Dois dias a MIL no Cais do Sodré

12 JUNHO, 2017 -

O MIL – Lisbon International Music Network surgiu apresentando-se como mais do que um simples festival, uma convenção internacional de música, cuja principal missão é a divulgação da musica portuguesa e lusófona. E foi aí mesmo que trinfou. Nesta primeira edição pudemos contar, durante dois dias e num setting noturno verdadeiramente lisboeta – os místicos bares do Cais – com concertos quer dos mais celebrados artistas que enriquecem a biblioteca lírica nacional, como B Fachada ou Linda Martini, quer com emergentes bandas de rock soalheiro que, na língua inglesa se aventuram durante o seu processo criativo, quer ainda com artistas baseados noutras partes do mundo, Brasil e França, para exemplo.

Duas noites agradáveis, bons concertos espalhados pelas salas mais emblemáticas do Cais do Sodré. O B.Leza é, claramente, o espaço mais bonito de todos da zona, com uma montra elegante sobre o rio Tejo, enquadrando a ponte 25 de Abril e o Cristo Rei. Os First Breath After Coma levaram-nos até lá, quatro anos depois de os termos visto ao vivo pela última vez, no saudoso e mítico Bacalhoeiro. O quinteto leiriense carrega com todos os braços a força do post-rock. Não se subjugando às influências de Explosions In The Sky, a banda portuguesa explora as harmonias que as guitarras podem dar, acrescentando camadas ambientais através dos sintetizadores. A simpatia destes jovens é contagiante, ninguém ficou indiferente ao seu profissionalismo em palco, munidos de um baterista tecnicamente acima da média e muito certinho. O momento da noite ficou guardado para “Umbrae”, com a subida ao palco de Noiserv.

Começámos a primeira noite com uma lufada de rock de Mazgani, que nos despertou os sentidos no Roterdão. O cantor, natural do Irão, mas baseado em Lisboa, já há uns belos anos que se faz ouvir nestas andanças, e, de entre os temas reproduzidos, deixou ficar bem fresco na memória a muito blues-rock “The Traveller”. Seguiram-se os Galgo, desta no Sabotage. Foi uma euforia psicadélica de sala cheia, em que entregaram um compêndio de ritmos urgentes e distorcidos, de bateria sólida e guitarras estridentes, como já haviam demonstrado em “Pensar Faz Emagrecer”, do ano passado.

Os concertos continuavam a multiplicar-se pelas diferentes salas, e por isso, deu-se um rápido regresso ao Roterdão. A sala minúscula não diminui a força eléctrica dos Stone Dead. Lançaram o caos pela sala, numa chinfrineira rock que roça o punk. A escolha deste espaço foi certeira para um quarteto, capaz de tornar a actuação numa espécie de celebração punk numa casa ocupada.

Ora, ainda faltava meia hora para o concerto do tio Fachada e já tinha existia uma fila à porta do MusicBox que ia além do Europa. Mas é decerto compreensível, que já são muitas as saudades e o desejo de novos temas deste grande cantautor. Iniciou de guitarra, passando pela “Joana Transmontana”, e num instante, por entre as larachas típicas e expressões peculiares que costuma exibir, mudou-se para as teclas, começando a entregar os ansiados temas de afro-beat, “afro-xula” e “crús”, entre eles. Após um desanque em Zé Barros, que claramente estava overwhelmed pela sua tarefa enquanto técnico de som, ainda agraciou o público com o clássico “tó-zé”. E sim, acabou o set com a “quem quer fumar com o b fachada”, rodando o imaginário pica de uma mão para a outra.

Antes dos Capitão Fausto, ainda há tempo para o show dos Sensible Soccers. Um concerto discreto, onde o baixo volume do PA na sala não ajuda à expansão das atmosferas dançáveis do conjunto nortenho. A verdade é que o muito público presente lá se foi agitando com as muito apetecíveis, e já icónicas malhas “AFG”, “Shampom” e “Bolissol”.

Se havia fila para Fachada, nem se fala então para Capitão Fausto, porque, como já haviam provado no passado Dezembro, estes sempre jovens-senhores são mais que capazes de esgotar um coliseu. E foi mesmo muito bom. Foi engraçado acima de tudo ver aqueles cinco num palco tão pequeno. O público estava para lá de exaltado, e a plenos pulmões foram cantadas “Morro na Praia” ou “Tem de Ser”. E o moche. Houve muito moche, que a “Verdade” e outros temas dos dois primeiros álbuns por isso bem puxaram. Foi festarola, e quem bem que calhou.

