Consenso em torno de Bach

13 FEVEREIRO, 2017 -

Não existe ninguém que não goste das coisas boas da vida. Contudo, há imensa gente que não gosta das mesmas coisas que outra tanta gente gosta. Todas comungam, no entanto, de um mesmo gosto: o gosto do que lhes dá prazer. Até pelo prazer que o desprazer dá: a superação do faquir, a excitação sexual do BDSM, a tenacidade do celibato do monge, a privação de alimentos da bulímica ou a abstinência do toxicodependente.

Porém, não devemos levar muito a sério nenhum dos nossos maiores prazeres, porque eles são circunstanciais e efémeros. O sexo é excelente enquanto não apanhamos uma DST, o chocolate é maravilhoso até sofrermos de uma diarreia, uma obra artística é bela até haver uma outra paixão.

É necessário tirar o carácter obsessivo das coisas que consideramos boas, porque aquilo que é fantástico para mim, hoje, poderá vir a ser péssimo para mim, amanhã. Por isso é que o humor surge como a melhor forma de lidarmos com as diferenças que vamos tendo, para connosco próprios, e para com os outros.

Não significa que ele nos pacifique ou nos uniformize quanto às nossas preferências, mas, pelo menos, dá-nos a impressão de que podemos tirar prazer do desprazer de termos que lidar com a diferença, rindo-nos um pouco dela.

Há pessoas que se matam por terem raças ou religiões diferentes, mas isto são apenas pretextos. Como há guerras pela religião, poderia haver pelos gostos artísticos. Por exemplo: sexagenários que ouvem música erudita vs emigrantes que gostam de música kitsch, tias que lêem literatura light vs intelectuais que admiram os grandes clássicos, hipsters que vêem apenas filmes de culto vs imberbes adolescentes que vão ao cinema por causa dos blockbusters (e o certo é que as há, mas, por enquanto, são raros os casos em que as pessoas se matam).

Há, por isso, nestes pretextos, algo mais profundo a satisfazer: o poder de submetermos o gosto do outro ao nosso gosto, na maioria dos casos, pela força, e nos casos absurdos, pela razão.
Este último caso é o paradigmático fim de uma relação de um casal de namorados que não se entendem quanto à beleza do Prelúdio em C de Bach. Razão para dizer: tolerante, mas não troppo. Ou talvez não.

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