Cannes: Cineasta critica austeridade “que provocou miséria em Portugal”

23 MAIO, 2016 -

O realizador cineasta britânico Ken Loach, que conquistou hoje a sua segunda Palma de Ouro em Cannes, defendeu o cinema como forma de protesto e considerou que a austeridade “provocou a miséria de milhões de pessoas desde a Grécia a Portugal“.

No seu discurso o cineasta, que no próximo mês completa 80 anos, garantiu pela segunda vez a obtenção do galardão máximo da 69.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes, em França, pela sua dura e realista história social “I, Daniel Blake”, e emocionou a assistência ao referir que “outro mundo é possível e necessário“.

Loach defendeu o cinema como forma de protesto contra um mundo em perigo pelas ideias neoliberais que implicaram uma vaga de austeridade “que provocou a miséria de milhões de pessoas desde a Grécia a Portugal, com uma pequena minoria que enriquece de maneira vergonhosa“.

O cineasta fez um discurso muito aplaudido, com a assistência a colocar-se de pé para lhe agradecer as palavras e o filme, com o qual se junta a um número restrito de realizadores – sete no total – que receberam duas palmas de ouro. A primeira palma de ouro foi garantida há dez anos pelo filme “The Wind that Shakes the Barley” (Ventos da Liberdade).

A decisão do júri presidido por George Miller em atribuir a Palma a Ken Loach por uma política social e que denuncia a situação em que se encontram as classes mais desfavorecidas da sociedade britânica, e com uma convincente interpretação de Hayley Squires foi particularmente aplaudida, sublinha a agência noticiosa Efe.

O grande prémio do júri foi atribuído ao jovem realizador canadiano Xavier Dolan, de 27 anos, pelo seu drama familiar “It’s Only the End of the World”.

O prémio de realizador foi partilhado entre o francês Olivier Assayas (‘Personal shopper’, um ‘thriller’ que conta com a atuação da atriz norte-americana Kristen Stewart) e o romeno Cristian Mungiu (‘Graduation’, um drama sobre a corrupção numa sociedade pós-soviética).

Já o prémio de melhor ator foi entregue ao iraniano Shahab Hosseini pelo seu papel de marido afetado por um ataque à sua mulher dentro da sua própria casa no drama ‘The Salesman’, do realizador iraniano Asghar Farhadi.

Hosseini já tinha contracenado no filme de Farhadi ‘A Separation’ (2011), que ganhou um Oscar para melhor filme estrangeiro de língua não inglesa.

Por sua vez, o prémio de melhor atriz foi atribuído à filipina Jaclyn Jose pelo seu trabalho em “Ma’ Rosa”, realizado pelo seu compatriota Brillante Mendoza, no qual interpreta o papel de uma mãe que vende droga para sobreviver e cai nas presas de uma polícia corrupta.

As duas ‘curtas’ portuguesas “Campo de víboras” e “Ascensão”, premiadas no festival IndieLisboa, no início do mês, foram selecionadas para a competição, no âmbito da Semana da Crítica, que tem como objetivo dar a conhecer novos talentos do cinema, mas acabaram por não vencer.

Esta edição do festival, sujeita às medidas de segurança mais apertadas de sempre, por causa dos atentados de novembro, em Paris, foi também marcada pela manifestação da equipa do realizador brasileiro Kleber Mendonça Filho, contra o que chamou “o golpe”, que afastou Dilma Rousseff da Presidência do Brasil.

Além disso, mais de 30 organizações europeias de cinema uniram-se igualmente num protesto contra o Governo do Irão, em defesa do cineasta iraniano Keywan Karimi, de 30 anos, condenado a 223 chicotadas, no seu país, por ter dirigido o documentário “Writing on the city” (“Escrevendo na cidade”) sobre os ‘graffiti’ de Teerão.

Em Cannes, fora de competição, foram ainda apresentadas duas longas-metragens com participação portuguesa: “La forêt de Quinconces”, de Grègoire Leprince-Ringuet, produzida por Paulo Branco, e “La mort de Louis XIV”, do espanhol Albert Serra, cuja rodagem passou por Portugal, teve a participação da Rosa Filmes e é protagonizada pelo ator francês Jean-Pierre Léaud, homenageado com uma Palma de Ouro Honorária, nesta edição do festival.

Este ano, o festival abriu com o novo filme de Woody Allen, “Café society”, exibido fora de competição, e encerra, pela primeira vez, com a exibição do vencedor da Palma de Ouro.

O júri foi presidido pelo realizador australiano George Miller.

Texto Lusa

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