Como está a nossa relação com Freud?

6 FEVEREIRO, 2017 -

Sigmund Freud é um nome que quase ninguém desconhece. Quase toda a gente já ouviu falar qualquer coisinha sobre este austríaco, pioneiro na psicanálise e encarando com esta as questões mais elementares da credibilidade científica. Uma das mentes prematuras no estudo da mente humana e na descodificação dos traumas, complexos e recalcamentos. Durante décadas, passou a ser estimado como alguém revolucionário mas com o qual muitos associavam os casos que iam aparecendo nas manchetes dos jornais. As notícias que descreviam os casos mais insólitos podiam encontrar os fundamentos destes naquilo que Freud estudou.

Isto numa relação com o outro, o famoso outro tão problematizado na filosofia e visto como alguém à distância e, em certa medida, diminuído em relação a nós mesmos. No entanto, como é que estamos naquilo que é a nossa ligação pessoal com aquilo que Freud instruiu? Será assim tão polémico trazermos à tona aquilo que o id armazena? Talvez não seja. Exortamos para que os preconceitos caiam. Desde a obra de Freud (mas não necessariamente devido a esta), foram muitos aqueles que caíram. Os falsos moralistas começaram a ver as suas convicções desmistificadas e o seu caráter erróneo a ser desvendado. Foi com particular velocidade que muitos viram os seus padrões éticos a levar uma silenciosa revolução. Foi também com esta alteração paradigmática que crescemos. Estamos mais sinceros connosco próprios, não temos a necessidade de esconder a meio mundo aquilo que outrora ficava envolto num manto secreto por poder ferir suscetibilidades criadas pelos tempos e pelas gerações.

Chegando agora a uma fase em que as diversas lutas sociais (igualdade de género, de raça, de religião e de condição social) começam a ter respostas claras para quem as quer ver e acionar, existem outras do foro íntimo. Claro que não vamos andar a gritar aos sete ventos aquilo que Freud estudou sobre a mente humana e sobre aquilo que nos assola a parte submergida do icebergue. Porém, temos outro tipo de condições para que a realidade daquilo que perspetivamos em nós mesmos seja diferente. Os tabus são menores e a psicologia tornou racional aquilo que, em tempos idos, se tomaria como perverso ou depravado. São tempos diferentes, tempos onde o progresso e a liberdade de expressão e de formação identitária são os baluartes sociais. Louvados sejam!

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Estando o contexto devidamente observado, olhemos para o que Freud nos ensinou. Algumas das teorias tornaram-se obsoletas mas nem todas ficaram presas às datas das suas criações e divulgações. Aquilo que nos assombra desde que nos lembramos de ser e de existir parece ter solução à vista. Os sonhos, por exemplo, transmitem mais daquilo que somos do que muita coisa que proferimos num só ano. Somos enigmáticos mas temos tudo para que nos compreendamos melhor e aos outros. A sociedade, não obstante a evolução que sentiu nos últimos tempos, continua presa aos obstáculos que cada um dos sujeitos que a constitui se impõe. Ainda há muito que nos choca e é talvez na procura daquilo que nos deixa atordoados e na sua superação que nos tornamos mais donos de nós mesmos e, por si só, mais confiantes e livres.

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Entre muitas das interpretações que podem sugerir este psicanalista como alguém perverso e obcecado pela sexualidade, não é por acaso que a sua obra subjaz como uma das principais do âmbito da psicologia contemporânea. Não é por acaso que ainda se recorre com frequência à psicanálise na tentativa de se trabalhar sobre os constrangimentos que afetam qualquer comum mortal. Retirar a pressão social do desenvolvimento individual não é negativo, deixando a espontaneidade atuar na construção de quem se é e na estabilização emocional e moral mais tranquila. Raro é aquele que nunca reprimiu nada da sua mente por considerar algo aberrante e abjeto. Tudo isto não seria possível se não houvesse essa necessidade de nos adaptarmos com rapidez àquilo que a sociedade exige de nós. Toda a ansiedade causada pelos impasses que nos criamos não seria gerada pela azáfama na qual o mundo roda.

Afinal de contas, como está a nossa relação com Freud? Eu diria que nunca esteve tão próxima, tão estreita. Por muito que gerações passadas lhe tenham dado ouvidos no plano científico e no plano social, vemo-nos cada vez mais remetidos a nós mesmos. Os desafios deixaram de ser externos mas mais internos. Enquanto nos focávamos naquilo que era a superação da sociedade como um todo, faltou estudar-nos a nós mesmos. Os sonhos, as potencialidades, as fragilidades, as experiências mais ou menos favoráveis e aquilo que foi a nossa infância passam a ser proeminentes quando olhamos para dentro de nós e nos queremos entender. Limando as nossas imperfeições e conhecendo melhor as nossas ambições e frustrações, percebemos melhor como atuar neste teatro no qual toda a ação tem a devida reação. É o cruzamento há muito conjeturado da arte com a ciência. O palco no qual a mecânica se estende à emoção, à razão e à criação. Afinal, Sigmund Freud une mais do que aquilo que separa. Afinal, o seu nome não é aludido em tantos meios com tanta frequência por acaso. Afinal, estamos cada vez mais próximos de ser a geração da sua perdileção.

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