Bruno Munari, um dos principais nomes na teoria e prática do design

28 JUNHO, 2017 -

Bruno Munari deu um importante contributo na arte, em especial naquilo que é a sua aplicabilidade e expressão multidisciplinar. Assim, envolveu-se na teoria e na prática de diversas linhas artísticas, tanto nas visuais, nas codificadas, e na sua relação com a evolução pessoal e individual. A criatividade como princípio elementar na evolução da criança, assim como toda a relação da arte com muitos outros panoramas da realidade, são visualizações feitas por este italiano, preocupado em atender e entender a sua contextualização e efetiva realização. Toda a produção artística envolve-se, desta forma, na proatividade e retroatividade que gera, tanto na educação como na criação do indivíduo e da própria sociedade.

Bruno Munari nasceu em Milão, a 24 de outubro de 1907, cidade onde só voltou no ano de 1925, para trabalhar com o seu tio, engenheiro de profissão. Até lá, cresceu e estudou na comuna italiana de Badia Polesine. Com 20 anos, interessou-se particularmente pelo movimento futurista, que se exprimia na atividade artística e cultural, e num discurso criativo muito próprio, destinado a cruzar as diversas áreas de produção e de reprodução. Todo o estudo que fez no contexto da história da arte seria crucial para a diversidade de obras criadas por Munari nas décadas que se seguiriam, distando de todo o fluxo de criação artística previamente existente, mas sem desprimorar a sua relevância. A sua perspetiva do design tornar-se-ia intemporal, com a sua abordagem atemporal desta área, para além da sua abrangência prática e sistémica.

Tendo como principal referência Filippo Tommaso Marinetti, começou a elencar o seu trabalho em exposições locais, essencialmente no decurso da sua atividade de designer gráfico. Foi nessas funções que se associou a Riccardo Castagnedi, com quem trabalhou durante quase uma década, e envolveu-se na segunda fase do futurismo artístico. O legado que, deste período, deixou aos tempos de hoje é visível e tangivelmente curto, visto que grande parte das suas obras provinha do uso de materiais transitórios. No entanto, perdura, até aos dias de hoje, os seus conceitos e posições quanto à criação e conceptualização artística. Sentiu-se aliciado pelo construtivismo russo, que o convidava a retribuir um valor importante e contextualizado de qualquer operação artística, evidenciando-se pela sua emanação da criação humana. Assim, a geometria conhecia uma revalorização de significados, buscando uma objetividade singular e identitária, devolvendo o preceito da “arte útil”. “Macchine Inutili ” (1933) exemplifica-o da melhor forma, sendo uma obra que, formada a partir de papelão pintado e de demais materiais leves, consegue atingir o objetivo de libertar o abstrato na sua tridimensionalidade. A integração com o meio-ambiente acaba plasmada na ação cinética que suscita, conquistando a objetividade ensejada na obra.

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Um modelo de uma “Machine Inutili”

Assumindo uma personalidade futurista, não se coibiu de a fundir com o surrealismo, com o qual conviveu numa viagem em Paris, no ano de 1933. Aí, encontrou-se com o seu fundador, André Breton, e com o poeta Louis Aragon. Nos anos 40, passou a dirigir a secção artística da revista “Tempo”, para além de trabalhar como designer gráfico na editora Mondadori. Foi, também, neste período que se sentiu seduzido a redigir contos infantis, inspirando-se no nascimento e crescimento do seu filho Alberto. Após o período conturbado da Segunda Guerra Mundial, Munari, ao lado dos seus colegas Atanasio Soldati, Gianni Monnet, e Gillo Dorfles, fundou o movimento “Arte Concreta”. A necessidade de reforçar o valor da arte não-figurativa, que não descarta o abstracionismo – sentem-se influências do russo Wassily Kandinsky – envolvido no ambiente onde é pensada e criada, isenta de quaisquer tipos de imitação. Esta é uma fase em que trabalha com as próprias indústrias, desenhando, pelo meio, um despertador cuja rotação é composta por semi-discos, ao invés de mãos, que acabou por ser replicado alguns anos depois. Para além disso, integra várias revistas propagandistas, para as quais elabora colagens, e desenvolve outro tipo de trabalhos geométricos de cariz abstrato, em especial no campo da escultura.

Pouco antes dos anos 40 findarem, e depois de se demarcar do futurismo pela sua proximidade ao regime fascista, o italiano debruçou-se com a teoria da Gestalt aplicada à arte, esta que o atraía a envolver em experimentações onde o todo se fazia valer à visão fragmentada e partida da construção artística. A ontologia da criação tornava-se, assim, sustentada numa ideia de totalidade, implicando um envolvimento psicológico (individual) e cultural (plural). A perceção ótica e simbolista ganha um especial destaque, tendo Munari explorado as dialéticas figura-fundo e escuridão-luz. Esta exploração teórico-prática não o impede de procurar inovar na formulação e constituição de objetos, tentando, a partir da própria forma, induzir métodos de aprendizagem e de abordagem em relação ao objeto em si. Em 1950, o europeu explora a projeção de luz a partir de plástico colorido, visando a criação de composições coloridas de luzes polarizadas, apoiadas em lentes especiais. Este jogo que foi articulando desde então culminou num trabalho cinematográfico, de seu título “Colori Della Luce” (1963), ao som de música eletrónica.

