Charles Bukowski, vulto da marginalidade literária

5 MAIO, 2017 -

Henry Charles Bukowski Jr (1920-1994) ergueu-se na marginalidade literária. Familiarizou-se com o mundo do álcool e do tabaco, experienciou um universo profundamente masculino e antiquado, entregou-se ao sexo e às mulheres, viciou-se no jogo e tentou o suicídio. Ainda hoje, o autor situa-se à margem do ‘cânone oficial’, não abundando estudos académicos sobre a sua obra. Nas palavras de Gerard Locklin — que prefaciou um dos seus mais célebres textos, Post Office (1971) —, Bukowski alia-se a nomes como Marquês de Sade, Henry Miller e Anaïs Nin, surgindo num cânone alternativo, que repudia o academismo, a crítica e as elites culturais.

O escritor nasce em Andernach, na Alemanha, a 16 de agosto de 1920, mudando-se três anos depois para os Estados Unidos da América. Com apenas catorze anos, inicia uma duradoura e indesejada relação com o universo hospitalar, sendo submetido a tratamentos assaz dolorosos devido ao acne vulgaris. Em 1935, rende-se às bibliotecas da sua cidade, buscando a palavra de modo desenfreado, e é este fascínio que o leva a ingressar, em 1939, na Los Angeles City College, no curso de Jornalismo e Inglês. Dois anos volvidos, Bukowski abandona o ensino superior sem concluir o ciclo de estudos.

Ainda que tenha desistido momentaneamente da vida académica, Hank — nome pelo qual Bukowski é comummente conhecido — dedica-se à escrita de short stories. Porém, em 1940, o pai de Bukowski atira os manuscritos e os bens materiais do jovem para o relvado, após a leitura de alguns dos seus textos. Através da obra do escritor, que apresenta um cunho autobiográfico, compreendemos as atribulações e mágoas que marcaram a relação entre ambos. Após esse episódio, Bukowski abandona a casa temporariamente e aluga um outro espaço, contando com o auxílio financeiro da mãe.

Em 1942, deixa Los Angeles para conhecer e experienciar o restante território norte-americano e fascina-se com o ambiente de Nova Orleães e da Filadélfia, passando alguns meses em cada cidade. Neste período, a palavra flui com veemência, produzindo entre três a quatro short stories por semana. Apesar de as enviar para revistas como a The Atlantic Monthly e a Harper’s, os seus textos foram continuamente rejeitados: “They were lyrical. They were rambling. The plot and the content were secondary. It was a vomiting up, an effusion of feeling”.

Um ano mais tarde, não só perde a virgindade com uma “300 pound whore” como se recusa a fazer o serviço militar obrigatório, afirmando que o mesmo não se coaduna com a sua “personal philosophy”. Em 1944, Bukowski passa 17 dias na Prisão de Moyamensing, mas consegue a dispensa do serviço militar por não cumprir os requisitos físicos e psicológicos.

O regresso definitivo a Los Angeles ocorre em 1947 e, um ano mais tarde, cruza-se com Jane Cooney, com quem viveria uma relação tumultuosa até 1955. Notemos que, em 1950, o casal é expulso do apartamento que habitava por “excessive drinking, fighting and foul language. Disturbing other tenants”.

Em 1954, o fluxo da palavra poética impera e decide despedir-se do Posto de Correios, onde estava empregado há mais de dois anos. No entanto, um ano mais tarde, acaba por regressar às antigas funções. A obra Post Office, publicada em 1971, narra este período da vida de Bukowski, no qual reinou o cinismo, o desinteresse, o universo feminino e o álcool. Ainda em 1955, o escritor casa com Barbara Frye, de quem se viria a divorciar dois anos depois.

Entre o ano de 1958 e o de 1968, a biografia de Bukowski apresenta um viés caótico e atribulado, do qual resultam inúmeras publicações, uma tentativa de suicídio e o nascimento de Marina Louise Bukowski. Não só é o período em que se envolve novamente com Jane Cooney; como começa a publicar poesia em pequenas revistas literárias, é galardoado com o prémio Outsider of the Year, e surge a primeira grande crítica ao seu trabalho, da autoria de R.R. Cuscaden. Em 1961, como referimos previamente, o escritor tenta suicidar-se “with gas stove, wakes up with a headache, opens windows”. Após a morte de Jane Cooney, Bukowski conhece Frances Smith, com quem viria a ter a sua única filha, e oferece-se para escrever uma obra (‘certainly to be colossal whatever it is’) por 500 dólares. Em 1965, separa-se de Frances e, até à década de 70, período em que conhece Linda King, não embarcaria numa nova relação amorosa.

O ano de 1970 é um marco crucial na biografia do escritor. Demite-se definitivamente do Posto de Correios, termina o seu primeiro romance (Post Office) e conhece Linda King, com quem viveria até 1973. O escritor e a artista norte-americana principiaram uma relação assaz turbulenta e intensa, que acarretou episódios de violência e casos extraconjugais. Linda afirmou: “It wasn’t that he had other women. It’s that he always wanted me to know about them, always wanted to tell me all the details about what they did together. Who does that unless they really want to make you mad?”

