Candido Portinari, o rosto da pintura brasileira

29 DEZEMBRO, 2016 -

Candido Portinari deu forma e cor às realidades pintadas do Brasil. O pintor quis importar parte da arte vanguardista que foi desenvolvida na Europa e na América do Norte e deu um fulgor criativo considerável a toda a cultura brasileira. A pintura canarinha tornou-se um dos cartões de visita a qualquer turista e muito se deve a tais pinceladas realistas e retratistas de um traçado histórico muito específico. Um traçado de uma nação a partir de um coração e das suas extensões até à ponta do pincel.

Candido Torquato Portinari nasceu a 29 de dezembro de 1903 no município paulista de Brodowski. Filho de imigrantes italianos, o pequeno foi criado numa fazenda de café, nessa zona provinciana e interior de São Paulo. A casa onde viveu, nas proximidades dessa fazenda, tornou-se num espaço museológico em sua homenagem. Este talento artístico denotou-se desde cedo e foi-se fortalecendo, mesmo sem o jovem completar a sua formação primária. Com 14 anos, uma comunidade nómada de pintores passou pela região paulista e descobriu Portinari, recrutando-o para ajudante das suas usuais restaurações de igrejas.

Com este primeiro passo de vulto dado, e com a sua vocação a ser reconhecida e valorizada, o brasileiro desprendeu-se da sua terra e da sua família e foi estudar para Rio de Janeiro, ingressando na Escola Nacional de Belas Artes. Durante o período que a frequentou, foi com celeridade que congregou os olhares e as atenções dos seus docentes e até da imprensa. Este período culminou cinco anos após ter entrado na escola, com 20 anos, na participação em algumas exposições de pintura. Os jornais desdobravam-se em elogios e até a medalha de ouro do salão da sua instituição académica entrou no seu currículo, embora tenha demorado a arrecadá-la. Eram tempos nos quais o modernismo influenciava todas as formas de criação artística e em Portinari não era exceção.

Estas importações para o seu estilo criativo acabariam por começar a perturbar os juízes dos concursos em que participava, estes habituados às formalidades académicas dos trabalhos que avaliavam. Com 25 anos, em 1928, o canarinho respeitou deliberadamente todas as indicações tradicionais e conquistou a tal medalha da sua universidade, para além de uma viagem europeia que seria providencial na sua carreira. Assim, foi Paris que o artista escolheu como local que receberia sangue novo e talhado para vastas reformulações. Para além do contacto com outros pintores, conheceu aí a sua companheira de vida, a uruguaia Maria Martinelli, então de somente 19 anos. A formação criativa que bebeu deste tempo tornou-se importante naquilo que seria a maturidade do seu eu artístico. No entanto, estar longe fez com que se sentisse mais perto da sua nação, tornando-se mais vinculado às raízes e às diferentes metamorfoses políticas e sociais que o país sofreu. Tendências que também se assumiam numa poesia que foi escrevendo e mantendo, embora sem a consistência da sua pintura.

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A descoberta da terra (1941)

Em 1931, e já com 28 anos, Candido Portinari regressou ao Brasil com vontade de empreender e de materializar as mudanças que havia sentido na sua personalidade criativa. Desacelerou o primado que dava às formas e aos volumes e passou a apontar para o poder da cor e da pintura no seu estado bruto e natural. Com o tempo, tornou-se menos propício a trabalhos com óleo e mais a trabalhar com afrescos e com grandes murais, potenciando a visão socialmente ativa e pungente que havia adquirido durante os seus tempos de emigrante. As suas telas tornaram-se povoadas por comunidades pobres e pelos encantos da Natureza. Em suma, um tratado de devoção e de consideração para com a sua nação, exprimindo toda a sua imponência natural mas também a sua decadência social e episódios do seu rico historial.

