Brian Muir: “Ninguém esperava muito do ‘Star Wars’, estávamos todos um pouco pessimistas”

27 JUNHO, 2017 -

O homem que moldou a máscara de um dos mais icónicos vilões da história do cinema esteve em Portugal para o FEST, que terminou ontem, em Espinho.

Pelo nome, poucos chegarão lá, mas a história deste homem no cinema é longa e dela fazem parte personagens como Indiana Jones, Angelina Jolie como Lara Croft, James Bond ou Harry Potter. Ou títulos como “Alien – O 8º Passageiro”, de Steven Spielberg”, “O Planeta dos Macacos”, de Tim Burton, ou “Branca de Neve e o Caçador”, de Rupert Sanders. E se Brian Muir já tivera uma curta vida como escultor para cinema antes disso, pode dizer-se que tudo começou com um telefonema que recebeu aos 23 anos, com um pedido de umas esculturas para um filme, contou-nos em conversa durante o FEST – Novo Cinema Novos Realizadores, que termina hoje em Espinho e para o qual foi um dos convidados. Trabalho que aceitou às cegas, sem grande esperança, para só mais tarde perceber que seria esse um dos mais icónicos franchises do cinema: “Star Wars”. E que aquela máscara de vilão que fez já durante a rodagem a partir de um desenho quase esboço de Ralph McQuarrie seria, afinal, a de um dos maiores vilões do tempo moderno: Darth Vader.

Como lida com o facto de reconhecerem o seu trabalho apenas pela saga “Star Wars” quando fez tantas dezenas de filmes depois desse, que foi, afinal, um dos seus primeiros projetos?

Comecei oito anos antes do “Star Wars”, que veio em 1976, no início desse ano. Entrei para um curso nos Elstree Studios em 1968, onde trabalhei em filmes durante quatro anos, até aos 20, depois estive quatro anos sem trabalhar para cinema, até que aos 23 recebi um telefonema da Elstree, que estava a precisar de umas esculturas estranhas para um filme. Queriam saber se estava interessado em voltar.

Nesse ponto sabia muito pouco sobre o que seria este projeto. O que o fez aceitar o convite?

Entusiasmou-me a ideia de voltar à indústria do cinema. Estava um pouco nervoso em relação àquilo que pretendiam ao certo de mim nesse filme, mas acho que um pouco de nervosismo é sempre bom, porque ajuda-nos a concentrar-nos e a fazermos melhor o nosso trabalho. Comecei pelos Stormtroopers, foi o primeiro trabalho que fiz. Como eram 50 personagens, deram-me um molde em gesso [da armadura] porque tinha de servir para os vários tamanhos, os ajustes eram feitos nas ligações, que podiam ser mais apertadas ou mais largas. O tamanho das peças não muda, é sempre o mesmo.

Quando conheceu pessoalmente o Ralph McQuarrie e o George Lucas?

Nunca conheci o Ralph McQuarrie, conheci o George Lucas quando estava a fazer as esculturas para o filme. Felizmente, ele gostou do meu trabalho mas, a partir de certa altura, as personagens tinham de estar prontas com tanta urgência que não havia propriamente tempo para discussões sobre o conceito ou o que quer que fosse. Portanto, tudo o que fiz foi sem grande espaço para experimentação.

O trabalho para “Star Wars” foi feito em quanto tempo?

Comecei em janeiro e terminei a meio de maio. Trabalhei 76 dias seguidos sem uma folga. A rodagem na Tunísia começou em março e precisavam dos Stormtroopers para aí. As primeiras armaduras foram enviadas para lá enquanto eu continuava nos estúdios a trabalhar já na máscara do Darth Vader, que entrou nas filmagens em abril, creio.

Por essa altura era impossível prever aquilo em que essa máscara em que estava a trabalhar se transformaria, tal como o “Star Wars” e todo o universo que estavam a criar para o filme.

De todo. Nenhum de nós sabia. Era um filme de baixo orçamento, ninguém esperava muito daquilo, estávamos todos um pouco pessimistas. A verdade é que um ano depois, quando fomos ao primeiro visionamento para a equipa, em Londres, e logo no início apareceu aquela grande nave espacial…

E aí perceberam.

E vimos o resto do filme e, no final, aquela mesma equipa pessimista que achava que este não seria um bom filme levantou-se num grande aplauso, como nunca tinha visto nem voltei a ver depois disso. Aí percebemos que seria um grande filme, que era um grande filme, aliás, e o dinheiro que tinha sido investido foi recuperado muito rapidamente.

Estavam tão pessimistas porquê?

