Como falar de utopias hoje em dia? Um olhar sobre as obras de Thomas Morus e Tommaso Campanella

24 ABRIL, 2017 -

No século XVI, Thomas Morus criou uma terra remota, com mais do que uma cidade, com abismos que flanqueavam a costa litoral (Utopia, 1516); no século XVII, Tommaso Campanella criou uma monumental cidade sobre uma colina que se elevava numa ampla planície (A Cidade do Sol, 1602). Todavia, os habitantes destas terras não as vêem como “propriedade”, mas como solo que devem cultivar; em A Cidade do Sol, de Campanella, diz-se que os habitantes são ricos e pobres ao mesmo tempo: são ricos porque gozam de tudo o que é necessário, e são pobres porque não possuem nada.

A utopia enquanto produção artística e filosófica atravessa toda a História, desde A República de Platão até à actualidade, onde encontramos uma cultura visual bastante vasta e complexa no que diz respeito à criação de universos utópicos. Com a literatura, as artes plásticas, e, no último século, o cinema, a utopia ganhou várias dimensões nas suas distintas representações: podemos falar da utopia do presente, da utopia do futuro, da utopia como a civilização perfeita, ou da distopia como a civilização assombrada pelo totalitarismo, pelo medo, pela miséria, como 1984, de George Orwell. A utopia de que nos fala Thomas Morus na sua obra, por sua vez, é talvez a grande referência quando se fala deste conceito – que o próprio autor inaugurou neste livro.

No presente, com o que é que o ser humano fantasia quando se fala em utopia? Ao falar-se em países que possuam um sistema social que preveja essencialmente o bem-estar da população, a Noruega surge como referência imediata. Tal como a Utopia de Morus, a Noruega é um estado totalmente independente, no sentido de não depender de influências externas, neste caso, da União Europeia, à qual não aderiu voluntariamente. Mas num estado capitalista vão sempre existir os indivíduos que recebem mais e os que recebem menos – mesmo apesar da igualdade de oportunidades no que diz respeito ao emprego, à saúde, à educação – e, portanto, vai existir ambição; esta é uma das ‘consequências’ da circulação do dinheiro, razão pela qual este não existe nos mundos de Morus e Campanella. Concomitantemente, nestas repúblicas imaginárias, é estritamente necessário existir um horário de trabalho curto, a fim de que os habitantes tenham tempo para o lazer e actividades educativas.

Ainda assim, será que as utopias destes dois autores – mesmo existindo somente na ficção – são sociedades sem ‘defeitos’? A génese de Utopia como civilização ocorreu quando Utopos conquistou a Sansculotta e transformou ‘selvagens’ e ‘ignorantes’, segundo as próprias palavras de Morus, na mais civilizada nação do mundo, história que nos remete imediatamente para o colonialismo. Fosse por não conhecer a faceta bárbara do colonialismo, fosse porque a conhecia e queria mostrar que era possível educar um povo sem recorrer à exploração humana, Morus apresenta  uma nítida “perspectiva ocidental” na concepção da sua Utopia. E o mesmo acaba por suceder com Campanella, seja na descrição da opulenta arquitectura de templos, monumentos e palácios – que nos fazem lembrar de uma cidade italiana da Renascença – seja pela influência que a religião tem na própria organização da sociedade, em que o sexo não pode ser associado meramente ao prazer e em que a ‘perversão’ é punida.