Esta nova toada tornou-se sensação nos periódicos do país, coloriram as paredes de grandes instituições brasileiras (p.e. o edifício do Ministério da Educação e Saúde e o conjunto arquitetónico da Pampulha, em Belo Horizonte, onde colaborou com o arquiteto Oscar Niemeyer) e chegaram até à América a norte, nomeadamente aos Estados Unidos. Lá, Portinari expôs telas na New York’s World Fair, em 1939, e vendeu telas ao diretor do Museum of Modern Art Alfred Barr, tal como o trabalho “Morro do Rio” (1933). Este chegou a organizar uma exposição específica para o brasileiro no museu, situado em Nova Iorque. Para além de outros murais que realizou para a Biblioteca do Congresso americano, deixou-se seduzir pelo poder figurativo de “Guernica”, da autoria de Picasso, sentiu o impacto da Segunda Guerra Mundial e voltou a introduzir novos pormenores imagéticos e políticos na sua expressão social através da pintura. A Universidade de Chicago chegou também a produzir uma obra literária em sua honra denominada “Portinari, His Life and Art” (1940).

Portinari, que chegou a candidatar-se a senador pelo Partido Comunista Brasileiro, viu as suas posições políticas serem castigadas pela ditadura militar vigente, emigrando para o Uruguai. Estas constituíam também um impasse para a sua fixação na América do Norte, olhado de lado pelo pólo ocidental da Guerra Fria. Em 1952, seria amnistiado e voltaria a expor em São Paulo, na sua primeira Bienal, e retornaria ao seu núcleo de amigos, fortemente marcado por autores modernistas, jornalistas e até diplomatas. Porém, a sua saúde viria a deteriorar-se e foi-lhe diagnosticada uma intoxicação pelo chumbo das tintas que usava nos seus trabalhos. Mesmo com esta adversidade, o canarinho não se deixou apoderar pelo repouso, viajando amiúde em trabalho para os Estados Unidos, pela Europa, México, Argentina e até por Israel. No pico desta itinerância, pintou os famosos painéis “Guerra e Paz” (1953-56, doados para a sede da ONU, em Nova Iorque) e foi convidado pelo município italiano de Milão para uma exposição de grandes dimensões, uma que incluiria quase duas centenas de telas. Todavia, o destino trairia as suas aspirações, sendo fatalmente vitimado pela tal intoxicação que se foi alojando de forma insidiosa. Corria o dia 6 de fevereiro de 1962.

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Guerra e Paz (1953-56)

Candido Portinari foi um dos rostos do retrato social através da arte no Brasil. Para além de conferir formas e cores à identidade canarinha, fez questão de vestir os seus trabalhos com rasgos cubistas, surrealistas, vanguardistas e modernistas sem nunca perder o propósito de chegar mais além. Transmitir uma mensagem com valor e significado sobre o estado das coisas, dos povos e das forças tornou-se o imperativo nos seus virtuosismos. A pintura nunca careceu das bases que lhe são conhecidas por génese e deu-se à luz um repertório que, sem esquecer os costumes muralistas mexicanos, quis vingar pelo pincel como método de escrita crítica, mesmo contando com o auxílio da figura. Foi de uma forma personalizada mas bem conseguida que nasceu o legado de um dos mais conceituados pintores da América do Sul, um moderno tradicional com visões pictóricas e coloridas de grande afluência nacional.

Minha Vida Vai Correndo Tanto, Que Nem Posso Acompanhá-la

“Naquele tempo, mais longe ainda, olhava o céu estrelado.
Pedia a Deus para morrer. Seria anjo: sete anos.
Tudo Corre nem tempo de ver…
Amei a primeira que passava, não vivi.
Baixarei à sepultura Solitário. Nada ficará…
Não saberei dos amigos e nem da família.

A morte será colorida? Qual a cor do outro lado?
Quando ainda a força estava em mim,
quando suava como um pedreiro sobre andaimes,
enchendo os muros do que não via e via espantalho,
espantava as angústias, a maldição e o silêncio.

Agora empoeirado e só têm-me prisioneiro.
A esperança escapuliu e a morte de propósito espia-me
rindo, deixando o tempo escorrer como um córrego sem fim…”

Candido Portinari em Paris, outubro de 1961.

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