Django Reinhardt, a efervescência do jazz europeu

23 JANEIRO, 2017 -

Nascido na Bélgica mas naturalizado francês, Django Reinhardt tornou-se num dos principais nomes daquilo que o jazz viria a ser. Um género musical com diversas ramificações, tais como o coração e as suas extensões arteriais e venosas. Uma delas foi o gypsy jazz, que conheceu os tributos e préstimos da guitarra de Django, incluindo a sua cultura num estilo musical ainda em vias de desenvolvimento. Não obstante os atribulados anos do século XX, fez parte dos movimentados anos 20 e 30 de Paris e deu-lhes melodia e sintonia com a vanguarda artística proeminente e iminente. Mesmo enfrentando algumas intempéries a nível pessoal e tendo vivido durante menos de meio século, Django Reinhardt distinguiu-se como um dos importadores do jazz para o velho continente e por o infundir numa cultura mais popular e efervescente.

Jean Reinhardt nasceu a 23 de janeiro de 1910 em Liberchies, uma vila na Bélgica que não distava muito da fronteira francesa. O seu seio familiar estava sedimentado numa comunidade cigana, crescendo o pequeno num acampamento no qual foi acompanhado de bem perto pelos seus pais. A sua casa era feita de madeira e tinha rodas, possibilitando a sua mobilidade e transpirando uma mentalidade mais informal e liberal do que o usual na sociedade de então. A alcunha “Django” proveria do dialeto cigano romani, significando “eu acordo”. Com cinco anos, porém, o pai abandonou o agregado familiar, deixando a mãe a cargo de Jean e de outros dois filhos, de seus nomes Joseph e Sara. Em 1920, com o futuro músico a ter dez anos, a família moveu-se para os arredores de Paris, após ter vivido em vários lugares da Europa Central, mas numa zona mais pobre e modesta que se ressentia da Primeira Guerra Mundial. Porém, o seu futuro envolver-se-ia na apoteose e na alegria criativa que a capital francesa possibilitava para os génios descobertos e a serem revelados.

Aos doze anos, e após demonstrar interesse e curiosidade pelo talento musical, recebeu de um vizinho um banjo, um instrumento de cordas e muito ligado a música mais enérgica e endógena. Integrando-se numa comunidade musical nesses tempos de adolescente, aprendeu rapidamente a tocar piano, violino e até pratos, dando-se a toda a multiplicidade de tipos de materiais musicais. Após uma fase de rápida assimilação das virtudes de cada órgão, começou a atuar com o acordeonista italiano Vétese Guérino numa casa de dança, tendo depois atuado com nomes como o francês Jean Vaissade e o suíço Fredo Gardoni. No entanto, e até lá, a música que produzia era maioritariamente popular e um tanto ou quanto rudimentar, apesar de deixar um rasto decisivo para o estilo que Django viria a desenvolver. O interesse pelo jazz nasceria aos 16 anos, para além da admiração por compositores como Claude Debussy, Maurice Ravel ou Igor Stravinsky.

O músico, mesmo sendo analfabeto e nunca tendo uma educação musical formal, foi autodidata durante toda a sua vida e beneficiava de uma arguta perceção sensorial que tinha vindo a desenvolver. A sua primeira gravação viria a junho de 1928, ao lado do acordeonista Jean Vaissade, tendo recebido quinhentos francos pela produção. Em outubro do mesmo ano, contando também com um acordeonista no francês Victor Marceau. Tocando banjo nas duas, assinou as gravações com “Jiango” e “Jeangot” respetivamente. Apesar do sucesso granjeado durante o ano, no dia 2 de novembro, Django queimou-se em várias partes do corpo com gravidade após aproximar umas flores artificiais feitas de papel e de celulose feitas pela sua primeira esposa, de nome Florine Reinhardt, de uma vela. O artista correu o risco de ver a sua perna direita amputada, não a conseguindo mover durante dezoito meses. Com os seus dedos anelar e mindinho da mão esquerda a perderem mobilidade e força, Django decidiu superar-se e conceber uma forma própria de tocar guitarra, paixão que viu escapar-se pelos dedos. Assim, esses dois dedos seriam só usados para acordes e não mais do que isso, relegando para os outros os solos compostos. A sua locomoção deveu-se essencialmente ao suporte de uma bengala.