A descrição de ambos os mundos é perpassada por constantes analogias ao mundo ‘real’. Utopia é dividido em duas partes, a primeira dedicada a uma ampla crítica à sociedade em que o autor vive, a segunda compreendendo a descrição do mundo imaginário. Em Cidade do Sol, Campanella aspira a uma renovação política e religiosa, sobretudo pela contraposição das duas ordens religiosas, a da sua obra – em que os ‘servos’ de Deus, como os padres e os sacerdotes, sem vêm desprovidos do domínio material e territorial – e da sociedade em que vivia – que se servia da autoridade a fim de ludibriar a população a seu bel-prazer. Ambos os autores, deste modo, partilham a ideia de que a propriedade privada é a principal causa do egoísmo e da corrupção do espírito humano. Mas há uma grande diferença entre estas duas utopias: na obra de Morus, os utopianos têm o ‘direito’ a possuir servos (ou escravos, se fizermos uma tradução literal da palavra) e, na Cidade do Sol, a servidão é expressamente proibida. Thomas Morus, pela sua condição social, devia ter servos ou criados, e, ao introduzi-los como parte integrante da organização da sua sociedade imaginária, parece falhar na sua tentativa de criar uma sociedade igualitária – ainda que estes servos ou escravos sejam pessoas pobres que se voluntariaram para essas tarefas em Utopia, por, segundo eles, lhes oferecer uma vida bastante melhor do que a que tinham.

Estes pequenos detalhes, que quase passam despercebidos, acabam, porém, por impedir a concretização destes mundos como sociedades absolutamente perfeitas; mas estes detalhes são essencialmente de raiz cultural, desde a fundação de Utopia através do colonialismo, da importância dos ensinamentos religiosos na Cidade do Sol, e, novamente em Utopia, a presença de servos como um possível reflexo da condição social de Morus, em que os criados eram imprescindíveis. Deste modo, era preciso renegarmos à cultura para conseguirmos criar uma sociedade perfeita, já que esta acaba por condicionar a liberdade em toda a sua plenitude – é a partir dela que o ser humano cria as suas noções de ‘certo’ ou ‘errado’. Ao mesmo tempo, a própria concepção de liberdade vai depender também do respectivo contexto histórico-social. Não é à toa que Friedrich Engels, em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico – publicado primeiramente em 1880 –, considera Utopia e A Cidade do Sol as primeiras manifestações teóricas dos movimentos revolucionários que estavam para vir, nomeadamente no que dizia respeito à reivindicação da igualdade e à abolição das diferenças de classe.

Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar como a própria constituição geológica destas terras visa dificultar a entrada aos que vêem de fora, isto é, os ‘outsiders’, e como o próprio regime proíbe a livre circulação além das fronteiras, em Utopia. Num mundo em que testemunhamos, em escala cada vez mais ampla, a emergência de migrantes e refugiados, a ideia de um mundo enclausurado remete-nos imediatamente para um regime de nuances totalitárias. Todavia, à época de Morus e Campanella, a concepção de um mundo fechado era vista como necessária para proteger as respectivas sociedades. O próprio Campanella refere, na sua obra, que tanto as repúblicas de Morus como de Platão não podem ser integralmente postas em prática numa natureza corrupta. Estes territórios fechavam-se assim, a fim de não serem corrompidos pelos ‘vícios’ do resto do mundo; vícios que eram fomentados pelas ordens políticas e religiosas que imperavam fora de Utopia e da Cidade do Sol – o mundo real, digamos assim.

Ainda assim, as utopias persistirão nas quimeras do ser humano. E, mesmo apesar de não serem perenes – devido à mutabilidade do tempo e da própria cultura – Utopia e A Cidade do Sol ainda hoje revelam grande sensibilidade para lidar com diversas questões sociais. Mesmo no mundo ocidental, estas duas obras afirmam a sua importância na maneira como contestam a desigualdade social e procuram solucioná-la. O que é de louvar, já que, desde Utopia, já se passaram quinhentos anos.

Notas de referência
Campanella, Tommaso (2006) Cidade do Sol, Guimarães Editores, Guimarães
Engels, Friedrich (1978) Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Editorial Estampa, Lisboa
Morus, Thomas (2009) Utopia, Penguin Great Ideas, London

Texto de: Tiago Vieira da Silva
Imagem de artigo: Retrato da família de Thomas Morus, por Hans Holbein, o jovem, c. 1527

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