Das Bacantes de Eurípedes aos trompetes e coreografias de Marlene Monteiro Freitas

27 ABRIL, 2017 -

“A partir de Eurípedes”, dizia a folha de sala do Teatro Nacional D. Maria II. Como quem parte de Lisboa, rumo a Bruxelas, Utrecht, Montepellier ou Atenas; estes que são os próximos destinos da extensa itinerância de Bacantes – Prelúdio para uma Purga. A nova criação de Marlene Monteiro Freitas, coreógrafa e encenadora, estreou a semana passada no TNDM II. O ponto de partida é sempre um momento fundamental de cada viagem: Bacantes parte de Eurípedes, mas rapidamente se distancia.

“Nós trabalhamos com coisas directamente relacionadas com a peça do Eurípedes, mas depois, em palco, essa relação não é assim tão óbvia”, partilha a criadora numa entrevista dada duas semanas antes da estreia. “No início eu tinha uma estrutura em episódios que seguia mais ou menos de perto a estrutura do texto, mas isso tem vindo a esbater-se, apesar do texto estar sempre muito presente nas escolhas que vamos fazendo”. Da narrativa, dos conceitos e problemáticas do clássico até à expressão livre e contemporânea do que mexe connosco. O que há de transversal na literatura e na vida, há dois mil e quinhentos anos e hoje? A dança, a música, e o nosso tempo têm uma palavra a dizer sobre o que não se confina à baliza do tempo. Marlene Monteiro Freitas, que também esteve no palco, e os doze outros artistas foram veículos dessa expressão.

Estava praticamente cheia, a plateia do D. Maria II, ao final da tarde de quarta-feira. Assim que as portas abriram, cinco trompetistas começam a vaguear na sala de espera, por entre o público. Percebemos rapidamente que vamos ser desafiados. Ao longo das duas horas seguintes, seremos conduzidos por muitas paisagens distintas, visuais e sonoras.

Partimos de Eurípedes, mas aonde não vamos já? Às estantes de partituras são dados mil e um usos: máquinas de escrever, aspiradores, helicópteros, espingardas, canadianas. A lista, na contracapa da folha de sala, é uma curta amostra. Os microfones, espalhados pelo palco, limitados a interacções muito pontuais. Bancos que constantemente mudam de lugar. Actores e dançarinos que são figurantes de experiências que constantemente os ultrapassam. São poucas as palavras pronunciadas ao longo do espectáculo: algumas frases em inglês, outras em alemão, e as restantes provavelmente em línguas improvisadas.

É a música que nos conduz por esta viagem. Na sua dimensão de caos, porque nem tudo é feito de harmonias. O sample pad em lugar preponderante, ocupado rotativamente pela intervenção de diferentes mãos, trata dos beats que, desde os minutos iniciais, nos envolvem em longos mantras instrumentais. Os baixos têm o condão de mexer connosco, puxam por nós. É um começo auspicioso. Desafiante, chocante, a introduzir-nos no que nos espera. Um estranho ser – meio rabo, meio marioneta humana – canta eloquentemente. Os trompetes vão semeando a confusão, vão apaziguando, e chegam a ter conversas enigmáticas entre eles. Passamos por ritmos africanos, por música grega, por ópera, por jazz, e por sonatas de música electrónica. Lembram-se de onde partimos? De Eurípedes.

Bacantes – Prelúdio para uma Purga não é propriamente acessível, e é importante que as pessoas o percebam antes de entrar na sala; ou, em alternativa, que encontrem um lugar de conforto onde possam digerir todas as experiências a que são expostas. A falta de narrativa não é gratificante para todos; talvez porque estimula sempre a dúvida, e nem sempre estamos de bem com ela. Apesar da extensão da peça, e de os actores se servirem muitas vezes dos mesmos utensílios para as receitas que vão magicando (e inventando? qual o grau de improviso?), sinto-mo-nos enriquecidos pela viagem. Não chegámos a lado nenhum, mas vimos tantas coisas. O trabalho coreográfico é muito original, e a intensidade da representação chega a incomodar. Se no início confundimos os treze em cima do palco, no final já lhes conhecemos não só as máscaras como as personalidades, os anseios e os desejos.

Não há nada para compreender, mas basta querermos fazê-lo. Em alemão, perto do fim do espectáculo, ouvimos: “Deus criou a figura do homem para tocar trompete”. É essa uma das mensagens que parece ser apregoada ao longo da peça. O que somos, somo-lo fazendo, dançando, tocando. Somos porque agimos, e porque ficamos parados. Temos tempo para experimentar outra vez.

A co-produção do TNDM II em colaboração com uma série de apoios, fundos e teatros europeus, vai, ao longo dos próximos dez meses, andar a espalhar cacofonia e movimento por pelo menos mais 18 cidades da Europa. Por cá, podemos vê-la em Lisboa até este próximo domingo, em Montemor-o-Novo dia 7 de Junho, e no Porto a 17 de Junho.

No final da entrevista, transcrita na folha de sala, está a chave da expectativa de Marlene Monteiro Freitas; que deve ser, também, a nossa enquanto espectadores. “Eu acredito que há coisas que vão surgindo, e podemos não ter uma explicação imediata para aquilo, ou não estabelecer uma relação directa com o que estamos a trabalhar, mas essa relação existe. Mesmo que eu de repente não veja claramente qual é a ligação, vou confiando nas coisas que não consigo explicar exactamente porque é que ali estão. Hão-de falar por si próprias, mesmo que eu diga uma coisa, hão-de dizer outra coisa. As peças dizem sempre outras coisas. Acho eu. Ou esperamos que digam”.

Fotografias de: Filipe Ferreira / TNDM II
À excepção da primeira: Tiago Mendes / CCA

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