#CCA2016: Os 20 melhores álbuns de música de 2016, uma lista alternativa e pessoal

23 DEZEMBRO, 2016 -

Muito se tem dito relativamente à falta de qualidade dos discos que saíram em 2016, face ao que foi premeditado no fim de 2015. Aqui em jeito de nota, este foi um dos anos mais importantes para a música do século XXI. A Pop ficou menos pop, o R&B e a Soul, promovidos pela comunidade Afro-Americana, envergaram a Neo-Soul e roubaram a luz dos holofotes, graças à influência dos discos To Pimp a Butterfly e Black Messiah de Kendrick Lamar e D’Angelo, respectivamente. A seleção de instrumentalistas tem sido cada vez mais minuciosa e as produções estão mais cuidadas mostrando que, apesar de ser fácil e barato fazer um disco não quer dizer que tenha de ser feito às três pancadas e houve espaço para músicos mais underground se mostrarem, um pouco como se passou nos anos 90.

No fundo, 2016 foi não só um ano de progresso e consistência, mas também um trecho temporal que procurou marcar uma identidade, após cerca de 15 anos de pseudo-revivalismo, vincados de música sem relevância histórica e sem qualquer perspectiva de evolução a médio/longo prazo. O que começou em 2015 e que – felizmente – teve seguimento este ano, é o presságio de uma nova Golden Age da música.

Antes de falar de cada artista, quero deixar claro que isto é uma escolha pessoal, posto isto, procurei conciliar impacto, qualidade e diversidade.

20 – The Comet is Coming –Channel the Spirits

Um dos grupos londrinos mais explosivos do momento, e que passou duas vezes este ano por Portugal, lançou este ano o seu primeiro disco de longa duração. ShabakaHutchings, saxofonista dos subúrbios de Londres, é o líder deste trio e membro de mais uns quantos grupos – Alexander Hawkins Ensemble, Melt Yourself Down, Shabaka and the Ancestors, Sons of Kemet – é também dono de dois senhores pulmões que, aliados ao seu pescoço elástico, sopram um Jazz psicadélico, composto em estado de transe, com alguns toques progressivos.Channel the Spirits ao vivo ganha outra dimensão, não querendo eu dizer com isto que o disco não é tão bom, muito pelo contrário, dentro da categoria de grupos que nasceram para o palco este conseguiu criar um álbum muito bem polido, não perdendo a euforia distribuída entre o saxofone, o sintetizador e a bateria.

19 – Kaitlyn Aurelia Smith  Ears

Kaytlin A. Smith já apresenta trabalhos desde 2012, mas foi só este ano que me deparei com esta artesã da música ambiente. Um pouco ao estilo de Klaus Schulze, Kaitlynarquitetou Ears com o mesmo nível de compreensão do espaço sideral, envolvendo o experimentalismo num estilo mais compacto, mais cantado.

18 – Against Me! – Shape Shift With Me

Será que o Punk não está morto? Estou a brincar, está. Não quer dizer que de vez em quando não sejam lançados bons trabalhos dentro do género. Nunca tolerei Punk Rock, ou como gosto de lhe chamar, Pop Punk, falo claro de Green Day, Sum 41 e afins, mas Against Me!Não se rendem inteiramente aos clichês. “Shape ShiftWith Me” é divertido, enérgico e nostálgico, o disco perfeito para quem anda de skate. Como eu não passei dos Ollies fiquei-me por discos mais caseirinhos.

17 – Bruno Pernadas – Those Who Throw Objects atthe Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them

Não sei bem se estou a cair na senhora da asneira por colocar um disco português nesta lista, mas a verdade é que o disco dos crocodilos do Bruno Pernadas poderia muito bem ser lançado por uma Impulse ou uma BlueNote. Com isto quero dizer que não é só mais um disco português, é para mim um dos melhores do ano no panorama geral. O guitarrista de Jazz português lançou dois discos em 2016, este de que vos falo, e o “WorstSummer Ever”, que no fundo é um repescar de trabalhos antigos de Pernadas.  “Those Who Throw Objects at theCrocodiles Will Be Asked to Retrieve Them” lançado pela Pataca Discos, é o assimilar de ideias de um músico com um dedinho para o Jazz fusão, tocado por 9 músicos do meio jazzístico português. Isto resulta num trabalho cheio de músicas catchy, com composições algo complexas, interpeladas pelas vozes que, da forma mais orgânica possível, estabelecem um loop, como é o caso da minha faixa de eleição, “Galaxy”.

