Como olhar hoje para os movimentos migratórios? (II)

6 JUNHO, 2017 -

As migrações são um fenómeno humano tão antigo como a própria humanidade.

Sebastião Salgado expressou num programa transmitido recentemente pela RTP a ideia de que a história das migrações se confunde com a história da humanidade.

Tal ideia – que, assim enunciada, parece óbvia – contraria, contudo, a perceção atual de que este fenómeno se constitui como uma situação excecional ocasionada por factos recentes.

Na verdade, se atentarmos em muitos dos testemunhos culturais e artísticos que a humanidade nos foi deixando, rapidamente constatamos que o fenómeno, longe de se constituir como uma situação “anormal”, sempre existiu como parte integrante da vida dos homens.

Alexandre Herculano, em “Eurico, o Presbítero”, conta-nos como decorreram algumas das migrações que compuseram a população da península Ibérica: suevos, godos, as diferentes populações romanizadas antes destes e, depois, os árabes, que Eurico sonhou ver chegar e a cujo desembarque assistiu.

Quem não se lembra de “A Selva” e de “Os Emigrantes” de Ferreira de Castro?

E d’“As Vinhas da Ira” de Steinbeck?

Da figura contraditória do passador – o contrabandista facilitador da emigração ilegal – descrita por Álvaro Cunhal em “Cinco Dias, Cinco Noites” e passada ao cinema por Fonseca e Costa?

Muito da literatura e do cinema e alguma escultura (“O Desterrado” de Soares dos Reis, também ele inspirado num poema de Herculano) retratam, em obras inesquecíveis, movimentos migratórios e populacionais ou estados de alma dos que partiram.

Não versam muitos dos westerns – com as suas caravanas cheias de famílias de pioneiros e a resistência aguerrida dos índios à invasão dos seus territórios – histórias de migrações?

E os filmes e séries televisivas sobre a captura, transporte e integração e vida dos escravos negros nas plantações americanas ou brasileiras?

O tema das migrações, quer se traduza na descrição de comportamentos individuais dos que emigraram e dos que os ajudaram ou forçaram a isso, quer seja analisado na perspetiva dos fenómenos históricos, sociais e económicos que motivaram a deslocação de grandes grupos de pessoas – de povos – de um dado lugar para outro, não é novo.

O que nos conta, afinal, a história bíblica de Moisés e do seu povo fugindo do Egito em busca da “terra prometida” em Israel?

As migrações são, de facto, um fenómeno humano tão antigo como a própria humanidade e procuram sempre o mesmo: um futuro melhor ou, simplesmente, algum futuro.

Como – se é que podemos – controlar o fluxo de migrações em direção à Europa e aos EUA quando, por um lado, a riqueza se concentra cada vez mais nestes cantos do mundo e, por outro, os media mais não fazem do que vender a imagem “idílica” de tais terras aos que pouco ou nada têm e que, ficando onde estão, nem alimentam expetativas de virem a ter?

Com razões mais ou menos prementes, os movimentos migratórios alimentam-se sempre de um único sonho: alcançar para os próprios ou para os filhos um mundo e uma vida melhores que se sabe não ser possível desfrutar ou sequer idealizar nas terras de origem.

Talvez por isso, para evitar migrações forçadas e dolorosas, seja necessário construir futuro nas sociedades de origem.

Trata-se, portanto, de pensar as migrações, não como um problema em si próprio – isto é, uma situação para a qual se procura uma solução –, mas antes, por um lado, como uma situação suscitada por problemas existentes e que importa resolver e, por outro, como uma situação que, inevitavelmente, ocasiona outros problemas, que também devem e podem ser resolvidos.

Crónica escrita pelo jurista António Cluny, publicada no nosso parceiro Jornal i

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