Colby Keller: “Não acho que os EUA alguma vez tenham sido uma democracia”

4 OUTUBRO, 2017 -

Ator porno, artista, gay, ativista, comunista. A Lisboa, veio  com o seu “Colby Does America”. Pretexto para uma conversa sobre sexo, porno e sobre a América

Polémico Colby Keller já era antes de no ano passado ter anunciado que votaria em Donald Trump. Medo das consequências? “Sim, tanto como das da eleição de Hillary Clinton.” Mal por mal, sustenta ele que se diz comunista, que venha um capaz de expor o que até aqui era sombra. Mas isto há de ser assunto para segunda metade de uma conversa que Miguel Gonçalves Mendes, o realizador, acabou por filmar para o seu próximo filme, “O Sentido da Vida”, durante a visita do ator porno, artista e ativista a Portugal para apresentar, no Queer Lisboa, o retrato que rodou ao longo dos últimos anos pela América, numa longa viagem por todos seus estados. “Colby Does America” é o título, no sentido mais literal que se imagina. E Colby Keller, o antropólogo comunista feito artista e ator (e realizador) de filmes porno gay há de ter muito a dizer sobre essa América onde diz que nunca houve democracia.

O que é que te levou ao mundo porno?

Na altura o que me interessou mais foi o dinheiro. Tinha acabado a universidade e estava a passar por uma fase difícil a tentar encontrar trabalho – estudei Antropologia, não há muita coisa que se possa fazer com isso. Além disso, há qualquer coisa de excitante em poder ter sexo com gajos bons. Em parte foi por isso e ainda é. Gosto de fazer sexo, portanto… [risos]. Mas, sim, foi sobretudo pelo dinheiro.

E hoje vês-te mais como estrela porno ou como um artista?

Sinto que sou ambos. Não sei se estrela é a palavra certa, vejo-me como um ator porno. Artista… essa é uma palavra com a qual estou em luta. Não sinto que seja artista às vezes, há um peso muito grande em olhares para ti como artista. É importante lembrarmo-nos de que todos somos artistas, mas é uma palavra difícil para mim, que não surge facilmente.

Mas de alguma forma o caminho que estás a trilhar pelo universo porno é um caminho diferente. Basta olharmos para este projeto que vieste apresentar ao Queer Lisboa. Como é que o “Colby Does America” em particular foi recebido pela comunidade artística?

Teve uma grande atenção no mundo gay, alguma no contexto do Cinema, e menos do ponto de vista artístico, da cena artística tradicional, se quiseres. Falei com um museu em Los Angeles voltado para as artes visuais para exibir os vídeos e isso foi o mais próximo que tive de uma interação com o mundo da arte com este projeto. Mas não sei se isso tem a ver comigo ou com este projeto ou com o mundo da arte em si.

Como nasceu o “Colby Does America”? Interessava-te fazer esta espécie de retrato da América, de todos os seus estados, a partir deste ponto de vista muito específico?

Em grande parte por uma questão de necessidade, porque nasceu de um outro projeto em que estava a trabalhar. Vivi em Baltimore durante dez anos, com um senhorio horrível que decidiu expulsar-me e tinha todas as coisas que tinha acumulado durante esse tempo no meu apartamento, que não tinha onde deixar. E como não tinha como pagar um lugar para as guardar nem dinheiro para pagar um novo apartamento tive que oferecer tudo o que tinha a quem quisesse e partir para uma nova coisa.  O “Colby Does America” foi uma forma de atravessar isso, esse incidente traumático, um projeto para sobreviver que combinasse várias coisas que me interessavam: conhecer os Estados Unidos, talves contar uma história sobre os Estados Unidos, conhecer pessoas e poder colaborar com o máximo de gente possível para gerar um trabalho que possa dizer algo e ser um reflexo dos Estados Unidos e as pessoas que lá vivem.

E nesse sentido sentes que o que saiu desta tua viagem é realmente um retrato dos Estados Unidos? A curta que fizeste em Nova Iorque é muito diferente daquela que saiu da experiência na Virgínia, por exemplo, e isto acontece com praticamente todos os filmes.

