‘Colo’, de Teresa Villaverde, abre com disforia o IndieLisboa

5 MAIO, 2017 -

O filme “Colo”, de Teresa Villaverde, abriu o tão esperado IndieLisboa, que se encontra na sua 14º edição. Mais de duas décadas depois, a realizadora portuguesa  voltou a ser selecionada para o Festival Internacional de Berlim, que se realizou em Fevereiro, onde o filme teve a sua estreia internacional e competiu pelo Urso de Ouro.

Com cerca de 10 longas-metragens na bagagem, Teresa Villaverde apresenta-nos o filme “Colo”, que nos conta a história crua de uma família portuguesa, protagonizada por Beatriz Batarda e João Pedro Vaz. Narra a vida regular de uma família em pleno desgaste, um pai desempregado, uma mãe sobrecarregada e uma filha retraída e constantemente nublada. Fala-nos de crise, que é simultaneamente uma crise económica, familiar e existencial. Não percebemos que crise motivou as restantes: as dores e dormências estão presentes ao longo das quase duas horas e meia de filme, sem que se perceba uma origem e um término.

 As personagens encontram-se desabitadas. Abandonaram a vontade de falar, de comunicar, e ficaram-se pela difícil passagem do tempo. À medida que o filme se vai desenvolvendo assistimos a uma constante perda das personagens dentro de si mesmas, e sentimo-nos, não raras vezes, vazios. 

Um filme que descreve, assiduamente, a complicada relação entre pais e a filha adolescente. Existe uma espécie de renúncia  em relação à vivência e aos sentimentos da filha Marta: esta é constantemente secundária, e ninguém a olha seriamente. A mãe não a vê, está sempre perdida dentro dela mesma, e procura por apoio, ao mesmo tempo que tem que ser quase uma mãe do seu próprio pai desamparado. 

Todas as personagens refletem uma sociedade exausta e deteriorada, à beira do eterno silêncio. É uma obra que fotografa muito bem a ideia do silêncio na solidão, quase que se torna sufocante, não deixa o público respirar, torna-se um drama pesado e cru. Os longos planos com pouca movimentação, a monotonia das cenas, e uma certa distância emocional das situações, são outros dos ingredientes utilizados pela realizadora para contribuir para o efeito do todo.

Teresa Villaverde trabalha o tempo do filme como se fosse o tempo real. As coisas custam a passar, somos expostos ao vazio horário, à falta e à (insuficiente) procura de propósito. O público sente-se incomodado, inquieto; isto são claros reflexos da crise,  mensagem que também ela queria transmitir. Torna-se num filme tenso, que reflecte o dia a dia de muitas famílias  isoladas e sós, completamente esmagadas pelo quotidiano, onde não há tempo para viver, para comunicar. Contém um ritmo lento, essencialmente inundado pela fatiga afectiva das personagens e mais tarde do seu público. 

Mesmo que propositada, a crueza do filme acaba por afectar a experiência de quem o vê. Sentimo-nos dormentes e impotentes no meio de cenas que frequentemente se apresentam como bizarras. Assistimos a um processo de enlouquecimento das personagens; elas sentem-se deslocadas, e nós com elas.

Em relação à parte técnica do filme, notamos a falta de uma banda sonora regular que cortasse um pouco a crueldade do quotidiano; mesmo que, em alguns momentos, música sinfónica e de câmara irrompesse, adicionando uma profundidade emocional em momentos pontuais. O som assumiu um papel perfurante no filme, era quase doloroso ouvir o dia a dia das personagens. A fotografia estava bastante cuidada e trazia um pouco de frescura ao filme. 

O melhor plano do filme é a sequência final, quando a rapariga está dentro da pequena casa azul no meio do nada: primeiramente vemos um plano de Marta dentro da casa, depois um plano geral da casa, a câmara vai-se aproximando lentamente da casa, e quando pensamos que vamos voltar para dentro da casa, a câmara afasta-se cada vez mais da casa numa dança que nos fala sobre a vida, bem longe do nosso olhar. Não é um filme que proporcione um começo eufórico para o IndieLisboa, mas a vida também é isto, e poucas armas terão a força do cinema para ilustrar isso mesmo.

Texto de: Sara Camilo e Tiago Mendes

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