16 – Donny McCaslin – Beyond Now

Apetece-me ser redutor e dizer que há 2 tipos de apreciadores de Miles Davis, os que veneram a simplicidade e impacto de “Kind of Blue” ou os que preferem a esquizofrenia de “Bitches Brew”. “BeyondNow” é mesmo para quem prefere o segundo. O irreverente Donny McCaslin tem a seu lado JasonLindner (teclas),  Tim Lefebvre (baixo), e Mark Guiliana(bateria), todos eles integrantes do último disco de David Bowie, Blackstar. Com um leque de artistas tão experiente, McCaslin arriscou fazer um disco de fusão com toques de Dark Jazz, um pouco à semelhança do grupo The Kilimanjaro DarkJazz Ensemble. Por influência do trabalho com David Bowie, Donny fez um cover de “A Small Plot of Land” em jeito de ode a ZiggyStardust.

15 – Animals as Leaders – The Madness of Many

Até “The Madness of Many”, a minha relação com Animals as Leaders era um pouco complicada, eles gostavam de mim, mas eu não gostava assim muito deles. Sentia que tinham tudo a nível técnico, mas que lhes faltava alma. Agora consigo ver a beleza deste trio sem baixista. As malhas mais Djent, como “Backpfeifengesicht”, representam o seu lado mais tecnicista, mostrando a Dragon Force o que é ser tecnicamente complexo sem soar azeiteiro. Por outro lado, “Brain Dance” é abundante em frases de Jazz, verbalizadas inicialmente como uma balada, mas que acabam por ganhar a pujança a que a formação de Tony Abasi nos habituou.

14 – Terrace Martin – Velvet Portraits

Terrace Martin, mais conhecido como o costureiro de “To Pimp a Butterfly”, lançou em Abril “VelvetPortraits”, longa duração que mostra perfeitamente o estilo de jogo do produtor norte-americano. O maior forte de Terrace são as texturas fluídas, expressas através da brandura inconfundível com que toca saxofone, sendo esta a característica que o distingue de KamasiWashington no álbum de Kendrick Lamar. O disco conta com a participação de nomes como Robert “Sput” Searight, Curly Martin, Robert Glasper, Ronald Bruner Jr., Thundercat, Lalah Hathaway ou Kamasi Washington.

13 – Car Seat Headrest – Teens of Denial

Passei grande parte da minha adolescência a ouvir IndieRock, fartei-me com rumo que começou a tomar e até já estava algo feliz pela sua morte, até que Will Toledo decide fazer 12 músicas que representam uma das melhores obras do género. Mas “Teens of Denial” vai muito para além da simplicidade do estilo, configurado pela representação quotidiana das letras e pelos efeitos na guitarra que mascaram o número limitado de acordes. O trabalho mostra esforço e criatividade em oposição à preguiça e facilitismo com que os músicos de Indie Rock costumam compor.

20-13

12 – Beyoncé  Lemonade

No ano que marca o fim da presidência de Barack Obama e o reerguer dos republicanos, Beyoncé lança “Lemonade”, o seu melhor trabalho até então, graças à participação de Kendrick Lamar, James Blake, Jack White e The Weeknd. As músicas onde cada um dos nomes mencionados entram são as mais potentes. Ganham muito pela produção de cada artista, que claramente deixaram a sua marca. James Blake trouxe as harmonias, Jack White os riffs de guitarra, The Weeknd o R&B e Kendrick o Rap. O último trabalho da Queen B é o único que realmente gosto, é mais cru, mais verdadeiro, mas não deixa de ser Pop na forma como Beyoncé o interpreta, sendo esse o único factor que realmente peca… esse e “Daddy Lessons” uma suposta música country que é como diz o outro, não bate bota com perdigota.

