Colson Whitehead. As coisas que, por medo, contamos primeiro às crianças

19 OUTUBRO, 2017 -

“A Estrada Subterrânea” traz para a ficção uma história de terror que já todos sabemos. Sem apagar nem tirar nada do lugar, imprime-lhe um ritmo aventuroso, arranca o coração à tragédia para o levantar como luz num caminho ainda longo em direção à liberdade

Há uma mestria infantil no modo como Colson Whitehead leva uma metáfora ao limite das suas forças e abdica de minúcias reconstrutivas, porque “o passado não está morto, não é sequer o passado” (Faulkner), e a ação não fica a fazer teatro para o leitor nem se compadece de si, tocando as notas certas como se a consciência fosse um recital. Pode espantar-nos que “A Estrada Subterrânea” se leia como um bom romance de aventuras. Mas não deveria chocar-nos a não ser que adotemos em relação a certos assuntos essas mesmas reservas que nos impedem de lidar com um trauma. Não se trata de passar por cima ou de iludir os aspetos mais cruéis de um quotidiano feito de humilhantes privações, castigos de tal modo grotescos que lançam desde logo no ridículo aqueles que os impõem. Muitas vezes, para ignomínia ainda é preciso uma certa finura e sensibilidade. Alguns dos monstros nesta história não passam de uns infelizes estafermos. E este livro seria uma sátira se não fosse tantas outras coisas, seria mais um tenebroso relato inspirado no temor perante os arquivos se não deixasse uma corrente de ar para os nossos dias.

Eis um livro que começa numa plantação de algodão na Geórgia, que não faz um grande esforço para nos colocar na pele da sua protagonista, Cora, uma escrava de 15 anos, mas simplesmente nos deixa ficar por perto, ouvir e seguir o que se passa, enquanto este ser surge imprecisamente, como um esquisso, distinguindo-se pela persistência do nosso olhar sobre algo que treme no escuro, antes de ganhar contornos mais vivos. A mãe abandonara-a, sem se despedir – talvez porque, para quem já nasce no inferno, olhar para trás tende a revelar–se fatal. Mas essa traição acabara por tornar-se uma espécie de herança quando Caesar, um escravo pouco mais velho que veio de outro Estado e que crescera com a liberdade no horizonte, olha para ela como o seu amuleto. A mãe com o seu incerto paradeiro está entre o ínfimo número de bem-aventurados que não foram arrastados de volta para a plantação e transformados em exemplo, torturados para dissuadir os demais.

O “caminho-de-ferro subterrâneo” é um modo de falar, e refere-se à rede secreta de passagens e abrigos através dos quais os escravos eram conduzidos dos estados do sul para o norte e para a liberdade. Em entrevista a este jornal, Whitehead explicou que “quando as crianças ouvem falar da estrada subterrânea [underground railroad], o que a imagem lhes sugere é um comboio que passa por baixo da terra”. “Evidentemente, as coisas não se passavam assim”, mas explica que não partiu para este livro “numa tentativa de abordar um determinado período histórico ou o flagelo da escravatura, mas interessava perceber que tipo de história podia fazer sair desta noção acriançada que muitas pessoas guardam desse caminho para a liberdade.

O livro caiu nas boas graças de toda a gente. A crítica não se poupou naquele género de elogios destacáveis que vão direitinhos para a cinta e contracapa, e comparam-no com tudo, desde Toni Morrison e García Márquez até Victor Hugo. Ainda tinha “pinceladas de Jorge Luis Borges, Franz Kafka e Jonathan Swift”, segundo um crítico do “New York Times”, recebeu o Pulitzer de Ficção e o National Book Award, entre outros prémios, Oprah Winfrey garantiu que as vendas disparavam ao elegê-lo para o seu clube de leitores, e até Barack Obama lhe fez um rasgado elogio e, pouco antes de deixar a Casa Branca, aproveitou para chamar a si um seleto grupo de autores da nova geração que o entusiasmam, e Colson estava entre eles.

