Carl Sagan, uma forma diferente de conhecer ciência

30 JANEIRO, 2017 -

Carl Sagan tornou-se um dos mais mediáticos promotores da ciência do século XX. Tanto a partir da televisão (a série “Cosmos”, em 1980) como da literatura (também “Cosmos”, de 1980, “The Dragons of Eden”, de 1977, e “The Demon-Haunted World”, de 1996) o cientista fez chegar a ciência, em especial a astronomia e a cosmologia, a muito mais gente do que os habituais canais científicos conseguiam. Não obstante, fez mais de seis centenas de publicações e envolveu-se em diversos projetos de investigação astrofísica, contribuindo para um sem número de desenvolvimentos nesse ramo. Todo o trabalho que realizou durante quase cinco décadas encapsulam muitos sonhos, embora conduzidos por um ceticismo que o levou às maiores surpresas consigo, com o mundo e com o universo em plena expansão e expressão.

Carl Edward Sagan nasceu a 9 de novembro de 1934 em Brooklyn, subúrbio de Nova Iorque. Com uma forte ligação aos seus pais, foi da sua mãe que retirou o apetite pelas questões e ambições intelectuais e foi com o seu pai que matou a sua intensa curiosidade desde cedo, desde questões sobre estrelas a perguntas sobre a existência dos dinossauros. Foi a eles que, segundo o próprio, consagrou no seu pensamento os dois métodos científicos predominantes nas suas investigações: o ceticismo (dúvida de tudo sobre tudo, questionando ao máximo de forma a construir crenças e conhecimento a partir de fontes e provas indubitáveis) e o saber (como a própria palavra indica, o conhecimento em bruto que se articula com as estruturas cognitivas cerebrais, originando precisamente a aplicação do conhecimento em conjunto com o já apreendido e aprendido).

As diferentes exposições que visitou desde pequeno tiveram um impacto substancial na sua visão futurista sobre a tecnologia e a astronomia, abrindo-se os portões para um forte pendor investigativo que se sustentava nessa curiosidade incessante. De origens judaicas, a Segunda Guerra Mundial foi vivida do outro lado do oceano mas também se fez sentir no seu coração e dos seus familiares, apesar dos esforços destes para evitarem transmitir essa dor ao pequeno Carl. Essas memórias estão, por sua vez, expostas no livro “The Demon-Haunted World”. Paralelamente a esta agonia, o jovem sempre se mostrou afoito a descobrir e a investigar de forma autónoma. A curiosidade que nutriu pela Natureza levou-o a incursões a bibliotecas para explorar o teor das estrelas e a ir com amigos a museus ou a planetários, investindo nesses contactos astronómicos e até biológicos. Os seus pais continuaram a investir nesse gosto do seu filho, dando-lhe jogos didáticos e livros de ciência, incluindo alguns de ficção científica. Foi aí que a apetência pela astronomia se foi destacando das outras, navegando pela imaginação com os planetas e corpos celestes descritos por autores como Edgar Rice Burroughs. A vontade de desconstruir mistérios que a mente humana era mais capaz de conjeturar do que observar era muita e foi isso que o moveu desde aí até ao final da sua vida.

A sua formação académica deu-se em Chicago, na universidade da cidade, licenciando-se em 1954 e com honras em ciências no ano seguinte, tornando-se mestre em Física em 1956 e doutor em Astronomia e Astrofísica em 1960. Neste período, algo que se tornou fulcral na lapidação do seu saber e da sua vocação foi fazer parte da Ryerson Astronomical Society, tendo a oportunidade de observar muitos luares e variadíssimos corpos celestes. Para além disto, trabalhou num laboratório com Hermann Joseph Muller, Nobel da Fisologia em 1946 por detetar a influência dos raios X na genética. Após findar a sua formação, Sagan viajou para a Universidade da Califórnia com uma Miller Fellowship (bolsa destinada aos investigadores) e para o Smithsonian Astrophyiscal Observatory, no estado de Massachusetts, onde trabalhou durante seis anos. Como docente, esteve na Universidade de Harvard, no estado atrás citado, e na Universidade Cornell, já em Nova Iorque. No entanto, a sua vertente investigativa nunca o abandonou, tornando-se diretor do Laboratório de Estudos Planetários e diretor associado do Centro de Radiofísica e de Investigação Espacial deste espaço académico.