11 – Sarathy Korwar – Day to Day

Sarathy Korwar, que se destaca pelas suas capacidades enquanto musicólogo, confronta o Jazz com os ritmos dos Sidis, tribo indiana descendente de povos africanos escravizados no século VII. Vive em Londres, nasceu nos E.U.A, mas foi criado na Índia, onde despertou o gosto pela música. Aplicou metodologias quase que diria antropológicas para compor Day to Day. Foi para o campo gravar músicos Sidi, proficiente na arte rítmica, para posteriormente assimilar e tocar por cima destas gravações. A melhor faixa do álbum é Bismillah, que vive de um crescendo e de uma transição entre este género de música indiana e o Jazz.

10 – Jacob Collier – In My Room

Ele tem 22 anos, começou no Youtube com covers de Michael Jackson, Stevie Wonder, compõe, arranja e toca tudo sozinho, é agenciado pelo Quincy Jones, está nomeado para 2 Grammys, falo claro de Jacob Collier, o prodígio de Londres que é visto como uma das maiores promessas por tudo o que é lenda do Jazz. In My Room é o seu disco de estreia e conta tanto com covers – “Flinstones” – como com originais que beneficiam de uma capacidade harmónica incomparável e do engenho para tocar todos os instrumentos em que pega. Este álbum é o mundo de Jacob, o quarto onde ele cresceu musicalmente e onde deu à luz canções que são um petisco para os ouvidos, caso de “Hideaway” ou de “Youand I”.

9 – A Tribe Called Quest – We got it from Here… Thank you 4 your Service

Obrigado pelo teu serviço Phife Dawg, nós tomamos conta do barco a partir daqui. Magoa pensar que um dos rappers mais acarinhados pelos Hip-Hop heads morreu. Ainda assim deixou neste último dos ATCQ um marco muito importante. “We got it from Here… Thank you 4 your Service” soa a “Low End Theory” adaptado ao presente, sem nunca perder o espírito do álbum icónico que os lançou para o topo da cadeia. Agrada-me o grupo liderado por Q-Tip ser dos mais consensuais da história do Hip-Hop. São indiscutivelmente bons e, por isso, todos os seus trabalhos representam união entre todo o público que os ouve, agora muito mais do que nunca.

8 – David Bowie – Blackstar

E por falar em mortos… não sei se será bom começar assim, mas a verdade é que David Bowie morreu dois dias depois de sair “Blackstar”, que saiu em jeito de notícia da proximidade da sua morte. “Lazarus” é a faixa mais marcante, que através do videoclip deu a entender o estado de saúde de Bowie. Não é a sua melhor obra, vive em parte da tragédia em questão, mas ao mesmo tempo é bonita forma de se dizer a alguém que o fim está próximo. Uma coisa é certa, Bowie passou os portões do céu, dirigiu-se a deus e proferiu: “Let’s Dance”.

7 – Laura Mvula – The Dreaming Room

Laura Mvula é o resultado de treino em música clássica aplicado à Soul. “The Dreaming Room” foi lançado após o single “Overcome” que conta com Nile Rodgers na guitarra a tocar uns acordes muito similares aos que tocou em “Get Lucky” dos Daft Punk. O ponto alto são os coros que disputam diferentes linhas harmónicas ao longo do álbum. Laura Mvula traz à memória algo que me ficou preso na cabeça, nos anos 90 havia uma quantidade incrível de mulher inglesas, mas não tanto de Londres, que aliadas ao Downbeat e outras variantes, encantavam com as suas vozes altamente treinadas. Após um LP tão consistente, só espero que a cantora inglesa ganhe o nível de popularidade que merece.

6 – Solange – A Seat at the Table

O que a Solange fez com este álbum é o resultado que o Lemonade da Beyoncé poderia ter tido e até tem piada porque é a irmã mais nova da Queen B. É tramado quando os irmãos mais novos chegam à idade em que conseguem fazer algo melhor do que os primogénitos. A Seat at the Table vem reivindicar a presença da Neo-Soul na Pop sem soar a plástico ainda que, como qualquer artista Pop que se prese, conte com 54 pessoas para a sua criação, o que me faz questionar, quantos engenheiros de som são necessários para mudar uma lâmpada?

