Dez filmes africanos sobre a realidade da pobreza no continente

18 DEZEMBRO, 2016 -

É de si sabido que o cinema possui um papel mobilizador intenso e imenso, catapultando gerações para o passado, consciencializando-as do presente e fomentando-as para o futuro. Esta vertente de enunciação e exposição da realidade faz da sétima arte um recurso de vulto para a atividade comunitária e global.

É com base nestes preceitos que também a pobreza em África é dissecada em cinema, com produções de origens várias dentro do próprio continente. Desta forma, apresentam-se dez trabalhos que dissecam sobre a realidade das faixas mais pobres deste continente que, por mais que se realce o seu estado depauperado, passa despercebido na azáfama ocidental. A lista foi desenvolvida pela organização internacional ONE.

1. Moolaadé (2004) | Senegal

Realizado por Ousmane Sembène, este filme senegalês incide sobre a problemática da mutilação genital. Assim, a história circunda Collé, a segunda esposa de uma família poligâmica e que se recusa a viabilizar que a sua filha sofra essa prática. Para além desta, protege também três jovens raparigas da sua aldeia a partir da aplicação de  proteção mágica, lá designada por “Moolaadé”. Este projeto foi premiado em Cannes e pretende reivindicar a prosperidade e o bem-estar do ser humano.

2. The First Grader (2010) | Reino Unido / Quénia

Este filme baseia-se em factos verídicos, reportando a história de um agricultor queniano chamado Kimani Maruge. Este inscreve-se numa escola com a idade de 84 anos após o governo do seu país anunciar a gratuitidade da educação elementar a todos os cidadãos quenianos. Este trabalho realizado pelo inglês Justin Chadwick destaca a transversalidade e a pertinência da educação como força transformadora do indivíduo e da sociedade em que se insere.

3. Neria (1993) | Zimbabué

Um dos mais aclamados filmes do contexto nacional cinematográfico (também conhecido por “Zollywood”), aborda as dificuldades sentidas por uma mulher de origens rurais que enviuvou. Entre várias vicissitudes, confronta-se com a perda do seu sustento, i.e. a sua quinta e encara as ainda sentidas discrepâncias entre géneros. Godwin Mawuru foi o responsável por esta obra ter forma e feitio, sendo consolidada pela banda sonora realizada pelo ícone cultural do Zimbabwe, de seu nome Oliver Mtukudzi.

4. Big Men (2014) | EUA / Gana

Este documentário estuda a descoberta de petróleo na costa do Gana, em 2007, incluindo também os trabalhos desenvolvidos nas grandes corporações do ramo. A realizadora Rachel Boynton procura não só perceber as condições nas quais o trabalho se desenrola mas também desvendar os abusos capitalistas nestas empresas. Como consequência deste trabalho, o Ministério das Finanças ganês comprometeu-se a publicar relatórios semestrais sobre as receitas obtidas com o petróleo e a alocação desta matéria.

5. Stealing Africa (2012) | Zâmbia / Dinamarca

Apesar da extração de cobre ter valido à volta de 29 bilhões de dólares para a Zâmbia, esta continua a ser um dos países mais pobres do globo em virtude das multinacionais. O documentário, elaborado pelo dinamarquês Christoffer Guldbrandsen, intenta perceber o impacto destas posturas das corporações no desenvolvimento do país, alegando o mesmo que aquilo que é investido na ajuda à Zâmbia é dez vezes menos que o montante que se esvai pela política fiscal empreendida.

6. Stories of Our Lives (2014) | Quénia

Este trabalho trata-se de uma antologia de cinco curtas-metragens, abordando estas episódios de casos em que a vida dos LGBT é condicionada pela forte repressão de valores existente. Este projeto foi desenvolvido por uma comunidade artística nacional designada por The Nest Collective e visa atuar socialmente, quebrando preconceitos e depurando conceitos.

7. Tsotsi (2005) | África do Sul / Reino Unido

Tsotsi, significando em inglês “thug”, decorre num bairro degradado na África do Sul, seguindo um jovem criminoso que rouba um carro e descobre dentro deste um bebé. Realizado pelo sul-africano Gavin Hood, trata-se de um retrato comovente sobre a história de um jovem que se perde numa comunidade negligenciada e esquecida pelos padrões sociais e políticos. Esta descrição dramatizada da realidade desta metrópole arrecadou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005.

8. Pirate Fishing (2014) | Serra Leoa / Reino Unido

Parte constituinte de uma série denominada People and Power, é um episódio que desnuda as práticas ilegais de pesca empreendidas por companhias responsáveis por prover peixe aos mercados internacionais. Da autoria de Orlando von Einsiedel, esta investigação expõe as relações comerciais estabelecidas de forma a denunciar o seu caráter nocivo para as águas de Serra Leoa e suas espécies. O episódio está segmentado em duas partes transmitidas no canal Al Jazeera.

9. Virunga (2014) | Reino Unido / República Democrática do Congo

Do mesmo realizador do projeto acima descrito, Virunga volta-se para os trabalhos de conservação efeutados por técnicos do Parque Natural desse local, introduzindo também as atividades de exploração ilícitas desenvolvidas nos seus arredores. Trata-se de mais um documentário que teve honras de nomeação nos Óscares e que assiste às incorretas práticas da SOCO International, organização destinada à exploração de petróleo.

10. Beats of the Antonov (2014) | Sudão / África do Sul

Sendo este mais um documentário expositivo e de estudo sobre as fragilidades sociais africanas, o mesmo abrange as altercações entre o Sudão e as Forças Revolucionárias desse país. Em paralelo, atuam a música, a herança cultural e as tradições criativas, atuando como um bálsamo para os corações feridos em tempos de conflito bélico. O realizador sudanês Hajooj Kuka viaja para dentro das comunidades mais específicas e exulta destas o seu teor transcendente e resplandecente, respondendo com a habitual folia em tempos de melancolia.

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