Num plano nacional, Carl Sagan esteve desde cedo associado ao programa americano associado à descoberta e ao acesso ao espaço. Assim, e desde a década de 50, foi assessor da NASA, dando ferramentas e instruções aos astronautas do programa Apollo, com vista a chegar à Lua. Esta foi uma das primeiras daquelas que seriam inúmeras missões que contariam com os préstimos científicos do norte-americano, preparando diversas naves espaciais robóticas para explorar todo o Sistema Solar. Alguns dos instrumentos que ajudou a construir para que estas expedições fossem frutíferas foram as sondas Pioneer 10, a Pioneer 11, as Viking (no estudo do planeta Marte) e as Voyager (destaca-se nestas o Disco de Ouro, elaborado em 1977), visando inserir nestas mensagens passíveis de serem compreendidas por todas as eventuais inteligências existentes no Sistema Solar. Sempre com uma visão muito cética relativamente àquilo que via e que teorizava, tornou-se diretor e docente de um curso de Pensamento Crítico na Universidade Cornell.

No plano dos feitos científicos, tanto no sentido de descobrir como no aflorar de caminhos futuramente a ser expandidos, o norte-americano contribuiu para se detetar as altas temperaturas do planeta Vénus. A partir das sondas Mariner, fez questão de estudar as emissões de rádio vindas desse planeta e de concluir que as temperaturas alcançavam aproximadamente os 500ºC. As suas visões estenderam-se até à idealização da existência de água em luas de Júpiter (Europa, com oceanos de água subterrâneos e com uma peculiar riqueza molecular) e de Saturno (Titã, com oceanos de compostos líquidos à superfície). Isso suscitou a possibilidade de serem habitáveis por diferentes formas de vida, levando a estudos sobre as variações de cor da atmosfera de outros planetas, embora as probabilidades de serem vegetação acabarem negadas com posteriores estudos. Ambas as hipóteses relativas à existência de substâncias líquidas em Europa e Titã foram corroboradas com estudos, que passaram tanto pelo envio de sondas como pelo estudo dos sinais emitidos pelas mesmas. Também a perceção das atmosferas de alguns planetas do sistema passaram pela ordem de estudos de Sagan, chegando a comparar a atmosfera densa e quente de Vénus à crescente emergência do aquecimento global na Terra, reforçando o caráter nocivo deste para as distintas formas de vida terrestres. A curiosidade sobre as possibilidades de existir vida extraterrestre no Sistema Solar tornou-se crescente, nunca fechando o olho a sinais que lhe reforçassem uma crença tímida mas que não era derrotada na esperança. Isso exprimia-se em experiências com reações químicas e com a produção de aminoácidos a partir de radiação.

Todo este minucioso e moroso trabalho teve uma repercussão especial por ter chegado ao público geral com mais simplicidade e coerência do que nunca. De muito Sagan se fez valer da série televisiva “Cosmos”, na qual apresentou os seus contributos, as suas hipóteses e formulações e até com as dúvidas que incutia naquele que o assistia pelo pequeno ecrã. O carisma e o entusiasmo do cientista fez-se logo sentir por aqueles que o observavam à frente do televisor, tornando-se o êxito literário no livro homónimo praticamente o mesmo. A divulgação científica conheceu assim um novo portal pelo qual se aproximava de mais gente e incutia o gosto e a curiosidade pelas revelações e pelas perguntas sem resposta induzidas e apresentadas pela ciência. Também “The Dragons of Eden“, que lhe valeu um Pulitzer, expressa uma fusão entre a antropologia, a psicologia, a ciência da computação e a biologia da evolução para explicar o processo de progressão da inteligência humana, incluindo reflexões sobre o sonho e sobre alguns mitos associados à inteligência.

Aproveitando a amplitude que os diferentes canais de comunicação lhe proporcionavam, não foi rara a ocasião em que o cientista incentivou aqueles que o acompanhavam a usar radiotelescópios na tentativa de identificar sinais de vida alienígenas. Para isso, contribuiu com a publicação de uma petição que defendia a viabilização do projeto SETI (Search for Extraterrestial Life) na cotada revista Science, em 1982, tendo também colaborado. na revista Icarus, voltada para a publicação sobre pesquisas planetárias. Antes, em 1980, fora um dos membros fundadores da Sociedade Planetária, que conta atualmente com mais de 100 000 membros em quase 150 países e que procura defender e apoiar diferentes projetos planetários e astronómicos realizados pela comunidade científica, e assumiu uma data de outros cargos diretivos em diferentes instituições deste ramo. Em contexto de Guerra Fria, o cientista não hesitava em alertar relativamente aos efeitos de uma putativa guerra nuclear, podendo esta desestabilizar todo o equilíbrio existente no planeta.

