Crónicas de uma Vida Parisiense: #6

17 DEZEMBRO, 2016 -

“Crónicas de uma Vida Parisiense – uma rubrica sobre a vida na capital francesa, pelos olhos de quem por lá está.”

Estou sentado no metro, a percorrer a linha 4 para sair em Denfert-Rochereau e apanhar o RER para chegar a casa. À minha frente, uma rapariga lê o The Sellout, de Paul Beatty, livro que foi este ano galardoado com o Man Booker Prize. Eu leio o Go Tell It on The Mountain, do James Baldwin. Ambos somos brancos, ambos lemos escritores negros. Dos negros sentados na nossa proximidade, neste metro, nenhum está a ler, nem livros de escritores brancos, nem de negros. O que leva uma rapariga potencialmente francesa e um português a ler livros de escritores que claramente enfrentaram questões com as quais não temos de nos preocupar? Livros que não têm como escapar ao debate de temas como o racismo e a segregação. Não são temas recentes, mas a actualidade está a trazer-lhes alguns dos holofotes que talvez tivessem perdido há uns anos face à crença de que estavam resolvidos. Infelizmente problemas como estes são inerentes à civilização e sociedade na qual habitamos, quer seja aqui em Paris, em Lisboa ou em Nova Iorque – cidades cheias de negros, mas ainda demasiado obcecadas com a sua cultura ocidental para se preocuparem o suficiente com aquela que ramifica de outros continentes. Felizmente vai sendo feito um certo trabalho no sentido de mostrar aquilo que há no resto do mundo, no que toca à cultura e à arte, com museus como o do Quai Branly: o Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceânia e Américas.

Erguido junto ao rio Sena, no 7º arrondissement, relativamente perto da Torre Eiffel, é um edifício moderno, diversamente colorido (em referência às diferentes “cores” no mundo, suponho), inserido dentro de um jardim no qual nos sentimos imediatamente isolados da barulhenta Paris na qual ainda há dois segundos atrás estávamos. Lá dentro o ambiente é escuro, imersivo, a atenção virada para as peças, mais que para qualquer outra coisa. Um continente de cada vez, somos levados desde a arte feita pelos nativos da Polinésia, à arte Yoruba da zona da Nigéria, passando pelo exotismo do Voodoo do Haiti ou pela India e Arábia.

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Acima de tudo, estarreceu-me a força de certas peças e a realização da quantidade de maneiras diferentes na qual é possível criar e fazer arte. Formas que não estamos habituados a ver, que caracterizam, também elas, maneiras diferentes de viver e de pensar. Os pequenos amuletos protectores de diversas populações africanas, juntos em colunas de vidro inseridas na parede numa mesma sala, quase como um santuário de luz negra. As estátuas protectoras do Congo, uma figura de uma mãe a amamentar o filho feita nos Camarões, uma estátua protectora Punu do Gabão, as figuras da cerimónia Ato, os ouros da cultura Akan. As desconhecidas, para mim, pinturas aborígenes contemporâneas da Austrália – representações de sonhos no deserto através de linhas, estruturas concentrênticas pintadas com pequenas pintas, um pouco a lembrar o efeito da areia do ambiente onde foram pintadas.

Como inserir toda esta arte num panorama ocidental, tão diferente daquele que se encontra numa Paris habituada à ostentação dos edifícios e das avenidas, à força da pintura ocidental que marca tantos dos principais museus da capital Francesa? Num país com um forte e sempre presente passado colonialista, para onde milhões provenientes das ex-colónias imperiais vieram em busca de uma vida melhor que a destruída das suas terras natais…

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Talvez por ignorância minha quanto à origem da população africana de nacionalidade francesa (ao contrário do que se passa em Portugal onde me interrogo se quem vejo à minha frente será, por exemplo, de origem angolana ou moçambicana), quando vejo alguém negro em Paris automaticamente assumo que seja francês, em vez de pensar se poderá ser do Senegal, da Costa do Marfim ou do Gabão. É curiosa a forma como se passa a encarar a nacionalidade quando és estrangeiro num país. Automaticamente se toma todas as pessoas como sendo do país onde nos encontramos, e tomamo-lo como normal, não encontramos na presença de pessoas cujos antepassados não terão nascido em França qualquer anormalidade. Se se vê alguém negro a falar francês, porque é que essa pessoa não havia de ser francesa? Simplesmente por ter uma cor de pele diferente daquela que os franceses celebram como sendo a sua? Mas parece-me que só com uma máscara branca seriam olhados da mesma forma.

Quando regressava para casa, dois rapazes negros conversavam enquanto esperavam o autocarro. Assim que cheguei pararam uns segundos a olhar para mim, como que a medir o tipo de ameaça que podia causar, e voltaram à sua conversa, divertida, estridente, barulhenta. A postura que, como rapaz branco crescido nos subúrbios de Lisboa, tinha aprendido a adoptar, erecta e forte, cara séria e sem mostrar parte fraca quando a situação ou o local indicavam a possibilidade de algum perigo de violência ou assalto – nomeadamente locais onde estivessem conjuntos de negros, mas não só, claro -, era exactamente a mesma que estes rapazes adoptavam ao pé de mim, branco. Aquilo que cresci a sentir é também aquilo com o qual eles cresceram. Simples protecção contra possível perigo, sendo nós uma possível causa desse perigo, provavelmente até a representação do mesmo. Aquilo que ganhei ao ter crescido sabendo como me proteger e interagir em determinados contextos trouxe-me também o perpetuar desta relação de constante medição de forças. Para eles sou só mais um branco a armar-se em forte, a fingir que não tem medo, exactamente a mesma forma como leio o comportamento deles. Fingirem-se de fortes é uma maneira de se defenderem, de se imporem para não serem atacados em primeiro lugar, da mesma maneira que o era para mim. E talvez só agora me esteja a aperceber disso.

Para consultares as crónicas anteriores: #1 / #2 / #3 / #4 /#5

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