Brincar não deve ser descartado só porque se cresce

30 MAIO, 2017 -

Celebrou-se no domingo o Dia Mundial do Brincar. Parece ridículo ter de arranjar um dia para celebrar uma coisa que deveria ser uma presença constante na nossa mente, nos nossos atos e nas nossas pessoas. Infelizmente, brincar está cada vez mais ausente da vida das crianças… e dos adultos. Mas é um direito consagrado no art.º 31.º da Convenção sobre os Direitos da Criança, da ONU.

Um dia, no decurso de uma consulta, uma mãe olhou enlevada para o seu bebé de quatro meses, que estava deitado na marquesa, e exclamou: “Estou desejosa de que chegue a altura de ele começar a brincar!” Em conversa com ela e com o marido cheguei à conclusão de que estavam plenamente convencidos de que a sua criança só viria a brincar mais tarde, seguramente muito mais tarde. Mas… quem disse que os bebés não brincam?

O equívoco resulta de analisarmos a criança e as suas atividades, como o jogo e o brincar, de um ponto de vista de adultos – vemos isso nos brinquedos que se fabricam e aos quais as crianças não ligam, por serem tão elaborados e sofisticados… bom para adultos, mas sem estimular a criatividade e a imaginação que as crianças querem desenvolver. Pensamos que um bebé não brinca porque, se calhar, não brinca diretamente connosco, como o faz uma criança crescida. Mais: mesmo sabendo que os bebés brincam, por vezes não sabemos é interpretar os seus sinais e consideramos que não querem nada connosco só porque não falam a mesma linguagem e ensaiam outros caminhos para a comunicação… ou outras visões do que é brincar e jogar. Triste sina a nossa, de adultos, se nos alhearmos das coisas mais encantadoras e ficarmos sérios e “engravatados” toda a vida, só porque não compreendemos os sinais do mundo que nos rodeia ou por pudor de brincar…

Brincar acompanha o ser humano desde a conceção. O bebé brinca na barriga da mãe, mesmo que os pontapés que a grávida sente correspondam a um bom jogo de futebol, mas sabemos, por registos ecográficos e outros estudos, que o bebé se entretém, utilizando para isso o próprio corpo, e que se agita ritmicamente segundo os estímulos que recebe, divertindo-se.

Não será a amamentação um jogo? Logo que nasce, o bebé revela bem as suas capacidades de brincar: olha a mãe com ternura, brinca com o mamilo, fixa o olhar, em breve desafiará os pais para a interação – que outra coisa é senão brincadeira? Quantas vezes a criança não joga depois, com os adultos e com as outras crianças, verdadeiros jogos de sedução, diplomacia e até de manipulação, tentando inclusivamente subverter as regras do jogo a seu bel-prazer? A partir dos seis meses, isso é quase um default do seu comportamento.

Rapidamente passará para a descoberta do corpo (do seu, do dos pais), dos outros e do mundo e, a pouco e pouco, vai brincando com as mãos, com os objetos, com parceiros, numa cada vez maior e melhor interatividade, e com a necessidade também crescente de jogos de situação cooperativa – quantas vezes não damos a suficiente atenção, em termos de tempo e de ocasião, e falhamos a resposta adequada a estas solicitações?

As brincadeiras, reais ou fantasiosas, permitem à criança, desde muito cedo, sublimar algumas frustrações e aprender a gerir o stresse e a contrariedade. Praticamente todas as crianças brincam às escolas, com os bonecos… ou aos pais e mães… e geralmente comportam-se com os bonecos com uma atitude muito ditatorial, “mandando”, “pondo e dispondo”, enfim, fazendo com os seus “alunos” aquilo que não podem fazer com os pais ou com as outras pessoas. Quantas vezes, também, a criança arquiteta situações em que pretende, afinal, exprimir as suas angústias, revelar o que lhe vai na alma e dar sinal aos adultos (assim os haja por perto com disponibilidade e interesse, e capacidade de observar e interpretar devidamente) dos problemas que a atormentam?

Ao contrário do que se pode pensar, brincar não é uma atividade feita de gestos gratuitos e sem nexo; pelo contrário, é uma das mais elaboradas, para além de indispensável, pois desenvolve a criatividade, o imaginário e a imaginação, a alternância e o sentido figurativo, representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários. Brincar, depois estruturado em jogo, quando o “outro” surge como parceiro, ajuda a empreender estratégias, raciocinar, saber perder e saber ganhar, partilhar, interagir… e divertir. Sendo um excelente fator protetor brincar sozinho, também é igualmente importante saber brincar com os outros.

Jogar e brincar fazem parte da vida e não deverão ser descartados só porque se cresce. Seria como se deixássemos de respirar quando fazemos 18 anos. Muitos adultos têm vergonha de revelar publicamente a sua faceta infantil. Talvez porque se exige “produtividade” e isso seja, para a maioria, sinónimo de seriedade, confundida com rigor, trabalho e verdade. Temos de pôr esses conceitos no seu devido lugar, ou seja, no lixo. Brincar é normal, desejável, pedagógico e terapêutico, além de ser uma atividade com ganhos biológicos, psicológicos e sociais. Não há nada mais instintivo do que brincar: vejam — se os animais domésticos, por exemplo. O ser humano brinca desde sempre e com tudo o que tem à mão. Provavelmente, além de nos chamarmos Homo sapiens, também nos deveríamos chamar Homo ludens. Sem brincar cristalizamos e acabaremos por morrer mais cedo, quanto mais não seja de tédio…

P.S. Outras “brincadeiras” são parvoíces e não brincadeiras, porque ofendem, humilham, desperdiçam ou desrespeitam. Na rua onde moro há canteiros com agapantos que estão a iniciar a floração, com as coroas brancas e azuis. No sábado, pela meia-noite, quando estava a passear a Tenrinha, um grupo de jovens “animados” vinha descendo a rua, aos gritos, e “atacando-se” com as cabeças das flores, que arrancavam das plantas. Não intervim porque tive sincero receio de que me agredissem, a mim ou ao meu cão. Contei ontem os estragos: 168 flores destruídas… raios os partam!

Crónica escrita pelo pediatra Mário Cordeiro, publicada no nosso parceiro Jornal i

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