‘Dheepan’ é um filme essencial, com significado actual e urgente

20 MAIO, 2016 -

Eis que nos chega mais um filme de Jacques Audiard, Dheepan chegou a Portugal a 12 de Maio deste ano e não desilude. Dheepan é um dos vencedores da Palma de Ouro do Festival de Cannes e fala-nos de imigração, que é uma questão bastante pertinente e actual não só para Europa mas também no resto do mundo. Este é um contexto que não pode ser ignorado quando se fala do filme. A salvação que os refugiados procuram actualmente na Europa traz ao filme um simbolismo individualizado.

O filme conta-nos a história de três habitantes do Sri Lanka e da sua vida a ser a cada dia mais destruída pela guerra civil. Um homem (veterano de guerra) , uma mulher e uma criança órfã, são estas as três personagens que completam o filme e nos mostram o seu ponto de vista sobre a guerra, a imigração, sobre a sociedade e sobre a política.

Estas três personagens tem a oportunidade de escapar à guerra fingindo ser outras pessoas, e imigrar para outro país como uma família, dita ‘normal’. A travessia de um mundo oriental para um mundo ocidental é muito bem retractada e chega ao espectador como uma espécie de choque adaptativo. Passar de um pais destruído pela guerra, pela morte e pela desgraça, para outro onde o desafio é ser civilizado, saber conviver e saber estar (neste caso na cultura ocidental).

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É bastante interessante esta crítica ao ocidentalismo, porque é normal para um Europeu ir à escola, ter o que comer, ter direito à habitação etc etc.  É neste mundo ocidental que somos confrontados com uma desigualdade. Aqui onde damos tudo como garantido, onde o aparecimento de imigrantes e a sua visão completamente diferente, muito mais próxima das necessidades básicas que o ser humano precisa e muito mais afastada dos luxos do consumismo.

Essa desigualdade e alienismo sentido é potenciado por Audiard com a soberba exploração da estranheza desta família de fachada (que não é mais que a união de três elementos estranhos a si mesmos). A diferença de dialectos, as culturas estranhas a si mesmas são obrigadas a conviver nestes “subúrbios” que se formam nas periferias das grandes cidades.

É um filme que toca exactamente num ponto sensível, a questão da imigração. O filme passa-se maioritariamente em França, um dos países que contém mais imigrantes e um dos pontos mais escolhidos para imigrar.  É um filme que nos dita todo um cenário político e que envolve sempre questões sociais, problemas de adaptação ou choque cultural.

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No entanto, o filme não aborda só os problemas sociais do ponto de vista da imigração, mas também crítica o próprio país e os próprios problemas internos, como é o caso da violência ou do tráfico de drogas e de armas, factores explosivos quando conjugados com diferentes culturas e interesses.  

Partir para o desconhecido, não saber a língua, não saber o como, apenas saber que é ali. Há uma espécie de amputação emocional e social, algo é tirado àquelas três personagens. Deixaram a guerra e deixaram a casa para trás. As personagens a partir daqui ganham um peso incrível, o peso da vida, o peso da sobrevivência , o pesa da diferença e o peso da desigualdade.

Audiard chega de alguma forma a comparar a guerra civil no Sri Lanka com a guerra e violência nos subúrbios em Paris, é uma espécie de guerra diferente mas ainda assim é uma guerra.

Nos aspectos técnicos realça-se a banda sonora (Nicolas Jaar) e a fotografia de Éponine Momenceau que consegue achar os enquadramentos certos para o tamanho da mensagem que o Realizador quer remeter. Trabalha as diferentes tonalidade de forma suave mas evidente.

O final era completamente desnecessário, aqueles últimos 4 minutos, deixaram de certa forma uma mensagem hipócrita, como se a Inglaterra não tivesse também os seus problemas de violência e readaptação. Tirando o final, Dheepan é um filme de imenso valor, essencialmente político e humano, onde a questão da imigração e da readaptação, inclusão social, sendo assuntos complexos e difíceis de explorar conhecem neste filme de Auditar, rostos, vidas.

O realizador volta assim a explorar o ser humano num contexto estranho a si mesmo. Não com a mesma qualidade global com que o fez em Ferrugem e Osso (De rouille et d’os) ou de Um Profeta (Un prophète), Jacques Audiard torna Dheepan num filme essencial com significado actual.

Texto de Sara Camilo e João Vieira

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