Em 1976, o autor conhece Linda Lee Beighle – Linda Lee Bukowski, posteriormente -, durante uma sessão de leitura. Esta tornar-se-ia a sua musa, o seu centro, o seu culto. É, também, a partir deste ano que  as fronteiras se esvaem e Bukowski se transforma num escritor do mundo, num escritor que impera às margens da literatura canónica. O seu caráter complexo, que revela cinismo, inconsequência, honestidade e autenticidade, impõe-se e seduz a comunidade leitora. Desloca-se ao Canadá e à Europa para inúmeras sessões de leitura; nos Estados Unidos da América, a indústria cinematográfica produz Barfly (1987), narrando as odisseias do escritor; na Bélgica, surge Crazy Love (1987), que parte de The Copulating Mermaid of Venice, California, que toca a necrofilia; e, em território italiano, Marco Ferreri realiza Tales of Ordinary Madness (1981), adaptado da obra homónima.

Em 1985, Bukowski casa com Linda Lee, porém a nova dinâmica parece prejudicar o fluxo da palavra. O autor terá declarado: “My home life has developed into nightmare proportions. I’m unable to write about this portion of my life now, and may never be able to, but if I ever get the space to, I’ve got a novel that will make Post Office, Factotum and Ham on Rye look like kindergarten stuff. Some people seem to envision me floating in an easy dream world now…if they only knew…”

Se Bukowski nunca foi estranho ao meio hospitalar, a partir de 1989 as suas visitas tornam-se demasiado assíduas. Nesse ano, abandona a bebida temporariamente para tratar uma tuberculose; em 1992, a sua visão fica reduzida devido a um tratamento às cataratas; e um ano mais tarde, é-lhe diagnosticado leucemia, que viria a causar a sua morte em 1994.

Entre os romances, destacam-se Post Office (1971), Women (1978), Ham on Rye (1982) e Pulp (1994). No entanto, Bukowski também revelou uma mestria poética exímia, tendo publicado mais de 30 volumes de poesia. Realçamos Burning in Water, Drowning in Flame: Selected Poems 1955-1973 (1974), Love is a Dog from Hell (1977) e What Matters Most Is How Well You Walk Through the Fire (1999) — publicado postumamente.

Profundamente singular, Bukowski inspira e repudia; seduz e repugna. Um escritor que descarta o comedimento e que se funda em excessos, anula o leitor que vagueia em meios-termos. Por conseguinte, escritor e comunidade leitora conciliam-se num universo obsceno, decadente, arrebatador, de abandono e desolação. Quem se perde nas palavras de Bukowski, já se terá perdido nos meandros da derrota, da loucura e da maldição, revendo-se na misantropia e na sensibilidade do escritor. Afinal, como reiterou Stephen Kessler: “Without trying to make himself look good, much less heroic, Bukowski writes with a nothing-to-lose truthfulness which sets him apart from most other ‘autobiographical’ novelists and poets (…).”

Nos seus romances, nos quais vigora o viés autobiográfico, a figura central é Henry Chinaski — alter ego de Charles Bukowski. Henry ou Hank é um devasso, que calcorreia pelas avenidas de Los Angeles, na busca da próxima odisseia sexual e que se envolve num ambiente profundamente masculino e envelhecido de álcool, jogo, sexo, solidão e confrontos. Os seus textos, que apresentam um cariz assaz americano, são pano de fundo para um universo escatológico e extremamente rabelaisiano; e denunciam, de modo evidente, uma conceção antirromântica, enfatizada pela caça às fêmeas, pelas constantes transgressões, pela sexualidade desregrada e pelo cinismo.

Ainda que a sua poesia apresente estas mesmas linhas temáticas, contém uma sensibilidade e dor particulares, sublinhando a solidão e o desalento do homem da cidade. A monotonia e a impossibilidade de um amanhã insólito aborrecem um autor que atribui ao experienciar e ao vivenciar uma brutalidade imperiosa. Vive-se e ama-se sem misericórdia, porque vida e morte/ vitória e derrota se entrelaçam e se equivalem:

“[…]

and don’t forget:

time is meant to be wasted,

love fails

and death is useless.”

Sobretudo, Bukowski não traz paz ou embeleza e orna a vida, mas impõe uma honestidade pura, que corrói a alma do outro. A escrita e aqueles que a ela se dedicam são também alvo de crítica. O marasmo e a ausência de sensação tendem a anular a possibilidade de criação. Se, por um lado, os leitores demandam uma produção literária repleta de novidade e de autenticidade, porque delas carecem, os escritores nada têm a providenciar, a conceder. Trata-se de um ciclo estéril e depressivo:

“[…]

the world is full of

constipated writers.

and eager readers who need plenty of shit.

it’s depressing.”

Charles Bukowski estará perpetuamente vinculado à escrita, à poesia, à clandestinidade literária. Porém, também terá evidenciado um fascínio pela pintura, tendo produzido mais de uma centena de obras. Até 1980, algumas eternizaram-se nas capas das primeiras edições dos seus livros. Indiferente, ainda que apaixonado; triunfante, ainda que eternamente derrotado; Bukowski é portador de uma palavra sui generis, revolucionária e transparente. Não há falácias ou mentiras, não há caminhos fáceis; há Bukowski, há Henry Chinaski, há vida e morte, há a procura pelo lugar do homem no mundo, há sexo, muito sexo. Que vagabundo este, que nos veio recordar que sermos derrotados é pretexto para festim; que sermos derrotados é irrisório. Afinal:

“[…]

well, I suppose the days were made

to be wasted

the years and the loves were made

to be wasted.”

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