Sim, em cada estado foi diferente, e isso não é apenas produto dessas diferenças. Tentei em cada estado filmar o máximo que pude daquilo que via acontecer à minha volta, mas ao mesmo tempo se alguém aparecesse alguém a querer participar, um artista que quisesse fazer um vídeo, alguém que tivesse uma ideia, eu estava mais do que disposto a acolhê-los e a ajudá-los com os seus projetos. Nesse sentido, o “Colby Does New York” nem sequer foi um projeto meu, foi uma ideia deste designer de moda com a sua equipa que integrei no projeto num trabalho em conjunto. Cada estado foi diferente também por estas diferentes relações colaborativas que são diferentes em cada vídeo e em cada estado. O que me surpreendeu foi que houve estados em que achava que seria muito difícil filmar e onde acabou por ser incrivelmente fácil, e outros em que achei que seria fácil que acabaram por ser aqueles em que foi mais difícil encontrar gente que quisesse participar.

Falas em estados mais e menos conservadores?

Muitas vezes, em estados com grandes comunidades gay urbanas, em grandes cidades, era mais difícil fazer os vídeos. Um bom exemplo disto é, diria, o Kentucky. Rural, pobre, conservador. Achei que não ia haver maneira de fazer um filme no Kentucky. Boom, boom, boom, três vídeos. E eu venho do Texas e fui a Dallas, a Austin, cidades que percecionamos como muito liberais. Pois não conseguia encontrar uma única pessoa que estivesse disposta a fazer um vídeo. Estava destruído, a pensar no que havia de fazer, e depois disso segui completamente desapontado e triste para o Oklahoma, que, pode não corresponder à verdade, mas é visto como provavelmente o estado mais conservador do país, e no Oklahoma fiz três vídeos. E podia ter feito dez.

Um Colby does Oklahoma.

Completamente. Isto tinha em parte a ver com, por exemplo, no Texas, os homens gay estarem muito mais preocupados com, sei lá, os trabalhos que tinham, com se alguém descobrisse e a forma como isso poderia afetar a sua carreira. Ou estavam preocupados com os seus amigos e com a forma como os poderiam julgar. E isso foi surpreendente. Parti com a ideia de que nas cidades seria mais fácil do que nas zonas rurais e foi exatamente o oposto.

Como é que descobrias as pessoas quando chegavas a um novo estado?

Normalmente fazia anúncios no Twitter e no Facebook mas isso revelou-se difícil porque o país é muito grande e o meu orçamento era muito limitado e não me permitia planear muito a viagem. Nunca sabia onde iria estar na semana seguinte porque se alguma coisa acontecesse, se alguma oportunidade surgisse, tinha que mudar tudo para poder filmar com essa pessoa. Aconteceu várias vezes alguém estar disponível mas eu estar noutro lugar e depois, ao chegar a esse estado, às vezes seis meses ou um ano depois, essas pessoas já lá não estarem. Então normalmente usava o Grindr, era a forma. O que gostava de ter feito era de ter filmado mais vezes outras pessoas, de ter ficado mais atrás da câmara, mas isso era ainda mais difícil.

E a partir dessa surpresa na forma como o projeto foi recebido em cada estado, o que é que o “Colby Does America” te ensinou sobre os Estados Unidos?

Ainda não há 50 vídeos, porque ainda não foram todos entregues, mas achei  os americanos são muito menos conservadores do que julgava à partida. Aprendi muito sobre classes nos Estados Unidos e sobre a forma como isso se integra numa cultura de formas tão inesperadas e às quais normalmente não estamos atentos. A ideia que temos é que uma grande cidade é um lugar liberal, mas também aí se encontra muitas vezes uma cultura conservadora e fechada dentro das comunidades gay.

Isso não vem também de um preconceito em relação à pornografia?

Sim, há preconceito. Nunca ninguém me atirou nada à cara, nunca ninguém se dirigiu a mim com uma postura anti-porno agressiva, o que sinto é que – também por coisas que fiz recentemente na arena política – as pessoas se sentem mais confortáveis em serem bastante negativas em relação a mim de uma maneira que nunca me tinha acontecido. Em relação ao porno, acho que isso está a mudar, sobretudo pela forma como nos vamos tornando mais abertos em relação à sexualidade. Mas ainda há um bom caminho a fazer.

Perguntava porque antes de vir para aqui li um artigo que te apresentava como “a estrela porno mais intelectual do mundo”, porque vejo muito preconceito aqui.

Acho que isso explica bem o que é a cultura anti-porno pela forma como classifica um ator porno como um não-intelectual. É classista e é não respeitar o trabalho sexual como uma escolha.

E no seguimento disto e do que é ser-se parte de uma minoria, ou de várias: ator porno, gay, comunista. Como é ser-se – dizer-se que se é – comunista na América hoje?

