‘Carneiros’, uma marcante obra sobre o passado e o perdão

26 AGOSTO, 2016 -

Vencedor do prémio Un Certain Regard no Festival de Cannes, chega esta semana aos cinemas portugueses, pela mão da Medeia Filmes, Carneiros (ou Rams), a segunda longa-metragem do realizador Grimur Hakonarson.

Carneiros leva-nos até à localidade isolada de Burdardalur, na Islândia. No vale de Burdardalur grande parte dos habitantes tem no negócio da criação de carneiros o seu ganha pão, de onde, por consequência, resulta uma grande ligação e compromisso entre os criadores e seus animais e que ultrapassa a simples ligação que se tem com um animal de estimação.

Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodór Júlíusson) são dois desses criadores. Dois irmãos que não têm mais nenhum parente vivo, vivem lado a lado na mesma propriedade, em casas separadas, e onde a sua família é, há várias gerações, criadora de uma raça de carneiros reconhecida e premiada pela sua qualidade. Gummi e Kiddi, no entanto, não se falam há mais de quarenta anos. Esta falta de comunicação, minguada por cartas que ambos dão ao cão de Kiddi, que funciona como ligação entre eles, é uma consequência para factos que nunca nos foram dados a conhecer, nem tinham de ser.

Em Carneiros, cedo nos apercebemos que este é um filme que não nos dará nada de forma gratuita, muito pelo contrário. Trata-se de uma história dramática, pesada, de tonalidade cinzenta constante e sem facilitismos de narrativa, apenas levemente irrompida com alguns momentos de humor negro.

A disputa entre os dois irmãos sofre um factor de mudança quando se descobre haver uma doença no rebanho de um deles, um acontecimento que fará com que todos os rebanhos das redondezas tenham de ser abatidos.

Aqui, não são unicamente as suas criações de carneiros que estão em risco, mas sim um propósito em comum entre os irmãos, capaz de se sobrepor a disputas pessoais cimentadas nesta Islândia rural e de os unir passados tantos anos, anos passíveis de ser contados pela longevidade das barbas que transportam nos seus semblantes carregados, frutos de uma solidão transversal e comum a cada um deles onde o seu modo de vida não lhes facilitou a descoberta de alguém com quem partilhar a vida.

Com as excelentes e irrepreensíveis actuações de Sigurður Sigurjónsson e Theodór Júlíusson, Carneiros é um pungente conto que com a maravilhosa banda sonora de Atli Orvarsson, ao som da melancolia trazida por um órgão de igreja e acordeão nos esmurra no estômago sem piedade num final perfeito capaz de nos marcar profundamente. Incólume, Carneiros é uma obra sobre o perdão e de como o passado afecta o presente de forma tão vincada. Uma das melhores propostas de visionamento neste “Verão cinematográfico” em Portugal (a par do igualmente vindo do frio islandês O Grande Fúsi). Uma obra marcante que promete perdurar na memória.

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