaidade, mas por um motivo sobre o qual não costuma falar muito: aumentar as suas probabilidades de sobreviver a um desastre provocado pelo homem. “Se o mundo acabar – não só se o mundo acabar, mas se tivermos problemas –, conseguir lentes de contacto ou óculos vai ser uma chatice.” Huffman vive em São Francisco. A sua preocupação maior não é uma ameaça específica que poderá levar o mundo à catástrofe, mas “o colapso temporário do governo e suas estruturas”, nas palavras dele. “Tenho várias motos. Uma enorme quantidade de armas e munições. E comida. Acredito que assim possa proteger-me em casa por algum tempo e assim sobreviver.

O sobrevivencialismo, a prática da preparação para o colapso da civilização, é em geral associada a loucos que acreditam em teorias da conspiração e compram todas as latas de feijão e armas que podem. Mas nos últimos anos, estas prática expandiram-se para zonas dos ricos, tendo seguidores entusiastas em Silicon Valley e em Nova Iorque, entre os administradores de empresas de tecnologia de ponta e gestores de fundos de investimento.

A aparente extravagância é confirmada pelo relógio do juízo final, mecanismo que cientistas criaram para analisar as possibilidades de o planeta ser destruído por uma guerra atómica: atingimos, em 2017, os dois minutos e meio de distância temporal do momento de destruição, o valor mais grave desde 1945. As recentes declarações do presidente dos EUA sobre a Venezuela e a Coreia do Norte não ajudam nada à confiança de que o mundo não será destruído em poucos segundos.

O presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou no dia 11 de agosto intervir na Venezuela: “O povo sofre e há gente que morre. Nós temos em cima da mesa numerosas opções para a Venezuela, nomeadamente uma possível ação militar, se necessário”, declarou aos jornalistas. Quando estes lhe pediram explicações sobre como isso poderia suceder, o presidente dos EUA foi evasivo: “Não falarei sobre isso, mas uma operação militar – uma opção militar – é certamente algo que nós podemos levar avante.” Uns dias antes, no gozo de férias, em que supostamente estaria a estudar a Bíblia num campo de golfe de Bedminster, Trump declarou que a Coreia do Norte poderia sofrer “o fogo e a fúria, e francamente com uma potência tal como o mundo nunca conheceu”. A citação refletia, segundo o site francês Mediapart, o profeta Isaías ou, mais provavelmente, um jogo de tabuleiro que Trump teria jogado na sua juventude.

Os chineses, que visivelmente não acham piada a jogos sociais dos anos 50, deram a conhecer a sua posição num editorial de um jornal do Partido Comunista Chinês: avisaram a Coreia do Norte que qualquer ataque preventivo aos EUA faria cair o seu acordo de cooperação e defesa com Pyongyang, datado de 1961. Mas os chineses também alertaram os EUA para que, se a Coreia do Norte fosse atacada sem nada ter feito, eles responderiam e honrariam o compromisso, ripostando militarmente.

O comportamento aparentemente errático e agressivo do atual morador da Casa Branca é há muito defendido por ele como forma de ganhar vantagem negocial. Em 1984, tinha 38 anos, Donald Trump declarou ao “Washington Post” que queria negociar acordos nucleares com os soviéticos. “Levaria uma hora e meia para aprender tudo sobre mísseis”, declarou. “E, de todo o modo, acho que já sei quase tudo.” Segundo Bruce G. Blair, investigador do Programa de Ciência e Segurança Global da Universidade Princeton, Trump, numa receção em 1990, encontrou um negociador americano de armas nucleares e deu-lhe conselhos sobre como fazer um acordo “genial” com o seu homólogo soviético. Disse-lhe para chegar atrasado, encarar o interlocutor, enfiar-lhe o dedo no peito e dizer: “Fuck you!” Parece que o novo presidente vai experimentar o singular método nas costas da Coreia do Norte mas, desta vez, em vez do dedo vai utilizar bombas.

Não é a primeira vez que um presidente norte-americano corre para o botão nuclear depois da ii Guerra Mundial. Houve ocasiões em que a catástrofe esteve por muito pouco. Depois de Nixon ter mandado descolar bombardeiros nucleares rumo à União Soviética, para mostrar a sua determinação e que poderia atacar com essas armas o Vietname do Norte, a sua equipa passou a vê-lo com outros olhos.

A estratégia do louco teve um papel importante na política externa de Richard Nixon, em que ele e a sua administração tentaram fazer com que os líderes do bloco comunista pensassem que o presidente era irracional e inconstante. Segundo a teoria, os líderes evitariam então provocar os Estados Unidos, pois temeriam uma resposta americana imprevisível.

Nixon explicou ao seu chefe de gabinete, H. R. Haldeman, as virtudes da estratégia: “Eu chamo-lhe a estratégia do louco, Bob. Quero que os norte-vietnamitas acreditem que eu chegaria ao ponto de fazer qualquer coisa para acabar com a guerra. Iremos dizer apenas algumas palavras – ‘pelo amor de Deus, vocês sabem que Nixon está obcecado com o comunismo, não conseguimos detê-lo quando ele fica enraivecido, e ele tem a mão sobre o botão nuclear’ – e Ho Chi Minh estaria em Paris em dois dias, implorando a paz.” Resultado? Em 25 de abril de 1975, os vietnamitas tomavam Saigão, expulsando os EUA e seus aliados.

Durante as semanas finais do escândalo Watergate, em 1974, alguns dos assessores do presidente viam-no como uma pessoa instável. James R. Schlesinger, o secretário da Defesa à época, emitiu uma diretiva para o chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, solicitando que “qualquer ordem de emergência proveniente do presidente” passasse por ele, Schlesinger, antes que se desse curso a qualquer tipo de ação – assim relata James Carroll em “House of War, uma História do Pentágono”. Resta saber se farão o mesmo com Trump.

Artigo escrito por: Nuno Ramos de Almeida, publicado no nosso parceiro jornal SOL
Ilustração: Læmeur, hollywoodreporter

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