‘Comboio de Sal e Açúcar’: “Na guerra, todos são maus”

5 OUTUBRO, 2017 -

Numa guerra, uma viagem de comboio deixa de ser uma viagem de comboio para se tranformar numa viagem de terror entre balas, explosões, violações e morte. Desta que conta no seu último filme, Licínio Azevedo ouviu falar ainda durante a guerra civil moçambicana, para o desejo de um documentário que nunca existiu. E que agora deu “Comboio de Sal e Açúcar”, acabado de chegar às salas

Um dia Licínio Azevedo há ainda de fazer um filme sobre ele. Manuel António, curandeiro que deu origem ao movimento dos naparamas, guerreiros combatendo nus e munidos apenas de lanças e flechas do lado da Frelimo durante a guerra civil moçambicana, se diziam imortais, à prova de balas. Manuel António havia de acabar morto com 100 tiros, aos 28 anos – e a explicação será este filme que não existe ainda mas que o realizador já tem na cabeça. Por ora, naparama é este comandante Sete Maneiras (António Nipita), ao lado de Matamba Joaquim e de Melanie de Vales Rafael em “Comboio de Sal e Açúcar”, primeiro candidato moçambicano de sempre aos Óscares, chegado agora às salas portuguesas.

Sete Maneiras morre mas não morre e se isso é inverosímil é por ser assim a magia. “Aqui as pessoas não entendem, mas em África não há guerra sem magia.”, explica Licínio Azevedo, de visita a Lisboa para a apresentação deste seu último filme, depois de “Virgem Margarida” (2012). E na guerra, naquela guerra a que assistiu inteira em Moçambique, “havia uma terceira força, os naparamas, que lutavam do lado do governo mas eram guerreiros mágicos”. Achavam-se, todos achavam. “Não usavam armas de fogo, lutavam com armas tradicionais, mas bastava se aproximarem que o inimigo fugia.

O sotaque vem já misturado mas esconde que antes de tudo Licínio Azevedo foi brasileiro. Antes de como jornalista ter trocado o Brasil e as viagens em reportagem por toda a América Latina, por uma vontade frustrada de chegar a Angola via Lisboa para acompanhar a independência que o levou à Guiné-Bissau e depois a Moçambique. O Brasil “está lá”, ficou, há 40 anos, naquele momento em que chegou a Maputo como jornalista, escritor, argumentista, no movimento de cineastas que chegavam com a criação do Instituto Nacional do Cinema, por Samora Machel, logo após a independência. Tanto ficou que Samora Machel não é um presidente, primeiro presidente de um país a libertar-se do poder colonial, é o seu. “Samora Machel, nosso primeiro presidente, era um visionário e sabia a força que tinha o Cinema num país onde havia ainda 93% de analfabetismo [dados da Unesco] e 30 línguas diferentes. Sabia que o Cinema teria um grande poder na construção de uma unidade e de uma identidade nacional. Foi uma época muito bonita, o Instituto do Cinema foi um exemplo, atraiu gente como Godard, Jean Rouch, cineastas do mundo inteiro.

Licínio Azevedo, realizador moçambicano, que são moçambicanos os seus filmes, chegou como escritor para se fazer realizador, de documentários, primeiro, até à ficção que nunca ambicionou. A história de “Comboio de Sal e Açúcar” ouviu-a a primeira vez durante a guerra civil, ainda na década de 1980. “Hoje uma viagem que se faz num dia, 700 quilómetros do litoral até ao interior do país vizinho, o Malawi, podia na época levar um, dois, três meses, ou não chegar ao destino por causa dos ataques e sabotagens da linha”, que aquilo era uma guerra e uma guerra civil e nesses anos o açúcar que transportava tinha-se tornado num dos bens mais preciosos. Na época, ainda durante a guerra, tentou pôr essa viagem num documentário, mas não conseguiu apoios. “Ninguém queria pôr dinheiro num filme do qual não se sabia se voltávamos vivos. Se você é correspondente de guerra é uma coisa, vai sozinho. Ali era uma equipa, que com o equipamento era um alvo fácil.

Terminada a guerra, fez-se a essa mesma linha, a essa viagem, e fê-la várias vezes, sozinho. Esses 700 quilómetros para trás e para a frente, entrevistas a passageiros, a militares, a quem encontrava nas localidades que as estações serviam, e dessa viagem saiu um livro que não foi de reportagem, foi um romance baseado em factos reais. No Cinema continuou a filmar, documentários seus, documentários educativos, que a sobrevivência de quem faz filmes em Moçambique “não é milagre”, é isso, até a crítica e os festivais o terem convencido que o que fazia não era documentário, era ficção com traços documentais. Daí à decisão de adaptar ao cinema “Comboio de Sal e Açúcar” – uma produção de 1,5 milhões de euros da portuguesa Ukbar Filmes, em coprodução com França, Brasil, África do Sul e Moçambique – foi menos de nada.

Para mim o documentário é uma coisa no presente, ali não fazia já sentido, era já passado”, explica o realizador sobre a decisão de nunca ter chegado a cumprir a ideia inicial para este filme. “O contexto é real, os acontecimentos são reais, o comboio é aquele”, foi recuperado com o apoio dos caminhos-de-ferro moçambicanos. Também os figurantes de soldados são militares moçambicanos, as personagens com as suas histórias são ficcionadas, mas a partir do real. Como a história de Sete Maneiras ou Rosa, a enfermeira acabada de formar interpretada por Melanie de Vales Rafael. “Isso tem uma certa relação com a História.”, explica. “Samora Machel, nosso primeiro presidente, era enfermeiro. Não havia médicos, havia uns dez enfermeiros. O cargo máximo a que podia almejar um moçambicano era ser enfermeiro ou trabalhador dos caminhos-de-ferro. Era uma elite.” É uma das mulheres que viajam naquele comboio que vem explicá-lo a Rosa quando ela não vê naquela guerra mais do que uma replicação do sistema colonialista pelos próprios moçambicanos. Não é. “Naquele tempo não podias ter estudado para ser enfermeira.

Estrear “Comboio de Sal e Açúcar” 40 anos depois em Maputo, numa das duas únicas salas de cinema do país, é poder ver salas encherem-se para ver o que continua sem se poder discutir. “A minha atriz [Melanie], que é jovem e não viveu esse período, conta que os pais tentaram sempre preservá-la da memória desse período, dessa guerra civil terrível, e que ela e os amigos dela foram ao cinema justamente para conhecer a História que não é contada. Há ainda esse receio de se falar sobre o passado, sobre os crimes cometidos, sobre a violência, então as salas estavam cheias de jovens que queriam justamente conhecer a sua História. E isto parece-me importante neste período em que está a haver de novo negociações. Porque foram cometidas atrocidades de ambos os lados, não há maniqueísmos. Não. Na guerra, todos são maus.

Artigo escrito por Cláudia Sobral / Parceria jornal i

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