O crescente aparecimento e proliferação dos meios de comunicação visual tornou-se proeminente na perspetiva de Munari, que via a estética com um papel cada vez mais atraente e atrativo na construção de objetos que valeriam por esse prisma. Sentindo o receio de se tornar mal interpretado na diversidade de áreas (desde o design ao pendor didático) da sua atividade, o italiano passou a contar com o historiador de arte Miroslava Hajek para coordenar e selecionar os seus melhores trabalhos, sendo organizados cronologicamente, e, assim, traduzindo a sua evolução diacrónica, tanto na criação como no pensamento artístico.

Toda a criatividade do seu trabalho traduzia-se em conceitos e métodos, sujeitando-se a uma metodologia de projeto – também conhecida por método projetual. Este sustenta-se numa cadeia lógica de operações (comparado e exemplificado com a confeção de arroz verde), providos pela experiência, e em valores objetivos, que são instrumentos de trabalho para o criativo, podendo, por exemplo, dizer respeito às caraterísticas da cor e da geometria. As operações passam por reconhecer e definir o problema, e, na produção da ideia-resposta, compreender os seus componentes. A partir de então, o processo aponta para reunir e analisar dados de resposta, dar uso à criatividade, e coligar os diferentes materiais e tecnologias, experimentando e construindo o modelo. Daí, surge a necessidade de o verificar, e de efetuar os devidos desenhos de construção, de forma a que se formalize e se autentique a presença de uma solução. É neste prisma que se pode percecionar um projetista profissional, distanciando-se da aura romantizada e informal de um projeto espontâneo, que não se preocupa com a sua realização num plano de trabalho de design.

Perto dos anos 80, o italiano dedica-se à idealização do “pré-livro”, que é apresentado na obra “Da Cosa Nasce Cosa” (1981), seguindo o percurso lúdico e didático da sua realização artística, e mesclando o conteúdo com a sua apresentação e modelação. Assim, este conceito visa incentivar as crianças a desfrutar de um livro de forma sensorial e experimental, para além daquilo que é o mero objeto. Na tentativa de estudar e mitigar as más experiências de algumas com os livros, tenta expugnar os preconceitos associados à edição de um livro (entre estes, a encadernação, o formato, e a própria imagética) para renovar e redimensionar o próprio pensamento sobre o livro. Com o objetivo de aumentar a disposição e a receção do conhecimento, para além de intervir na formação de mentalidades mais munidas e instruídas, Munari aponta para essa dimensão sensorial, capaz de remodelar a perceção sobre um determinando conceito, induzido e materializado no objeto, sem descurar a importância de qualquer um dos cinco sentidos.

Assim, criou livros sem textos (os livros ilegíveis, que existem no próprio Museum of Modern Art), cingindo-se à exploração formal e física do livro, a partir da textura, da espessura, dos materiais constituintes (desde papel a madeira e tecido), e da própria disposição dos elementos figurativos e codificados no interior do livro. Numa etapa mais avançada, foi construindo histórias incompletas, para acicatar o leitor no efeito de dar uso e azo à sua criatividade, empreendendo a descoberta de termos novos, de abordagens disruptivas, e de experimentações funcionais. Em 1992, criou a série “Block Notes”, onde acresceu mais uma série de funcionalidades aos livros, de forma a alimentar esse jogo com a realização artística. Desta feita, e através de uma capa cinzenta e de um formato de bolso, colocou um buraco em todos os volumes dessa série, alimentando a presença do leitor na viagem e deambulação pelas diferentes narrativas. Foi na editora Corraini que se sentiu predisposto a realizar todo o tipo destas projeções, que incluiu as histórias “La Rana Romilda”, ou “Il Prestigiatore Giallo”, publicadas em 1997, um ano antes de partir, tendo falecido no dia 30 de setembro de 1998, em Milão. Esta editora foi responsável por uma vasta gama de iniciativas de homenagem e de reconhecimento do seu trabalho, catalogando e investindo na predominância do seu contributo ao meio artístico.

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Exemplo de um “Libro Illeggibile”

Bruno Munari entregou-se à plenitude multidimensional da criação e expressão artística, tornando-se íntimo com a vanguarda modernista e futurista, para além da própria arte concreta e conceptual. Todo o seu trabalho nunca prescindiu da aplicabilidade prática, vocacionando-a para a própria vertente educacional e investigativa, para além da sua faceta industrial e utilitária. O mesmo foi reconhecido a partir de várias honras académicas e expositivas, com o seu nome a fazer parte de várias coleções internacionais, e de diferentes abordagens investigativas. No eixo de todo o seu pensamento, a imagem e o sentimento de uma arte funcional e prática, que, envolta no encanto da geometria e do abstrato, não deixa de estar esclarecida e concreta na sua finalidade. O design ganhou um nome e ideias proeminentes para futuras manifestações irreverentes.

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