Os anos 30 voltariam a querer cruzar a fortuna e o músico belga, com Django a juntar-se à orquestra do contrabaixista e acordeonista francês Louis Vola. Com ela, fez uma digressão nacional, culminando numa presença em Cannes no verão de 1931. Como influências para a sua remodelação musical, foi influenciado pelo guitarrista Eddie Lang, pelo violinista Joe Venuti, pelo pianista Duke Ellington e pelo trompetista Louis Armstrong, todos eles expoentes do jazz norte-americano. Essas tendências fizeram-se sentir cada vez mais na forma como interpretava e como conduzia a sua guitarra para vibrações mais envolvidas e delicadas, mesmo sem nunca perder o rasgo identitativo popular e entusiasta das suas origens. Para além disso, a forma como improvisava e tocava era de tal forma única que se tornou facilmente reconhecido nos diversos clubes onde atuava e nos círculos artísticos nos quais se integrava cada vez mais. Esta fusão que viria a caraterizar o seu registo musical designava-se por gypsy jazz e traduzia em pleno essa espontaneidade proveniente da musette pela qual os acordeonistas franceses se destacavam e a tentativa de se associar a esse género musical emergente na Europa. O jazz não era o único género que lhe aprazia tocar, acabando também por se levar pela música popular russa e por trupes de música dançante, mas não era difícil de se detetar um brilho naquilo que produzia com sentido de se aproximar dos seus ídolos do outro lado do Atlântico. O seu nomadismo viria a fazer com que Django efetivamente fosse a esse lado que clamava pelos seus talentos e pelas suas virtudes musicais, ligando-se com sentido e coração à vibração apaixonada e compassada do jazz.

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Este apreço pelo estilo musical acabou por lhe ajudar a encontrar o pianista e violinista francês Stéphane Grappelli, com quem viria a atuar em várias jam sessions e até em sessões de estúdio. Com 34 anos, Django acompanhou duas outras orquestras de acordeonistas e de outros instrumentistas, sendo elas as de Jean Sablon, a de Germaine Sablon, a de Michel Warlop e a de André Eykan, com esta, viajou pela Costa Azul ao som da sua guitarra e dos acordeões dos seus parceiros.

Também com essa idade, foi convidado pelos líderes do Hot Club de France, Pierre Nourry e Charles Delaunay, para atuar com eles. Numa audição na gravadora Odéon, o grupo foi rejeitado pelo seu modernismo excessivo. Não obstante, e ao lado do seu irmão guitarrista Joseph Reinhardt, do também guitarrista Roger Chaput e dos seus conhecidos Grappelli e Vola, o grupo tocou na École Normale de Musique, firmou-se o Quintette du Hot Club de France, no qual o gipsy jazz ganhou raízes e repercussão por todo o continente. A combinação de cordas empreendida foi inovadora, para além de um estilo que se aproximava do ritmo irreverente do swing e que contava com a eletricidade do contrabaixo Louis Vola, com a consistência de Joseph e de Chaput e com a criatividade de Django e de Grappelli.

Mesmo assim, as críticas fizeram-se sentir, em especial voltadas para Django, sendo contra o som muito cigano e com o figurino do músico. Quatro canções foram gravadas pela Ultraphone por esta que foi a formação mais conhecida do grupo. “Dinah”, “Tiger Rag”, Oh Lady Be Good” e “I Saw Stars” foram os nomes dessas faixas musicais que viriam a entrar em 1935 com intenções de não se remeter para os ouvidos dos franceses. Chegando a ser comparado aos melhores artistas americanos, o belga chegou a atuar com o saxofonista Coleman Hawkins, ao lado do seu antigo colaborador Michel Warlop, com quem nunca chegou a deixar de colaborar.

Os elogios faziam-se sentir tanto da imprensa francesa como até da inglesa e da norte-americano, sendo-lhes louvado o arrojo e a originalidade na utilização de ritmos fortes e aquecidos pelo fulgor artístico de todos eles. Em março de 1935, novas músicas foram gravadas, sendo elas “Lily Belle May June”, “Sweet Sue, Just You”, “Confessin’” e “The Continental”. No resto do ano, mais seriam gravadas, destacando-se “Djangology”. Foram várias as recordistas que não resistiram em lançar álbuns do grupo, incluindo a britânica Decca Records. No ano seguinte, o artista permaneceu em estreita ligação com Jean Sablon, para além de firmar uma parceria frutífera com o compositor Jean Tranchant. As gravações com o Hot Club não cessaram e foram realizadas, entre outras, “In The Still Of The Night “, “Georgia on My Mind”, “Nagasaki”, “Minor Swing” e “My Serenade”. Para além de dádivas remetidas a Django, também Grappelli era comparado ao violinista Joe Venuti. A sua fama permitiu-lhe gravar também a solo, lançando “St. Louis Blues” e “Bouncin’ Around (Rhythm in G Minor)” em 1937, contando com os talentos do guitarrista Louis Gaste e do contrabaixista Eugène D’Hellemmes.