E mais um passeio, desta feita à rua traseira, o Sabotage recebe os Marvel Lima para uma bela festa repleta de paisagens áridas, quentes e psicadélicas. Abraçam cada canção, e entregam-se com competência às várias pessoas que os escolheram em detrimento de nomes como PAUS ou Capitão Fausto. Nem a corda partida travou a força da banda que trouxe no alinhamento “Fever” e “Mi Vida”.

Deu-se por terminada a noite com White Haus a entregar um synth pop dançável muito ‘80s, cheio de sabor, cor e atrevimento, que deixou a desejar que sexta-feira não fosse dia de trabalho.

Dia 2 houve no Espaço Atmosferas uma conferência sobre a música lusófona no mundo, que pôde contar com a presença de representantes de quatro diferentes regiões geográficas – Brasil, Cabo Verde, Portugal e Macau. Falou-se sobre a propagação da lusofonia através da cultura, particularmente musical, do papel da música cantada em português na preservação da identidade (ao invés da reprodução estilística de outros países), e ainda de Portugal enquanto ponto de encontro dessas diferentes culturas. Ainda que interessante, teria sido de valor uma maior abordagem relativa a meios e soluções de fazer chegar essas diversas culturas aos diferentes países lusófonos, como Macau e Cabo Verde, por exemplo, que, pelos testemunhos dados, ainda se encontram bastante distantes nesse aspeto. Mas o tempo não estica, e a tarde estava preenchida.

A noite começou de novo no Roterdão, desta com Cave Story a apresentarem um intemporal indie rock, que tanto ouvimos dos The Strokes nos 2000s, como agora nas guitarras de Parquet Courts, sendo uma boa representação da universalização de géneros musicais por terras lusas. Apresentaram “Body of Work” entre outros temas do recentemente lançado “West”. Foi doce e trouxe memórias da irreverência juvenil.

O regresso ao B.Leza estava destinado, depois de um compasso de espera, eis que sobe ao palco, um dos representantes máximos da música popular contemporânea. Medeiros/Lucas fazem da poesia o seu porto de abrigo, cruzam-na com a modernidade atestada de reverbs e uma guitarra que se multiplica em acordes transbordantes de portugalidade. “Corpo Vazio” levou até ao palco a bonita voz de Selma Uamusse, “Navio” naufragou pelo mar acima e deixou-nos de coração cheio. Provavelmente, o melhor concerto do MIL.

No Tokyo, Éme apresentou o fresquíssimo –com duas semanas – “Muito Chorei eu num Domingo à Tarde”, acompanhado de Moxila (“Power Couple”, gritou Manuel Lourenço, Primeira Dama, que também deu um saltinho ao palco durante o concerto), e, quem ouviu sem conhecer, nunca diria que era um álbum tao recente, porque toda a gente sabia as letras! Desinibida e descontraidamente cantaram e tocaram, destacando-se a melancolia nostálgica de “Buraquinho” – o clarinete! – e a alegria da “Comboio”. A muito esforço, ainda conseguiu dar uns toques na “Cara que Tenho”, bem ajudado pelo sempre cooperante publico. Valeu bem.

Linda Martini provocaram nova enchente dentro e fora do MusicBox, como era espectável. Veteranos a honrar a língua portuguesa, foram eles desta vez os honrados, pelas letras gritadas durante todo o set. Tendo já visto a minha mão cheia de concertos de Linda, devo dizer que foi a “Cem Metros Sereia” mais efusiva a que já assisti, com o público a abafar completamente as vozes do Geraldes, da Cláudia, do André e do Hélio – mais uma vez fruto da intimidade garantida por esta sala. Mas não foram só as músicas antigas que provocaram essa comoção, também as mais recentes “Panteão” e “Unicórnio de Sta. Engrácia” o fizeram. No fim, já sem banda em palco, foi entoada em uníssono a lamúria de “Dá-me a tua melhor faca”.

Todos sabemos que Ricardo Martins é um baterista monstruoso, também sabemos que Jibóia é um príncipe da Pérsia que despeja riffs arabescos pela noite fora. “Masala” contagia a dança por todo o Sabotage, que também teve direito a algumas malhas mais antigas como “Manasha”. Assim se fecha a última noite de concertos.

Um festival competente, bem organizado, que não é só um conceito interessante, mas também um palco aberto ao debate e às novas experiências na indústria da música.

Texto por João Horta e Sara Costa Dias

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