Carlos Querido escreve o Homem Moderno em ‘Insanus’

18 OUTUBRO, 2017 -

Após a publicação de obras como Salir d’Outrora (2007) e Príncipe Perfeito – Rei Pelicano, Coruja e Falcão (2015), a editora Abysmo publica o mais recente livro de Carlos Querido (n. 1956), intitulado Insanus. Em 126 páginas, o autor português escreve o homem da modernidade, o homem dos nossos tempos. Assim, como quem nos dá a chave para a portada da alma, deslinda-nos a solidão, a insanidade e o medo enraizados no ser humano.  

O traço da modernidade não se manifesta apenas no conteúdo temático, mas também na própria estrutura da obra, que é composta por 29 micro-contos que, na maioria das vezes, se apresentam sob a forma de monólogos ou introspeções. António Mega Ferreira, na apresentação do livro nas Caldas da Rainha, afirmou que “Nenhuma destas narrativas é indiferente, nenhuma deixa o leitor indiferente”. Afinal, em Insanus, é enfatizada a universalidade de determinadas questões. Pensemos o fragmento “Inventa um acidente”, que se foca no complexo tema que é a eutanásia ou textos como “Cruz Deserta” e “Legião é o meu nome” que colocam no centro o carácter religioso do homem.

Carlos Querido, com a epígrafe “I became insane, with long intervals of horrible sanity”, da autoria de Edgar Allan Poe, concedeu as pistas necessárias ao leitor. Personagens como psiquiatras ou psicoterapeutas habitam os micro-contos. Temas como a loucura, a noite, a insanidade, as inseguranças, a alienação e as ideias perturbadoras que nos podem assolar impõem-se como um grito que nos relembra a obscuridade da vida e das relações humanas.

A escrita de Carlos Querido demarca-se pelo cariz intimista e límpido, dando-nos a sensação de que todas as palavras foram pensadas e repensadas ao pormenor. Assim, nos meandros da loucura e da ausência de limites que imperam nas linhas temáticas, destaca-se esta reflexividade constante na palavra literária. Por conseguinte, seria expectável que a leitura de um texto que narra o abismo da vida humana nos cativasse a tempo inteiro. Porém, parece-nos que em determinados fragmentos a mensagem fica retida exclusivamente no texto; falhando Carlos Querido na proliferação e incrustação das emoções. Não obstante, é um texto lindíssimo que acaba de emergir no panorama literário português, devendo ser conhecido e lido.

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