Sim, sou comunista [risos]. Acho interessante que ponhas a questão dessa forma, porque acho que muita gente pensa que não, que é uma piada.

Como se tudo o que tudo o que és viesse de alguma forma de uma vontade de chocar os outros?

Sim, para chocar. Não é, de todo. Vem, em primeiro lugar, da minha experiência de vida. Venho da classe trabalhadora, que luta, e tive uma vida difícil. Para muita gente isto pode ser difícil de concetualizar porque por ter atenção mediática as pessoas assumem que sou rico ou que faço muito dinheiro e que a vida é fácil para mim. Não é. Posso não ser o trabalhador que ganha o salário mínimo num restaurante de fast food, e só Deus sabe como essa vida será ainda mais difícil, mas consigo sentir empatia pelas pessoas que vivem assim – todos devíamos – mas sou um trabalhador. E sofro em consequência deste sistema que está a matar o planeta e nos está a matar a nós. Acredito que todos devíamos fazer todos os possíveis para tornar a vida melhor para todos os que cá vivem.

Dizes que és comunista porque vens da classe trabalhadora, mas uma coisa não leva necessariamente à outra, sobretudo num país com a História dos EUA.

Há um preconceito em relação à esquerda porque os Estados Unidos estiveram em guerra contra a esquerda durante décadas e décadas e as pessoas na frente dessa guerra eram a classe trabalhadora. Porque os governos, com os interesses que estão por detrás dos governos, tentaram destruir qualquer tipo de noção ou de ideia de igualdade ou forma de travar o capitalismo. Acho que o fizeram como forma de distanciamento do mundo mas também dos próprios Estados Unidos. Como antropólogo e como estudante de História e de Economia felizmente tenho um conhecimento que me permite ser capaz de criticar a forma como esse sistema me afeta, mas infelizmente muitas pessoas não têm essas ferramentas. É interessante ver como certas ideias que têm sido usadas como forma de emancipação podem ser ao mesmo tempo ferramentas de opressão. A questão racial, que é um bom exemplo, é usada nos Estados Unidos para separar as pessoas. Separar a classe trabalhadora negra da classe trabalhadora branca ou a classe trabalhadora imigrante. A última coisa que a classe dominante quer é que estas pessoas se juntem, que percebam que têm muito em comum, que há um problema e um inimigo comum a combater. Em vez disso, divide-se para reinar. Os EUA usam essa estratégia como os portugueses usaram como qualquer império usa para controlar as pessoas. E pode ser muito difícil quando se está sob esse controlo ver para lá daquilo que nos oprime. É triste porque há uma tensão contra a esquerda nos EUA que vem disto, mas acredito que isso possa estar a começar a mudar. Tem que mudar.

Votaste em Donald Trump. Porquê? Terias votado de outra forma se oposto a ele estivesse Bernie Sanders em vez de Hillary Clinton?

Teria votado no Bernie Sanders. Não sou fã de Bernie Sanders, acho que é apenas mais uma ferramenta do Partido Democrata e que essa é a sua única verdadeira função. Para mim os democratas são piores ainda do que os eepublicanos porque fingem que são bons ao dizerem o que está certo para continuarem a pôr em prática a sua agenda de extrema direita. Pelo menos os republicanos têm a decência de nos mostrar que são más pessoas [risos].

E Trump?

O Trump é uma bela marioneta, vê-se como é controlado por outras pessoas. E nem sequer tem que servir os interesses da classe dominante. Ele é parte dela. Muito abertamente. E quando o governo não é capaz de melhorar a vida dos trabalhadores – que é o caso, eles não nos vão ajudar – então os Estados Unidos mergulharão numa crise sem precedentes. Acho que o melhor é que isso aconteça assim. Honestamente, não acho que os Estados Unidos alguma vez tenham sido uma democracia e, no caso, acredito que a esquerda sairá reforçada depois de uma personagem como Donald Trump.  Foi o que aconteceu com George W. Bush.  É triste que a política funcione dessa forma, é triste que a democracia seja uma fraude, mas é impossível chegarmos a uma verdadeira democracia sem que antes se veja a fraude que esta é. O Trump é um grande palhaço, é horrível.

Mas para ti um mal necessário?

De certa forma, mas também não acho que possamos evitá-lo. Votar na Hillary Clinton teria sido votar em mais quatro anos de Barack Obama. Obama foi uma coisa horrível para os Estados Unidos e para o planeta.

Por não ter sido capaz de operar toda a mudança que prometeu a sua eleição e que a dado momento nos pareceu quase possível?

