Crónicas de uma Vida Parisiense #1

10 NOVEMBRO, 2016 -

“Crónicas de uma Vida Parisiense – uma rubrica sobre a vida na capital francesa, pelos olhos de quem por lá está.”

Há essencialmente duas maneiras de pintar a cidade de Paris: primeiro, como cidade de aparências, do amor e de megalomania louca; segundo, como metrópole urbana de dimensões goliardas, suja, malcheirosa, transbordante de turistas e de habitantes. Há algo que têm em comum, a dimensão, e também é possível juntar as duas, mas não é surpresa se vos disser que nenhuma corresponde à realidade.

Obviamente que pode existir uma base de verdade em cada uma delas, mas subjugar Paris a qualquer uma destas frases é ainda pior que sugerir que todos os franceses são antipáticos, coisa que também nunca senti. Há obviamente pessoas antipáticas, como aliás as há em Portugal e por toda a Humanidade, mas sugerir que é um traço comum aos franceses, ou aos parisienses, só se apresenta como falso face à minha experiência. Todos os meus colegas se mostraram extremamente simpáticos e disponíveis para me conhecer, como estrangeiro, como pessoa que veio de fora, ainda que não de muito longe. Nos estabelecimentos, desde os cafés aos supermercados, também sempre me senti bem tratado. Tenho, ainda assim, a noção que as coisas poderiam ser diferentes, caso não me tratasse de um homem branco.

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Paris é, da mesma maneira que pelo menos as capitais e grandes cidades do mundo Ocidental o são, uma grande metrópole. Tem as vantagens e as desvantagens a isso inerentes. Desde logo a grande afluência, desde os transportes aos museus, ainda mais agravada por ser a capital turística da Europa. Por outro, a rede de transportes envergonha um país como Portugal, ainda que mais Lisboa que o Porto, que até tem um metro bem jeitoso. Há catorze linhas de metro e cinco de RER (comboio urbano) a atravessar a cidade, é possível aceder a praticamente todos os pontos da cidade sem termos de recorrer sequer aos autocarros que, aliás, também funcionam de forma bastante boa. Além disso, mesmo sendo uma cidade com algumas colinas e com um trânsito próprio de uma metrópole deste tamanho, o serviço de bicicletas (vélib), colocado praticamente por toda a cidade, é também uma óptima maneira de nos deslocarmos pela cidade, ainda que obviamente não seja o melhor meio de transporte em dias chuvosos e frios.

Talvez seja estranho habituarmo-nos a viver numa cidade como esta se viermos de pequenas localidades ou mesmo pequenas cidades. Há imensa gente que, com todo o direito, prefere viver fora das grandes cidades, que não gosta de Paris tal como não gosta de Lisboa (pelo menos de lá viver), que prefere o estilo de vida bem mais calmo das pequenas vilas (para não dizer do campo) à obviamente gigantesca agitação das metrópoles, por muito que até tenham diversos e variados lugares nos quais podemos retirar-nos recatadamente, para momentos de calma e reflexão afastada da agitação. Vários colegas franceses na faculdade são provenientes destes mesmos locais que referia, de outras zonas de França que, face à agitação parisiense, lhes parecem o paraíso da calmaria e do descanso. Lá podem deslocar-se para todo o lado dentro das suas terras a pé, e caso sejam necessárias deslocações maiores, o carro é uma opção viável. Podem caminhar por florestas, vales ou planícies, o contacto com a natureza está bem mais presente, há espaço para divagarem e se manifestarem. Pergunto-lhes o que acham de Paris e respondem-me que antes preferiam estar nas suas terras, sejam elas para os lados da Bretanha ou da Riviera. “Paris é um caos urbano. Sinto falta da natureza, das montanhas”. É uma opressão perceptível, mas para alguém proveniente duma cidade já relativamente grande como Lisboa, Paris apresenta-se como uma capital de dimensões e oportunidades. Encerra até em si um pouco do sonho associado à América. Essa possibilidade de progressão, de evolução com a qual nos deparamos como um coelho a uma cenoura. Mas para alguns isto é cancelado pelo resto, e certamente que percebo o quão difícil deve ser viver numa cidade como esta se não nos sentimos confortáveis numa cidade com movimento, cheia tanto de pessoas como de possibilidades de coisas para fazer. Felizmente não sou uma dessas pessoas.

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