Num livro que conjuga de forma tão elegante uma série de dispositivos narrativos que carregam o leitor numa tensão eletrizante, em que dá a sensação que só se podia virar as páginas mais depressa se estas estivessem coladas, o certo é que Whitehead prova aqui o enorme mérito de ter atacado uma história que trazia na cabeça há década e meia quando tinha já criado no sangue o embalo e as defesas para não se pôr com anelos diante das suas próprias descrições.

A ideia demorou tanto tempo a maturar que, quando finalmente me decidi a avançar, o processo de escrita foi bastante célere”, conta, referindo como entraram “na história uma série de elementos que fui descobrindo ao longo dos anos nas leituras que fazia: desde os relatos dos escravos que encontrei enquanto estudante universitário até textos sobre eugenia e esterilização forçada. Portanto, mesmo se a escrita do livro foi bastante rápida, estava a usar nele uma matéria que vinha de tantos momentos dispersos da minha vida.

Este não é um livro muito reflexivo, mas uma besta imparável que chispa, freme, impele, e não nos comove tanto quanto faz sentir os drásticos efeitos da sua locomoção. Os nervos dissecados fora, as papilas fora de tudo, e o ambiente engrossa desaustinadamente, o realismo nasce menos de um apuro frio e preciso do que das muitas voltas com que nos sugestiona. Sim, de entre tudo o que nos vai ser contado há nestas páginas coisas atrozes, mas é como nos bons westerns: o ambiente é propício, ninguém se vai pôr a chorar depois de nos ser dito que a um dos escravos lhe coseram a boca depois de os genitais lhe terem sido arrancados e fechados lá dentro, e como, enquanto as chamas lhe treparam pelo corpo tatuando a morte, nem o grito lhe foi possível, e isto somos nós a sentir o terror do que isso poderá ter sido. Colson muitas vezes deixa apenas na linha a receita para que seja depois a nossa imaginação a preparar o terror a seu gosto.

Mas se também uma aproximação à obra de Cormac McCarthy já foi tentada nos esforços da crítica para exultar o industrioso talento de Whitehead, é aqui que se lhe descobre o calcanhar de Aquiles. Ridgeway, o seu lendário caçador de escravos, que leva ao pescoço um colar de enfezadas orelhas humanas, não deixa de nos parecer interpretado por um ator demasiado canastrão. É estranha a sensação de nos depararmos com erros de casting na escolha de atores quando o que estamos é a ler um livro. Não só isso: muitas vezes, a câmara anda a zanzar e tem-se a sensação de que o realizador está a fazer grandes esforços para impedir que possamos deter a atenção o tempo suficiente sobre esta ou aquela cena com medo de que o papel de parede possa ceder.

O livro parece recorrer a efeitos um tanto hollywoodescos na forma como manobra a narrativa, e assim consegue uma adesão mais impulsiva do que através de um controlo de cenas e descrições que, de tão escrupuloso, chega a ser erógeno. Propor este livro como “obra-prima americana” é renunciar à proposta mais cativante que Whitehead nos estende com esta alucinante narrativa de ficção. As suas personagens não alcançam nunca essa presença tão sinistra e odiosa que se sente o ar ficar mais carregado, mesmo que estejamos a ler McCarthy num aeroporto. Mas o que este romancista consegue é dar descanso a certos pressupostos sobre qual o tom de voz para se falar sobre o que nos EUA se fazia aos negros até há bem pouco tempo. E como tantas vezes ajuda se se usar um tom mais curto e grosso, mais incisivo. Como, às vezes, explicando às crianças, são os adultos que acabam por reencontrar uma certa clareza na expressão, e como é mais fácil assim estabelecer paralelos. E, neste ponto, Whitehead não hesita em notar que, “em termos de paralelos históricos, não tenho de forçar a comparação entre as patrulhas que davam caça aos escravos em meados do século xix, que eram as forças da autoridade branca de então, e as forças policiais brancas atuais. Parece-me que os paralelos são óbvios, como a atitude que assumem face aos negros”.

Artigo escrito por Diogo Vaz Pinto / Parceria jornal i
Fotografia de Dorothy Hong

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