Desperdício…e um pensamento em semana de aniversário

24 OUTUBRO, 2017 -

Não será altura de nos deixarmos da adulação dos sinais exteriores de riqueza e de começarmos a desenvolver a humildade e o sentido prático que fazem parte das sociedades mais desenvolvidas?

O desperdício sempre me causou repulsa, talvez porque assim aprendi com os meus pais. Mais ainda quando se verifica em questões que tinham soluções simples, dependentes exclusivamente da organização das pessoas.

Já nem me refiro às roupas de marca caríssimas para bebés que nem as usam, brinquedos aos montões que a criança (felizmente!) substitui nas suas preferências pelos pais ou pelo comando da televisão e outras coisas parecidas.

Dei, todavia, comigo a pensar neste assunto quando um amigo meu, pai de gémeos, me disse que andava aflito a pensar que tinha de comprar um carrinho de passeio que coubesse no elevador porque o que tinha em mente era grande demais. Tinha um, dos meus filhos, e prontifiquei-me a “passar-lho”.

De repente veio-me à ideia a quantidade de cadeiras de automóvel, cadeiras de comer, parques, carrinhos de passeio, roupas, aparelhos de aerossol, biberões e tantas outras coisas que os pais compram e que em (escassos) meses deixam de servir, de ser necessários ou, simplesmente, não se usam. Em casas tendencialmente pequenas, são mais uns trambolhos que ficam arrumados a ocupar espaço, provavelmente à espera de um utilizador que nunca virá (veja-se a nossa natalidade!) ou que, mesmo que venha, acabará por receber o último modelo, oferecido por alguém.

Muitas famílias queixam-se, com razão, das dificuldades orçamentais por que passam. Outras referem não poder ter o que necessitam. Porque é que, então, falham as “transferências” destes objetos de bebés para bebés? Claro que muitos casos haverá em que amigas passam a amigas, mas se houvesse um sistema organizado em cada freguesia, talvez fosse possível “reciclar” estes utensílios, poupando muito dinheiro aos pais, libertando-lhes espaço em casa e beneficiando as crianças. Será assim tão difícil?

Sei de pessoas que tentaram incrementar este sistema em lojas – votado ao fracasso. Porquê? Devido ao novo-riquismo que faz com que alguns pais achem que uma coisa em segunda mão é sinal de vergonha? As cadeiras do carro, por exemplo, para as quais há forras muito baratas, são um bom exemplo do que se poderia fazer. Se os pais pudessem deixar num local onde recebessem um quarto do valor do objeto e a loja cobrasse mais um quarto, o comprador final ficaria com o objeto por metade do preço. Toda a gente ganhava. O comércio perderia? Provavelmente, um pouco, mas provavelmente também veria a venda de outros artigos aumentar. Fica a ideia. Não será altura de nos deixarmos da adulação dos sinais exteriores de riqueza e de começarmos a desenvolver a humildade e o sentido prático que fazem parte das sociedades mais desenvolvidas?

Confesso que estou farto de show-off, de exibições narcísicas e de deslumbramentos com ridículos “sinais exteriores de riqueza”. A riqueza é interior. O resto é conversa!

Dia de anos

– Mestre: como é que podemos não cometer erros no nosso percurso de vida? – perguntou o discípulo.

– Tornando-nos sábios. – Respondeu o visado.

– E como é que nos tornamos sábios? – quis saber o discípulo.

– Cometendo erros ao longo dos anos… ao longo da vida… – Esclareceu o Mestre.

E refletindo sobre eles, aprendendo com eles e tentando não os repetir, acrescentaria eu.

Já agora, tendo como ponto de honra que nunca mais deixarei que alguém me magoe (e, na mesma medida, tentarei não magoar ninguém), uso a frase de Rimbaud para declarar a minha total rejeição ao seu enunciado: “Par des délicatesses, j’ai perdu ma vie” Não! As cerimónias, os faz-de-conta e a “sociedade” não me farão perder a vida, não manipularão os anos que me restam nem cercearão a minha liberdade.

No dia em que fiz dez anos – lembro-me como se fosse hoje – apostei comigo próprio que morreria aos 54. A conta, creio eu, terá sido pensar que no ano 2000 (mítico!) teria 44, ao que adicionei os dez que já tinha então. Hoje, depois de Delfos, as pitonisas e os oráculos terem sido derrotados, num processo já “negociado” com a vida há anos (pior do que o OGE), penso em todos aqueles que não tiveram a sorte de “se ir da lei da morte libertando” e que morreram precocemente, se é que a frase faz algum sentido, porque morremos todos demasiado novos – essa angústia existencial da finitude da vida acompanhar-me-á para sempre. Muitos desses estão no meu pensamento e para eles vai o meu pensamento, quando em breve me cantarão os “parabéns”, quando se rejubila por alguém, que nos é querido, estar vivo, e nós a celebrar a sua vida.

Por muito parvo que tudo isto vos possa parecer, desenhei o meu percurso de vida, nos seus vários níveis, desde essa idade, tendo em conta esta fatalidade cósmica… que, todavia, (ainda) não aconteceu. Encontrei-me, assim, a partir de certa idade, com folhas em branco à minha frente, relembrando a frase da canção de Sérgio Godinho e Ivan Lins: “Já fizemos tanto e tão pouco, que há de ser de nós?!”

Acordo assim para um novo dia, mas também para uma nova vida. A sensação de liberdade é enorme e transcendente, como a consequente alegria também. Obrigado à minha mulher, aos meus filhos e netos, a alguns irmãos, amigos e tantos e tantos outros – como diz o meu amigo Júlio Machado Vaz, “obrigado à tribo”. Eles sabem quem são. Eu sei quem eles são. Alguns já morreram mas estão dentro de mim, nas minhas memórias, no meu inconsciente, nas partículas de que sou composto e que, um dia (afinal não aos 54) explodirão e renascerão noutras formas de vida, aqui e ali, no reino animal e no reino vegetal, segundo as leis enunciadas por Lavoisier.

Nasci em 1955, faço esta semana 62. Sinto-me livre, renascido verdadeiramente para uma nova vida. Oxalá possa ser (ainda mais) feliz e contribuir também para a felicidade daqueles por quem tenho estima e que me dizem alguma coisa afetivamente. Obrigado a todos os que me deram algo e que me ajudaram a melhorar. Aos outros, felizmente poucos, que me magoaram e tentaram vilipendiar a alma, agradecer não posso, perdoar não quero, ignorar desejo… e acho que consigo, porque a força que cada vez mais me move e faz agir é a dos afetos e do amor, e não a dos ódios e do rancor.

P.S. Sem vir a propósito… ou talvez sim, pedi à direção do i que encerrasse a caixa de comentários da versão online. Primeiro, porque convida ao desbragamento de algumas pessoas e ao vir ao de cima do que de pior há nelas. Depois, porque não estou para ser insultado e caluniado sem hipótese de defesa (ou mesmo com ela!). Finalmente, porque muitos leitores se entretinham a destilar fel contra outros leitores… nem sequer era comigo. Serviu-me para entender melhor a parte má e mesquinha da condição humana, mas não sou masoquista, isso não!

Crónica escrita pelo Pediatra Mário Cordeiro / Parceria jornal i

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