David Gilmour, o presente eterno

11 OUTUBRO, 2017 -

Por detrás da sua guitarra com um apuradíssimo sentido de melodia e um tom quase inimitável, assim como da sua voz característica e imediatamente reconhecível, está uma das bases que ajudam a formar o legado de um dos mais importantes grupos de rock do seu tempo. Falamos, claro está, dos Pink Floyd, e da presença insubstituível de David Gilmour. Tendo iniciado a sua actividade colaborativa com os mesmos no final de 1967, com o intuito original de ser um membro adicional e tentar contrabalançar a irreverência do na altura frontman Syd Barrett, acabou por assumir um posto de maior destaque quando as excentricidades do último ditaram a sua saída. Mas analisar o impacto de Gilmour e a influência que mantém até aos tempos actuais parece exigir, precisamente, um recuo àquela que é a génese do icónico colectivo. 

Inquestionavelmente, há uma história dos Pink Floyd com Syd Barrett e uma outra completamente diferente sem o mesmo. Um dos membros fundadores do grupo, o seu sentido artístico profundamente experimental ditou a escolha pelas tantas técnicas com as quais se aventurou com a guitarra nas suas gravações, tais como o uso intencional de dissonância e feedback como parte da melodia que queria criar. Tais ideias, para além daquilo que à composição dos temas diz respeito (prática pela qual se assumiu como principal responsável durante o tempo em que lá esteve), podem ser encontradas com facilidade no primeiro disco dos Pink Floyd, intitulado The Piper at the Gates of Dawn. Lançado no verão de 1967, é até hoje visto como um dos discos marcantes da era que assistiu ao nascimento do rock psicadélico, vendo no experimentalismo o seu principal trunfo. 

A Saucerful of Secrets sucedeu ao álbum de estreia e foi lançado no ano seguinte mas, apesar de na lista de músicas contar com a presença de “Jugband Blues”, escrita e cantada por Barrett, já a sua partida tinha sido anunciada quando o disco foi lançado. Assistia-se a um momento que, inevitavelmente, definiria uma nova trajectória para o grupo: a saída daquele que fora o líder criativo durante toda a fase formativa dos Pink Floyd criava a necessidade de que alguém no seio do grupo preenchesse o vazio deixado. 

Nos anos seguintes, seria Gilmour que dividiria este labor com o icónico baixista e vocalista Roger Waters. Até ao ano de 1972, o grupo lançaria álbuns de estúdio consistentemente, revelando uma crescente evolução em qualidade de trabalho e refinando aquele que se tornaria o seu som mais distintivo, e até hoje aplaudido. Discos como Atom Heart Mother ou, talvez com maior preponderância, Meddle, seriam cruciais em assinalar a gradual incorporação de tons fortes de rock progressivo na psicadélica que desde o início os acompanhava. O ligeiro abstraccionismo de trabalhos anteriores começava a co-habitar com a imagética conceptual das composições maiores e mais elaboradas, com que o grupo agora dialogava com mais frequência. 

Meddle, de 1971, parecerá ser tão importante para o desenvolvimento dos Pink Floyd como para a própria emergência de Gilmour como uma das suas pedras basilares. Músicas como “Echoes“, de 23 minutos e ocupando todo o lado 2 do LP, demonstravam perfeitamente o momento de mudança em que a banda se via envolta, colocando em grande plano o trabalho do guitarrista como até então não tinha acontecido. Com espaço e liberdade criativa para explorar a sua técnica, a sua sonoridade, oscilando entre pacífica tranquilidade e caos arrebatador, começava a traduzir-se em solos altamente melodiosos, com notas dobradas até ao extremo e ao quase-limite da dissonância. 

A ascensão contínua da banda inglesa acabou por levar à sua primeira obra-prima, aquele que continua a ser mencionado como um dos melhores discos do seu género de todos os tempos. Falamos de The Dark Side of the Moon, do disco que verdadeiramente catapultou os Pink Floyd, trazendo ao seu universo níveis de reconhecimento tanto inesperados quanto bem merecidos. Gilmour, mais empenhado e envolvido que nunca na tarefa da composição, teve ainda a oportunidade de oferecer o seu contributo vocal a músicas icónicos como “Breathe” ou “Money”. Do desespero desolado que evocava na primeira ao sarcasmo que deixava transparecer na segunda, a sua voz começava a ver-se mais confortável e versátil. Por outro lado, fascinava com os até hoje reverenciados solos de “Time”

Wish You Were Here – em que Gilmour cantou a icónica música homónima – deu continuidade à onda de qualidade levantada pelo seu antecessor; mas terá sido Animals, de 1977, uma das maiores conquistas na história dos Pink Floyd. Não será um exagero – de todo – dizer que o álbum conceptual captura, em 41 minutos, uma das fases mais progressivas, criativas e ambiciosas nas carreiras dos quatro artistas. E, embora este tenha representado o momento na história em que Waters começou a comandar a maior parte dos processos de composição – ganhando uma reputação de control freak e até alienando o teclista Richard Wright aquando da gravação de The Wall, o que, mais tarde, culminaria na sua saída – Gilmour deixa a sua marca de forma sensacional em músicas como a excelente “Dogs”. A música de 17 minutos – entre as melhores que o grupo guarda no seu catálogo – tem como arma a sua violenta e poderosa voz, que pinta cenários estremecedores com as suas palavras, e os seus solos crus, rasgados e distorcidos. 

Animals terá sido o último grande hurrah desta encarnação do colectivo, que, por tensões internas, se desintegraria passados uns anos. Certo é que ainda há o grande sucesso que foi The Wall – com temas clássicos como “Another Brick in the Wall” ou “Comfortably Numb” (que música melhor que esta para falar do estilo incomparável de Gilmour?) – mas já se revelava uma ligeira descida em qualidade relativamente a Animals ou a Wish You Were Here. A saída de Roger Waters levou a que os Pink Floyd se reorganizassem como um trio, desta vez liderado só por Gilmour, que enveredou por territórios mais assumidamente comerciais. A sua dissolução no final de 1994 apenas foi interrompida por The Endless River, lançado 20 anos depois, numa homenagem póstuma a Rick Wright. Gilmour vê-se actualmente mais focado na sua carreira a solo, na qual já se contam quatro álbuns de estúdio – o último dos quais Rattle That Lock, de 2015. 

Embora já não esteja muito activo na actualidade, a influência de David Gilmour continua a fazer-se notar. O seu registo com magnífica sensibilidade melodiosa e os seus solos dotados de uma força arrebatadora figuram como a sua imagem de marca, que até hoje é assumidamente vista como modelo a seguir para muitas das figuras principais da nova geração rock. A intemporalidade das melhoras obras que os Pink Floyd puderam oferecer durante o seu pico de forma garantem-lhe novos apreciadores a cada dia, e dificilmente não continuará a ser lembrado como um dos melhores do seu tempo com o instrumento nas suas mãos. 

Artigo escrito por Daniel Dias

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