Foi em 1994 que surgiu um dos livros que possuía um conceito que havia notabilizado Carl Sagan internacionalmente. Este foi “Pale Blue Dot” (nomeado livro do ano pelo “The New York Times“) e problematizou o tamanho do planeta Terra na escala de todo o Sistema Solar, isto após as fotografias tiradas aos planetas visitados pela sonda Voyager 1. O mosaico proporcionado pelo leque de fotografias mostrava o tal “pálido ponto azul”, este que representava a Terra. A sua pequenez tornou-se obra de uma reflexão profunda sobre a existência humana e terrestre e sobre a necessidade de se permanecer humilde perante a grandeza cósmica, chegando então ao livro mencionado acima e até à televisão.

Esse impacto que passou a ter socialmente começou a dar-lhe argumentos para se envolver numa discussão social ativa e personalizada. Mesmo cético, não se coibia de discursar de forma livre e desprovida de quaisquer preconceitos sobre temas filosóficos, existenciais, astronómicos, científicos e até políticos. Oposto ao antropocentrismo (homem no centro e na génese do Universo), o cientista deu à caneta e apresentou métodos de detetar falácias científicas, combatendo-as a partir do uso do método científico e do pensamento crítico “The Demon-Haunted World“. Nessa obra, Sagan mostrou-se também bastante crítico da pseudociência, apontando-lhe a impossibilidade de refutar fisicamente quaisquer das premissas alegadas na definição do ocultismo ou da astrologia. O ceticismo que lhe caraterizava a postura científica até aqui se manifestava, nutrindo somente uma ligação mais etérea com o espaço que lhe conquistou desde pequeno.

Fumador e apologista de marijuana, escudou-se no pseudónimo Mr. X e redigiu um ensaio para o livro da autoria de Lester Grinspoon “Marijuana Reconsidered”, no qual apontou a inspiração que a sua utilização havia proporcionado e o papel positivo que teve em algumas das suas experiências intelectuais. Também no cinema a sua presença se fez sentir, em especial no marcante filme “2001” (1968), realizado por Stanley Kubrick. Atuando como consultor científico, sugeriu a existência de uma superinteligência extraterrestre mas não recomendando que esta fosse exposta. Sobre os OVNIs e sobre o fenómeno de 1952, no qual foi avistado um disco voador, Sagan considerou-o como um importante reforço para os estudos sobre a vida alienígena, embora sem concordar com a fundamentação extraterrestrial do sucedido.

A eventualidade da autodestruição humana tornou-se numa das questões mais prementes no seu discurso, fazendo-se valer dos conflitos bélicos internacionais e do potencial tecnológico para usos menos recomendados para destacar essa tendência. Como tal, mostrou-se adverso à corrida ao armamento promovido pelo presidente norte-americano à data Ronald Reagan. O pico desta oposição foi atingido em manifestações antinucleares pacifista, chegando até a ser preso. A vida pessoal do cientista foi marcada por três casamentos e por uma prole total de cinco descendentes, mesmo apesar de uma carreira profissional tão preenchida e mexida.

Após ser diagnosticado com mielodisplasia (incapacidade da medula óssea produzir células sanguíneas maduras e saudáveis), Carl Sagan não resistiu a uma pneumonia dois anos depois, partindo no dia 20 de dezembro de 1996. De acordo com o seu agnosticismo, pouco se sabe do seu futuro imaterial, tendo viajado talvez para o meio do cosmos que nunca se cansou de apresentar e de caraterizar. Por vezes com salutar rigor científico e por outras com o mistério que apimentaria um sem número de obras artísticas, o astrofísico norte-americano proporcionou uma nova forma de percecionar aquilo que serpenteia o planeta no qual todos vivemos. Foi com um natural carisma, alheio às normas e ditames académicos, com uma linguagem simples e plausível que Sagan fez chegar o universo aos sentidos humanos. A divulgação científica conheceu, desta feita, uma nova forma de ser empreendida, tornando-se mais humana e menos apegada à notação investigativa e académica. Num mundo que tanto tem, é difícil de se explicar a dimensão tão diminuta comparando com o resto do Sistema Solar. O que é certo é que Carl Sagan, mesclando um sorriso fácil e curioso com uma cética mas sonhadora posição relativamente ao cosmos, se tornou no grande portal para que as estrelas se tornem num hino universal.

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