Na curva transitória para a década de 40, estava a Segunda Guerra Mundial, que forçou Django a deixar a sua esposa e a casar-se quatro anos depois com Sophie Ziegler, de quem teve um filho denominado Babik e que seria guitarrista. Com a permanência de Grappelli no Reino Unido, o belga foi secundado pelo clarinetista gaulês Hubert Rostaing. Apesar de pertencer à comunidade cigana, o músico, ao contrário de muitos dos seus congéneres, não foi preso e isto deveu-se em parte à proteção de um oficial nazi que apreciava jazz, tal como Dietrich Schulz-Köhn, conhecido por “Doktor Jazz”. Isto foi temporário graças à crescente oposição do regime em relação ao estilo musical, com Django a investir na escrita de música, tal como um requiem referente à perseguição feita aos ciganos. Como não tinha formação formal de música, tudo o que fazia eram improvisações que eram apontadas por um assistente da sua confiança.

No final da Guerra, o guitarrista voltou a encontrar-se com Grappelli e com ele partiu para os Estados Unidos da América, chegando a atuar no reputado Carnegie Hall e privando com o seu ídolo Duke Ellington. Apesar desse privilégio nutrido por ele, o europeu sentia-se desencantado por não ter nenhuma oportunidade de expressar todo o virtuosismo pelo qual era conhecido na Europa, estando privado do seu Selmer Maccaferri, instrumento que celebrizou. Tudo isto contribuiu para um balanço negativo realizado pelo artista após regressar dessa digressão, mesmo tendo sido dos primeiros a se deixar encantar pelas notas entoadas pelo saxofonista Charlie Parker e pelo trompetista Dizzy Gillespie.

No seu regresso a França, o desejo de voltar para a sua vida quotidiana na comunidade cigana dominou-lhe as intenções, tendo vários episódios caricatos daí em diante, tais como esquecer-se do instrumento ou recusar a levantar-se da cama em diversas ocasiões. Em 1948, e após recrutar um baixista, um pianista e um percussionista, Django gravou o álbum “Djangology“, contando com Grappelli no violino a endereçar as habituais coordenadas criativas. Contudo, o período de tempo vivido nos Estados Unidos tornaram Django ainda mais associado e ligado às suas predileções americanas, dissociando-se um pouco mais das suas origens e daquilo que lhe tornou um artista pioneiro na orientação e produção musical. Com somente 43 anos, o belga foi vítima de uma hemorragia cerebral e, devido à demora de atendimento médico, o artista foi declarado morto à chegada ao hospital de Fontainebleau, cidade onde vivia. Corria o dia 16 de maio de 1953 e fugia do alcance material algo que fez tanto pela sua transcendência.

Django Reinhardt foi um dos mais influentes e irreverentes artistas musicais da história não só do jazz mas de todo o esforço e concretização criativa. Congregando as suas origens populares e emocionais com a harmonia sentimental e sensorial suscitada pelo jazz norte-americano, o músico desenvolveu o gypsy jazz ao lado dos seus companheiros do quinteto que abriu portas para a formação e formulação dos futuros grupos de composição musical do género. Os conceitos de “Lead Guitar” e de “Rhythm Guitars” nasceram no seio do grupo, chegando estes a usar as guitarras como método de percussão quando não existia material talhado para tal. A constante vontade de aprender, de experimentar e de se deixar encantar pelo que vinha de fora nunca esteve adormecido no seu percurso artístico, mostrando-se isto nas inúmeras parcerias que estabeleceu com diferentes instrumentistas. A sua influência foi de tal forma global que cruzou o cinema de Woody Allen (“Sweet and Lowdown“, de 1999, conta a história de um guitarrista que idolatra Django Reinhardt) com a música de Jimi Hendrix (cujo grupo se chamava “Band of Gypsys“) e de Carlos Santana (explorador de uma confluência entre blues, rock e música latina), com a astronomia (um planeta tem o nome de 94291 Django) e com a informática (a linguagem de programação Python tem uma web framework designada Django). Tudo isto exemplifica a transcendência material de um artista que se rejuvenesceu e entoou até final.

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