Bom, era um filme de baixo orçamento, os filmes de ficção científica que tinham sido feitos até aí não eram bons. Tínhamos medo que os cenários parecessem falsos, que não fosse bem feito.

Então porque aceitou trabalhar no filme?

Aceitei porque era uma oportunidade de voltar à indústria do cinema ao fim de uma ausência de quatro anos. E, basicamente, porque estava a casar-me e pagavam-me melhor do que aquilo que estava a ganhar e porque tinha a esperança de que ajudasse a que me chamassem para outros filmes. Pouco depois do “Star Wars” estar pronto já estava a trabalhar no meu primeiro filme do [James] Bond [“007 — The Spy Who Loved Me”, de Lewis Gilbert], e depois fui passando de uns filmes para os outros.

Sim, logo a seguir veio “Alien – O 8.o Passageiro” [1979], e não muito depois “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida” [1981]. Acha que isto se deveu ao sucesso de “Star Wars”?

Foi a altura em que os grandes blockbusters começaram a chegar a Inglaterra e, de repente, havia muito trabalho. E como acontece com qualquer outro artista ou ator, parece sempre que a seguir a um filme não vai haver trabalho, mas ele vai sempre aparecendo.

Qual é o seu processo de trabalho para um filme? Sente necessidade de conhecer bem o argumento antes de começar a trabalhar nas esculturas? Como foi no caso do “Star Wars”, por exemplo?

Disseram-me que o Vader devia ter um ar sinistro e ameaçador, e foi isso. Não preciso de ler os argumentos.

Isso é suficiente?

Sim. Mesmo o desenho era um pequeno desenho muito simples e mostrava apenas um ângulo. Tive de pensar a máscara de forma a que resultasse a 360 graus.

Não conversou sequer com o ator que ia fazer o personagem?

Com o David Prowse? Não, mas entretanto já conheci os atores praticamente todos.

Mas é sempre assim em todos os filmes ou depende também do filme e do designer de produção?

Depende do designer de produção e daquilo que ele pretende. Às vezes dão-nos apenas um esboço e temos de fazer tudo a partir daí, quando ainda não estão certos do que querem e é preciso experimentar para perceber o que resulta. Se forem filmes de época, do Antigo Egito, por exemplo, dão-nos uma imagem do que querem replicar.

Como foi a experiência de trabalhar em “A Bela e o Monstro”, de Christophe Gans, com Léa Seydoux e Vincent Cassel, um dos filmes mais recentes em que podemos encontrar esculturas suas?

Viu o filme? Foi talvez o filme para o qual alguma vez fiz mais esculturas. Eram 30. Em “O Planeta dos Macacos” [2011] tivemos uma semana para montar em Paris um cenário que demoraria nove meses a montar na América. Aí trabalhámos literalmente todas as horas, eu com uma equipa de 20 escultores, para que fosse possível.

Trabalhar em cinema foi sempre o seu objetivo como escultor ou simplesmente aconteceu?

Quando acabei o curso de Escultura, aos 16 anos, surgiu essa oportunidade. Tive a sorte de estar no sítio certo à hora certa. Se não fosse isso, provavelmente nunca teria sido escultor.

E qual é a sua relação com o universo “Star Wars”?

Gosto dos três primeiros, não tanto das prequelas. Trabalhei também no “Star Wars: O Despertar da Força” [2015] e no “Rogue One” [2016] e gosto muito do “Rogue One”, que foi o último.

Qual é o seu tipo de filme?

Gosto muito do “Voando Sobre Um Ninho de Cucos” e, dos filmes em que trabalhei, gostei muito do “Indiana Jones” – de trabalhar no projeto e do filme, acho que foi dos meus favoritos. Gostei muito do “Guardiões da Galáxia” [de James Gunn, 2014], no qual também trabalhei. Foi outro daqueles filmes em que estava a trabalhar e a pensar “mas o que é que estou a fazer?”, mas que depois funcionou muito bem. Foi muito engraçado. Mas há tantos filmes.

Quando está a fazer o seu trabalho é difícil perceber qual vai ser o resultado no filme, mesmo ao fim destes anos todos?

Muitas vezes. Fazemos o nosso trabalho e não pensamos mais nele até vermos o filme, porque entretanto já estamos com outro projeto e estamos focados nisso.

E o que aconteceu à máscara original do Darth Vader?

Segundo me contaram, em “O Império Contra-Ataca” [1980] havia um grande contentor fechado a cadeado e uma das primeiras coisas que encontraram quando o abriram foi o Darth Vader.

Entrevista de Cláudia Sobral, publicada no nosso parceiro jornal SOL

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