Convento de Tomar: Acusações de destruição “carecem de rigor”

3 JULHO, 2017 -

Inquérito da Direção-Geral do Património à rodagem de filme de Terry Gilliam fala em “adulteração de factos”.

As descrições da alegada destruição de partes do Convento de Cristo, em Tomar, durante a rodagem de “O Homem Que Matou Dom Quixote”, o filme de Terry Gilliam a partir da obra de Cervantes que teve coprodução portuguesa da Ukbar Filmes, “carecem de rigor e revelam desconhecimento científico, levando ao empolamento e à adulteração de factos”, concluiu o inquérito da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) na sequência da reportagem exibida a 2 de junho no programa “Sexta às Nove” sobre supostos danos causados no monumento durante as filmagens devido a uma alegada fogueira que teria sido ateada no Claustro da Hospedaria.

Ao contrário do que foi então noticiado, apurou a DGPC no inquérito cujas conclusões foram ontem entregues na Assembleia da República, “não foi ateada uma ‘fogueira’ com cerca de 20 metros de altura” e “as paredes supostamente enegrecidas pelo fumo são o resultado da presença de agentes biológicos sobre as pedras calcárias”, identificados “há uma década pelo LNEC [Labotatório Nacional de Engenharia Civil]”. Tratou-se antes, como já havia esclarecido a Ukbar Filmes – que acabou por coproduzir o filme depois do litígio com Paulo Branco, que no ano passado tinha anunciado o filme do ex-Monty Python como o seu grande projeto para 2017 – de um “efeito cénico especial” com duração de apenas “4/5 minutos”, a partir de uma estrutura piramidal com um sistema de rampa de gás propano com  “oito níveis de queimadores regularmente espaçados, guarnecidos com válvulas antirretorno de fecho rápido”.

O resultado do inquérito nota ainda que durante o processo, levado a cabo “por uma empresa especializada referenciada na indústria dos efeitos especiais para cinema e experiente em filmar em monumentos históricos na Europa”, foram tomadas todas as medidas de segurança necessárias. E prova de que o património nunca terá estado em risco é que “durante o efeito cénico de fogueira estiveram sempre presentes sete cameramen, atores e figurantes, o que indica que as temperaturas no local não eram muito elevadas”.

Relativamente ao desaparecimento de árvores que na mesma reportagem tinha sido atribuído à rodagem, apurou ainda o inquérito que se tratava de quatro prunos ali colocados há cerca de 12 anos para a rodagem de outro filme, que agora não foram queimados mas “retirados, como estava programado”. O documento conclui que “o valor de 2900 euros apresentado pela empresa de restauro”  que avaliou os danos após as filmagens é também prova de que os estragos “constatados e assumidos pela Ukbar Filmes não são significativos”. E que não passaram, conforme adiantou a produtora na altura, da “quebra de quatro fragmentos pétreos e de seis telhas”.

Com o litígio entre Terry Gilliam e Paulo Branco ainda sem fim à vista, a estreia de “O Homem Que Matou Dom Quixote”, cuja rodagem decorreu de março a maio entre Epanha e Portugal, está por ora prevista para o próximo ano. Protagonizado por Adam Driver (Toby) e Jonathan Pryce (Dom Quixote), o filme conta ainda com a participação da portuguesa Joana Ribeiro.

Artigo escrito por Cláudia Sobral, publicado no nosso parceiro jornal i

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