Centenas de manifestantes contra acórdão sobre violência doméstica

27 OUTUBRO, 2017 -

A grande adesão de manifestantes surpreendeu a organização

A Praça da Figueira, em Lisboa, costuma ser palco de várias manifestações organizadas pelo Movimento Feminista, mas nunca se havia conseguido a mobilização de tantas pessoas. Hoje, às 18 horas, várias centenas de pessoas se uniram para gritar em uníssono pelo lema “Machismo não é Justiça, é Crime”.

Jovens, idosos, crianças, grávidas, homens, mulheres com cartazes e instrumentos musicais fizeram-se ouvir no centro de Lisboa contra a mais recente polémica do acórdão sobre violência doméstica. Entre os vários cânticos acompanhados por uma banda dá-se a ordem de demissão dos juízes machistas. “No século XXI não queremos juízes do século XIX”, lê-se me vários cartazes.

Pedro Goa, escritor de 47 anos, decidiu fazer parte das manifestações movido pela revolta perante a “constatação pública de que o sistema jurídico, em concreto o tribunal de recurso, continua a tomar decisões completamente absurdas” afirma continuando “é inacreditável que a corporação dos juízes continuem a achar mais importante defender um dos seus do que assumir o óbvio que há pessoas que fundamentam decisões com códigos penais de séculos passados não podem estar a exercer este tipo de cargos”, conclui.

Os turistas param curiosos para tentar perceber o que se passa. Um rapaz tenta explicar em inglês “estamos aqui contra a justiça machista” e continua a contar a história que deu asas a toda esta reação, explicando que se deu a conhecer um acórdão por parte de dois juízes desembargadores que usaram o adultério para diminuir a gravidade de um caso de violência doméstica.

O vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura mandou instaurar um inquérito, para agilizar recolha de informação, mas os manifestantes exigem a demissão dos juízes. “Como é que uma mulher deixou passar aquilo?”, pergunta uma das manifestantes. Ana Lima, de 62 anos, está entre a multidão mas acha que “deveriam estar milhões, devíamos estar todos na rua”. A agora reformada professora diz que sente estar a viajar no tempo até à adolescência da sua mãe que tem hoje 90 anos. “É inadmissível a inação dos órgãos que podem intervir. O Conselho Superior de Magistratura abriu um inquérito mas tudo o que se vê na televisão é gente a colocar paninhos quentes”, comenta. “Tenho muito receio do que se está a passar, as coisas mudaram depois do 25 de abril mas isto é resultado da escola conservadora e retrógrada do Cavaco Silva durante os anos 80”.

Patrícia Vassallo Silva, fundadora do Movimento Feminista, organizadora do protesto afirma que se assiste a “um retrocesso na conquista dos direitos humanos, na luta pela igualdade de género” mas tenta ver o lado positivo possível dizendo que “se calhar há males que vêm por bem e neste caso pode ser que isto ajude a tornar possível conhecer mais situações destas, que acredito infelizmente não ser uma situação isolada”. Para a jovem a adesão foi “uma surpresa, porque não costumam aparecer tantas pessoas. Acho que desta vez isto tocou a muita gente”, comenta com ar satisfeito.

Artigo escrito por Ana B. Carvalho / Parceria jornal i
Fotografia de Teresa Neto

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