Crónicas de uma Vida Parisiense: #4

1 DEZEMBRO, 2016 -

“Crónicas de uma Vida Parisiense – uma rubrica sobre a vida na capital francesa, pelos olhos de quem por lá está.”

Qualquer que seja a zona de Paris por onde se ande, é com alguma regularidade que se vê grupos de militares de passagem. Sempre em conjuntos de quatro, completamente equipados como se de um cenário de guerra se tratasse. Se inicialmente me sentia como se estivesse, em vez de na capital francesa, em Jerusalém, agora já só sinto indiferença. E tal é preocupante, porque, se formos objectivos, ter militares a passear pelas ruas da cidade não aumenta qualquer segurança. Se alguém quiser de repente cometer um atentado à mão armada, não vai deixar de o fazer por causa disso.  Se se quiser explodir, ainda menos se detém pela presença de homens armados na rua. É meramente para mostrar.

Tal começou após os atentados do ano passado (os do Charlie Hebdo), tal como começaram tantas outras medidas de segurança apertadas trazidas pela subida do nível de alerta para o máximo, entre as quais a necessidade de revistar quem entra em praticamente todos os edifícios, desde universidades, a centros comerciais, a monumentos, a museus. Se nalguns destes casos essa revista até se pode justificar, com a revista a ser efectuada de forma séria, com recurso a detectores de metais e coisas do género, noutros é uma pura parvoíce, disseminada para tentar transmitir a sensação de que o local onde te encontras é seguro. São imensos os locais onde essa revista consiste praticamente em pedirem-te para abrires a tua mala e espreitarem lá para dentro. Ora, como todos sabemos, isto de segurança e detecção de objectos perigosos não tem muito. A não ser que andes com uma caçadeira na mala, ninguém se vai aperceber de nada. Talvez o dinheiro investido nestas medidas fosse melhor aplicado em melhorar a eficácia dos serviços anti-terroristas habituais. Além do mais, as revistas à entrada de cada edifício são particularmente transtornantes por obrigarem todas as pessoas a entrar no edifício pelo mesmo local, causando filas e, em edifícios de grande dimensão, obrigando as pessoas a dar voltas enormes para aceder aos mesmos quando antes tinham uma porta em cada rua.

Mas o mais grave nem é a falta de eficácia destes mecanismos de detecção e segurança; é mesmo que, caso o fossem, continuariam a ser inúteis. A rua continua a existir, não é preciso entrar num local fechado para cometer um atentado. Este tipo de medidas só tranquiliza quem é facilmente iludido, e, ao mesmo tempo que não me sinto mais seguro, sinto-me perturbado pelo facto de ver militares a passar na rua já não me transmitir qualquer sensação; de já se ter tornado num hábito e olhar para isso como para algo normal. Tal não só traz uma normalização das armas de fogo (daqui a pouco estamos nos EUA e cada um pode comprar uma arma para se defender a si próprio), como contribui para o próprio clima de insegurança. Percebo que o objectivo seja passar às pessoas a ideia de que têm de estar sempre alerta em relação ao que possa acontecer, mas, sinceramente, como cidadão de uma sociedade livre e democrática, não quero andar sempre de olho desconfiado para quem se encontra à minha volta.

Não tenho qualquer medo por estar em Paris após os acontecimentos do ano passado. Os atentados foram trágicos e aconteceram aqui, mas as probabilidades de voltarem a acontecer, ou ainda de eu estar no local onde tal possa deflagrar, são absolutamente mínimas e, se querem que vos diga, igualmente prováveis em Paris ou em Lisboa. Durante tantos anos os Europeus (e os Ocidentais no geral) viveram com a sensação de que tudo era seguro, de que não existiam guerras e que tal era o normal, que agora qualquer acontecimento fora do normal é razão para alarme e histeria (não vejo nisso algo de mal por si só, antes isso que indiferença). A história da Humanidade diz o contrário. Não que eu ache que tal registo não se pode reverter, alcançando uma paz cada vez maior por todo o planeta, mas para tal é preciso que tenhamos noção do quanto isso acarreta, de como é preciso lutar contra todo um historial de conflitos e que só com esforço e sem medo tal se combate. Perpetuar o clima de medo é um erro e medidas como estas, em França, só servem para tal. São uma cedência à extrema-direita promulgada por um governo que se diz de centro esquerda. Se queremos, mais que sentirmo-nos seguros, viver numa sociedade onde essa segurança seja um facto, deveríamos olhar primeiro para o que os nossos próprios estados fazem por ela. A França, por exemplo, teve um papel nas guerras no Médio Oriente. Mesmo com toda a sua complexidade inerente, é fácil perceber que os ataques acontecem como retaliação àquilo que foi promovido por certos países ditos civilizados, que se acharam na qualidade paternalista de ensinar aos outros como se devem governar. Isto ao mesmo tempo que mantêm relações com países com o estado da Arábia Saudita, que é provavelmente o principal responsável pelo crescimento do extremismo islâmico, no geral, e do ISIS, em particular, somente por questões económicas. Aumentar a segurança na rua é tapar a situação com paninhos quentes. Se calhar, mais que propagar o clima de medo e instaurar nas pessoas uma desconfiança omnipresente, o que falta é deixar de ser hipócrita e tratar de diagnosticar as acções do Estado que ajudam a perpetuar o problema.

Para consultares as crónicas anteriores: #1 / #2 / #3

Foto por AFP Joel Saget.

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