5 – Xenia Rubinos – Black Terry Cat 

Se a St. Vincent cantasse Neo-Soul e fosse afro-americana, o resultado seria certamente Black Terry Cat. Esta mescla não é interessante? É assim mesmo que a escuta deste LP se desenha, ainda que de uma forma agradavelmente confusa. Não é um disco para se ouvir só uma vez, é na verdade a perfeita fusão de uma fórmula pop com uma inquietante mudança de ritmo, marcada pela boa voz de Xenia Rubinos. O pensamento na composição de todas as músicas passa principalmente por um instrumental invulgar, onde a voz procura – consistentemente – aproximar-se e afastar-se. Isto é muita técnica.

12-5

4 – Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree

Quase que dou este lugar ao Nick Cave só pelo azar que ele tem na vida. Agora a sério, todos sabemos que a maior fonte de inspiração de um artista é o sofrimento, mas também não é preciso tanto. O músico mais negro do Post-Punk, que este ano perdeu um filho, lançou um dos trabalhos mais pesados que já ouvi. Admito que saber de onde veio a inspiração para “Skeleton Tree”influencia a minha opinião, porém torna-se quase sufocante a forma como a tristeza de Nick nos aborda. Os sentimentos inerentes ao disco são depressivos e transparentes, como é possível ver letra após letra. As mudanças de timbre, o saltitar entre o canto e a declamação, o instrumental pesaroso, definem “SkeletonTree” como uma demonstração de arte depressiva em estado bruto.
“I used to think that when you died you kind ofwandered the world / In a slumber till you crumbled, were absorbed into the earth / Well, I don’t think that anymore” – Girl in Amber

3 – Elza Soares – Mulher do Fim do Mundo

É demasiado cedo para colocar o “Awaken, My Love!” do Childish Gambino num Top – fica para o ano – mas ainda não é tarde para o de Elza Soares. A diva da MPB é vista pela imprensa internacional como uma pérola da música e uma voz incontornável. O seu primeiro álbum saiu em 1960, mas é em 2016 que Elza recebe o devido crédito. “A Mulher do Fim do Mundo” é um hino ao sexo feminino e ao mesmo tempo um grito de revolta, de uma mulher que muito sofreu e que fez questão de o expressar veemente na música com o mesmo título da colectânea. Este projeto ganhou muito em juntar instrumentistas jovens à cantora, o que permitiu construir um repertório de samba futurista e um tanto surreal.

2 – Danny Brown – Atrocity Exhibition

A partir deste ano foi possível ouvir o mundo apocalíptico de Danny Brown. O rapper com menos parafusos do que dentes lançou a sua obra-prima, não querendo tirar qualquer valor aos seus trabalho anteriores. Se “Atrocity Exhibition” fosse pintado seria qualquer coisa como um quadro do Basquiat em que a temática é o mundo de Mad Max enquanto o DannyBrown vai no topo de um carro agarrado a uma machinegun a aniquilar tudo o que lhe aparece à frente. É assimque Atrocity foi criado desde “Downward Spiral”, uma das melhores intro do ano, passando por “Lost” onde Danny Brown, propositadamente, entra fora de tempo, para rapidamente encontrar o ritmo do beat e atingindo um auge de loucura em “Ain’t it Funny”. A demência doálbum é estranhamente atraente, por isso, Danny tens a minha permissão para continuar.

1 – Anderson .Paak  Malibu

Sabe cantar, rappar, tocar bateria e criar um disco repleto de singles, mas será que consegue fazer isto tudo enquanto faz o pino? Talvez não, mas isso pouco importa, quando temos à nossa frente um artista tão completo e com uma enorme vantagem, o Dr. Dre como seu mentor. O famoso produtor que pegou em Eminem e Snoop Dogg, aposta agora em Anderson .Paak, que juntamente com os seus aliados The Free Nationals lança o segundo álbum, mais conciso, mais sério e menos desleixado que “Venice”.
O ponto antes de Paak simboliza a atenção ao detalhe,verdade estabelecida nas líricas de um gajo que passou por inúmeras adversidades e que, enquanto entra num estado nostálgico, move o ouvinte com sons que caminham entre o Funk, o Hip-Hop e a Neo-Soul.

4-1

Texto de João M. Carvalho

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