Cerimónia de abertura da 11ª edição do Motelx: “Super Dark Times”, a descrição onírica de uma tragédia juvenil

6 SETEMBRO, 2017 -

A sessão de abertura da 11ª edição do Motelx compôs-se como seria de esperar: esgotada há muito por uma plateia de fãs do cinema de terror. O São Jorge decorou-se a rigor, com elementos de horror espalhados até pela casa de banho, por entre guilhotinas, diabos vermelhos e um banquete digno de Hannibal Lecter. O festival já se tornou para a agenda deste público dedicado um dos momentos altos do ano, uma espécie de romaria onde todos os anos por esta altura se reunem para celebrar a fantasia, o horror, e todos os seus inúmeros componentes, e quem vos escreve tem todo o gosto em fazer parte deste evento que nos traz sempre boas surpresas no campo do cinema de género. Já esteve presente para um breve discurso o lendário realizador/produtor Roger Corman, convidado de honra desta edição. Alejandro Jodorowsky juntar-se-á a nós nos próximos dias. Foi feita a habitual apresentação do programa desta edição, com destaque para uma interessantíssima seleção de longas metragens europeias a concurso pelo Méliès d’Argent e sublinhado para It, o mais aguardado filme do festival, guardado para o encerramento, também já há muito esgotado.

Antes da exibição da longa metragem da noite, foi exibida a curta que lança a imagem do Motelx deste ano, os diabos vermelhos duma velha tradição profana de trás-os-montes, num found footage sem particular inspiração comparando com o que a Take It Easy já tinha mostrado ser capaz de fazer em edições anteriores. O que provavelmente o dedicado público do Motelx não estava à espera era que para filme de abertura desta edição fosse escolhido Super Dark Times, um drama psicológico de mistério pausado, ao invés de um habitual filme de terror em sentido estricto. Pela reacção do público no final, parece que ficou um amargo de boca, uma sensação de “não foi para isto que me inscrevi” enquanto um amigo se virava para outro e dizia “tinhas-me dito que era um filme de terror”. No entanto, se retirarmos Super Dark Times do contexto em que foi exibido, temos um filme sem dúvida bastante interessante.

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Super Dark Times é um potencial filme de culto para um nicho muito particular, o mesmo nicho que eleva Donnie Darko a esse estatuto, filme ao qual tem sido directamente comparado e apontado como principal inspiração. Observamos a forte relação de amizade entre dois adolescentes na casa dos 17 anos num bairro suburbano norte-americano no início dos anos 90, que subitamente se vê afectada por uma tragédia que os dois amigos se vêm obrigados a esconder, algo que os irá perseguir numa espiral emocional apresentada de forma onírica e contemplativa até ao seu pouco robusto desfecho. Parece que a principal intenção do realizador Kevin Phillips é realizar um filme belo, uma reflexão realista mas negra sobre a raiva deste círculo de adolescentes que funciona a título de exemplo para todos os outros, com referências nostálgicas entre conversas e desafios que provavelmente todos tivemos a determinado momento do crescimento. Todavia o grande desafio de Super Dark Times é equilibrar-se de queixo elevado dentro do quadro imagético contemplativo que ele próprio pinta, numa corda muito frágil que, partindo, tomba para o campo de um pretensiosismo pesado injustificável pela sua substância argumentativa. Simbolicamente (porque Super Dark Times pouco mais vai além de uma descrição onírica de uma certa revolta juvenil) o filme faz tudo com peso e medida, com elementos que caracterizam de forma realista as emoções, reacções e consequências com que a geração representada (mais uma vez simbólica, exemplificativa) se vê confrontada, o que é feito com a preciosa ajuda dos seus dois bons actores principais. Na realidade não estamos a observar a história concreta destas personagens, como o filme nos tenta inesperadamente impingir ao filmar na sua cena final, e julgo que não se pode considerar um spoiler, o sol a bater na cara de uma das personagens secundárias, caracterizando-a sem motivo aparente, algo que nunca fez com reflexão com nenhum dos dois protagonistas, e aí, apenas no final, Kevin Phillips sucumbe à tentação. A estética do filme, aliada a uma banda sonora que lhe assenta que nem uma luva, será aprovada pelo gosto pessoal do espectador, mas mesmo para os não apreciadores nunca se torna incomodativa como o extremo do cinema de, por exemplo, Harmony Korine. Arriscando muito, Super Dark Times corresponde bem, mas não tem a robustez de substância necessária para glorificar o seu muito bom trabalho formal.

Porque é bom: Excelente tratamento estético; interpretação eficaz e hiper-realista dos seus dois protagonistas; um retrato representativo apurado de acção/recção/consequência num circulo juvenil de classe média suburbana

Porque é mau: Por vezes desequilibra-se sucumbindo a algum pretensiosismo estético e argumentativo, de forma desnecessária; o terceiro acto da trama é pouco robusto e soa a desenrascado; carece de um desenvolvimento de personagem mais profundo, baseando-se demasiado na estética para esse fim ao invés de em argumento

Crítica também publicada em The Fading Cam, escrita por David Bernardino e Sandro Cantante

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