Não acho que alguma vez tenha estado interessado numa mudança, acho que estava interessado em fazer dinheiro. É isso que está a fazer agora, a ganhar 200 mil dólares por discurso para a Goldman Sachs e a Citigroup e toda essa gente. É isto Barack Obama. Queria fazer dinheiro e foi bem sucedido. Também foi bem sucedido em matar ilegalmente pessoas com drones. Talvez fique para a História como um grande presidente americano, talvez não. Talvez os Estados Unidos não cheguem a esse ponto. Queria ter acreditado naquela mensagem de mudança e que ela pudesse ter acontecido a partir do sistema partidário dos Estados Unidos. Em parte isso está a acontecer, com o cansaço desta propaganda de que nos convence de que somos uma luz que brilha no mundo e de que nunca houve um país melhor na Terra e de que somos tão bons. É um processo muito doloroso até se chegar à conclusão de que na verdade vivemos numa ditadura há muito tempo, provavelmente desde sempre. Acho que é por isso que os Estados Unidos estão a passar agora. Não é fácil, nem vai ser.

O que é que te faz dizer que a América nunca teve uma democracia?

Trabalhei três anos em Washington, D. C. para um lobista e digo que é uma ditadura no sentido em que as empresas e os mais ricos controlam um governo que os beneficia apenas a eles, a mais ninguém. Que atira migalhas às pessoas só para ter a certeza que não há contestação nas ruas e que manda o resto da população para as prisões, uma forma moderna de escravatura. É isto. A democracia existe para as empresas, existe para os ricos, que podem decidir por todos nós, pela esmagadora maioria da população. Não importa o que pensas, em que acreditas, em quem votas, não querem saber nem vão querer enquanto continuares a pôr-lhes dinheiro nos bolsos. Infelizmente é para isto que tudo está feito, é assim que está escrita a Constituição, para defender esses interesses. Enquanto a Constituição não mudar nada na política americana mudará radicalmente. Além disso, vivemos num sistema económico colonial que os EUA espalharam por todo o planeta que está literalmente a matar toda a nossa espécie. Acho que estamos a chegar a um ponto em que isto começa a parecer real para as pessoas, com furacões  de categoria 5 a chegarem aos Estados Unidos e fogos florestais em Portugal, no Oregon, na California, mas já chegamos tarde.

De volta a Trump, e no seguimento disso que acabas de dizer, não te preocuparam as possíveis consequências da eleição de Trump?

[Suspiro] Se não tenho medo das consequências. Sim. Tanto como das consequências da eleição de Hillary Clinton, que a única coisa que faria seria manter as pessoas na escuridão. Pelo menos a tensão e o conflito que estão no coração do sistema político e económico mundial vão começar a vir à superfície com Donald Trump. enquanto com Hillary Clinton continuariam a ser ativamente suprimidos. O Partido Democrata está a fazer, não diria um bom trabalho, mas um trabalho alucinante para tentar manter a atenção das pessoas focada noutras questões. Estão a usar a Rússia, por exemplo, para manter a cabeça das pessoas afastada dos crimes do partido em si. Não sei se algum americano teve realmente escolha, ou se tem escolha, no que acontece na política nos Estados Unidos. Há interesses empresariais que Donald Trump está a servir e esses interesses empresariais levariam a melhor independentemente de qual fosse o presidente a estar na Casa Branca. Acho que é um erro pensar que um voto significa realmente o que se acha que significa nos EUA. Porque não. Não mesmo.

Alguma coisa te surpreendeu neste primeiro ano desta administração?

Tem sido mais ou menos o que esperava, o que me surpreendeu foi tanto a forma como certas questões de Estado emergiram para criar uma falsa narrativa conflito com Donald Trump como o não se perceber quem está por detrás do quê realmente. Neste ponto grande parte do staff da sua campanha foi despedido e substituído por generais, o que dá a ideia de que o Pentágono está a tomar o poder e que me faz pensar no papel que estará a ter a CIA neste processo… Será o Donald Trump uma marioneta? Há muita coisa que nunca saberemos mas também há muita coisa que será revelada com o passar do tempo. Tem sido de alguma forma fascinante para mim perceber que há um conflito que se tornou público entre certos elementos do Estado que se vira contra si próprio. Isto é algo que ainda não tinha acontecido na História americana. E vamos ver. Acho que isto ainda não terminou.

Entrevista de Cláudia Sobral / Parceria jornal i

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