David Lynch e a pausa do monstro

25 MAIO, 2017 -

O realizador só considera voltar ao cinema com controlo total do processo criativo de produção. O mercado desistiu desse tipo de cinema. Enquanto espera, medita e faz filmes por outros meios e noutras texturas.

Eu sou do tempo em que as orelhas cortadas e as formigas conviviam em paz nos prados verdes e David Lynch filmava a beleza de todo o mal. Desde 2006, e “Inland Empire”, que o realizador não voltou ao cinema. Rimbaud abandonou a poesia aos 19 anos e tornou-se traficante de armas. A deriva radical de Lynch não foi, profissionalmente, tão longe. Nada do que são as artes lhe parece estranho. Dedicou-se à pintura, à fotografia e à música.

Sobre esta propalada deserção da sétima arte, o realizador é perentório no desmentido. “Não, nada disso. Sei que esse rumor circula, mas é falso. Eu simplesmente afirmei que não voltarei a fazer uma rodagem com película. A película está morta, mas não o cinema. O cinema, provavelmente, não morrerá nunca; ele sobreviverá ao desaparecimentos das salas de cinema e da película, transformando-se”, afirmou à revista francesa “Les Inrocks”. A verdade é que, apesar de Lynch ter negado qualquer abandono do cinema, há 11 anos que não faz um filme.

Esta pausa é ditada por uma recusa: as condições que Lynch tinha para fazer um cinema radicalmente independente de todas as imposições comerciais deixaram de existir. A incursão pelo cinema industrial de Hollywood, com “Dune”, deixou-lhe um amargo de boca: “Gosto de dizer que os meus filmes são os meus filhos e que está fora de questão que os coloque num ranking para escolher de qual deles gosto mais. Mas posso dizer que há um ou dois que me causam desgostos: ‘Dune’ é aquele que me atormenta mais”, garantiu à revista francesa citada. O realizador explicou as razões: “Eu não tinha o final cut [a edição final] e o filme não corresponde ao que queria fazer. Foi uma grande lição. O mais assustador é que eu já estava convencido, no início, de que esta superprodução me deixaria um gosto amargo na boca. Mas quis ver por mim e vi. Percebi que não aceitaria mais participar em projetos de que não tivesse o controlo total. Nunca mais me deixaria tratar como uma simples marioneta.

Durante anos, o cineasta norte-americano conseguiu reganhar essa independência e controlo total da obra com um acordo com produtores franceses, conhecidos por intermédio do antigo jornalista Pierre Edelman, mas o seu acordo com o StudioCanal é rompido depois da feitura do filme “Inland Empire”. Lynch exigiu e conseguiu todas as responsabilidades na execução dessa obra: não comunicou nem o orçamento real, nem o argumento, nem os cenários aos seus produtores. O filme mais radical e de difícil compreensão de Lynch foi um fracasso comercial: teve menos de 4 milhões de dólares de receitas, contra os 20 milhões de euros que rendeu o seu filme anterior, “Mulholland Drive” (“A Cidade dos Sonhos”).

Foi durante a filmagem de “Inland Empire” que Lynch recebeu a visita do diretor da Fundação Cartier, que viu os seus desenhos e quadros e lhe propôs fazer uma exposição. Para o realizador, essa foi a saída para se conseguir expressar num plano em que era possível e sustentável fazer aquilo que queria, sem nenhuma concessão.

Recebeu em 2010 o prémio de arte moderna Goslar Kaiserring. As suas gravuras vendem-se a 1800 euros; os desenhos, à volta de 6 mil euros; e os seus quadros, entre 40 mil e 150 mil euros. No resto do tempo faz coisas variadas: montras, garrafas de champanhe únicas e até, episodicamente, anúncios para a televisão. O dinheiro não é muito, até porque resolveu fazer uma fundação, à qual deu mais de 700 mil euros, de divulgação da meditação transcendental.

Para além da arte, o realizador que melhor retratou uma certa estranheza sexual do mal dedica duas horas por dia a fazer meditação, que considera a sua grande descoberta para tocar aquilo que é importante na vida e manter a criatividade.

Antes do regresso a “Twin Peaks”, tentou em 2011, sem sucesso, fazer um filme que tem na cabeça há mais de 25 anos, “Ronnie Rocket”. Não havia dinheiro para isso.

Artigo escrito por Nuno Ramos de Almeida, publicado no nosso parceiro Jornal SOL

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