Festival Bons Sons: um lugar ao Sol na aldeia de Cem Soldos

17 AGOSTO, 2017 -

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Quando fui a primeira vez ao Bons Sons, no saudoso ano de 2010, não existia nenhuma placa que referisse a aldeia de Cem Soldos e ninguém a quem tenha perguntado sobre onde era o festival tinha conhecimento da existência do mesmo. Agora sim, toda a gente conhece, toda a gente sabe onde é. O Festival Bons Sons pôs a Aldeia de Cem Soldos no mapa, e, todos os anos, põe cerca de 25 a 35 mil pessoas na aldeia durante quatro dias. Ou cinco, para os campistas que vão no dia antes. Foi o meu caso.

Pus a pulseira preta, dirigi-me para o campismo, tive dificuldade em assentar arraiais, mas assentei num sitio agradável, há que ter persistência. Neste aspeto, temos de dizer que o campismo está pouco preparado, precisa de mais espaço e luz. Vive-se bem assim, mas podia ser melhor. De resto tudo vai bem neste lugar improvisado ainda metido no meio da aldeia e cheio de árvores autóctones: chuveiros q.b.; zona para lavar a louça; zona de refeições (este ano com algumas mesas em madeira para mais confortavelmente viver em modo piquenique); extintores; casas de banho – as normais portáteis, e as “eco”, um tema que muito interessa à organização do festival.

Depois de jantar, a afluência de campistas à aldeia é notória. Podemos assistir aos últimos preparos, acompanhados pelo som de uma rebarbadora que alguém diz ser, em tom de piada, “o check sound dos Mão Morta”. O café da Tonita está a faturar, mas hoje tem de fechar cedo, amanhã começa o festival a sério, e, além disso, é preciso distribuir o pão logo pela manhã.

No dia seguinte, o calor. O Bons Sons também é isto, um calor do interior-centro de Portugal, daquele seco que cheira mesmo a quente. Muita gente ainda está a chegar, e já pegámos no borrifador (merchandising Bons Sons), para nos refrescarmos a nós e aos vizinhos.

Subimos até ao centro da aldeia, onde é o recinto fechado, e já se respira festival, os SCOCS (Sport Clube Operário de Cem Soldos) estão cheios de gente, que está cheia de sede e vontade de jogar ping-pong; mas atenção, aqui não se bebe em copos descartáveis – o Festival é eco e a aldeia é um espaço comum e precioso para todos. Bebe-se nas canecas de plástico ou metal, à escolha do freguês. Paga-se uma caução, e, no final, pode-se devolver a caneca, e receber a caução. É desta forma que, todos os dias, a toda a hora, a aldeia se mantém bonita e boa para as crianças e para todos, para sentar ou deitar na relva (sintética). São muitos os que deixam os concertos rolar e aproveitam o tempo deitados em frente ao Palco Lopes-Graça ainda sem artistas.

A tarde vai-se alongando e naquela hora boa em que o sol está a namorar a igreja de Cem Soldos, começam, mesmo em frente a ela, no palco Tarde ao Sol, o Manuel Fúria e os Náufragos, que nos mandaram dançar mais que uma vez com os seus refrões que ficam no ouvido “Cala-te e dança” e “Tu disseste que dançavas”. Um concerto alegre e bem disposto que deu o mote para o concerto seguinte, porque aqui umas músicas não se sobrepõem a outras, cada artista tem, à vez, o seu tempo.

Surma, uma personagem simpática com os seus sons flutuantes mesmo adequados ao final de tarde naquele palco pitoresco em forma de coreto – o palco Giacometti –, teve até direito a moche. Em anos anteriores, assistia-se aos concertos sentado no chão em frente a este palco, mas, como são cada vez mais os que querem conhecer melhor a música portuguesa a que o festival é dedicado, lá tivemos de nos levantar, para sermos mais… e é tão bom sermos mais e com o mesmo espírito de sempre. No Bons Sons, o espírito de respeito e segurança é tão belo e interior que nem aquela parreira cheia de uvas de mesa à moda de comer, mesmo à frente dos SCOCS, foi assaltada… pelo menos, em grande escala.

Os concertos que começaram logo pelas 14h, continuam, com Holy Nothing e Glokenwise, mas também é preciso jantar e que lugar melhor que um pátio de uma casa com um poço no meio e uma canjinha “da mãe”?

Já compostinhos, vamos por o olho ao Sporting, que está em grande força no café da Tonita, onde também os Capitão Fausto (ou parte deles) assistem ao jogo, encostados ao balcão. Peço um fino, e o senhor João pede-me que espere um pouco “agora não” – é o penálti, eu compreendo, não são horas de pedir bebidas.

Virgem Suta vai começar e o palco Lopes-Graça já está cheio, mas felizmente não é tão grande que não dê para passar e ver, mesmo para quem é pequeno, como eu. O público do Bons Sons acolhe-os e canta com eles as músicas quase todas. A festa está animada, e até há vinho para “brindar a nós”. Estamos felizes por estar numa aldeia bonita e pacata, cheia das pessoas que lá moram, a ouvir Virgem Suta – encaixa que nem uma luva. Para finalizar, Jorge Benvinda apela à “invasão” do palco e o público adere em massa e dança a “tomar conta da casa” que é nossa, o Bons Sons.

Com o espírito de festa segue-se para Capitão Fausto, no Palco Eira, o maior e mais frio, onde encontramos uma velhinha muito pequenina da aldeia que dá vontade de abraçar e vem assistir ao concerto. Os Capitão Fausto foram aquilo que são em palco, uma banda boa, com músicas boas e uma certa distância do público. Domingos Coimbra ainda fez algumas pontes, Tomás Wallenstein esboçou um ou outro sorriso, e até fizeram uma dancinha sincronizada, mas o talento para a música continua a ser maior do que para o público. Que continuem a fazer música boa, nós cá estamos para a ouvir e cantar com eles.

É final de noite e para dormir bem falta apenas o pão com chouriço quentinho. O longo dia já não permite ficar para os DJs, mas, na volta para o campismo, cruzamo-nos com muita gente mais nova para quem a noite começa agora. É um festival para todos os gostos.

No dia 12, sábado, a aldeia de Cem Soldos começa a mexer logo pela manhã com várias oficinas para crianças, este ano focadas nas boas práticas ambientais. Falando no tema, é possível deixar as crianças de forma segura no “Espaço Criança” durante o dia, tal como é possível deixá-las andar no recinto quase livremente sem que nada de mal lhes aconteça. No Bons Sons, estamos habituados a crianças a correr e a brincar por todo o lado, elas nunca atrapalham, são parte do bom ambiente que se vive na aldeia, todos cuidamos delas. As crianças, como os mais velhos, também fazem parte da(s) aldeia(s).

Ainda para as crianças, pequenas e grandes, há os jogos de madeira espalhados à volta do Palco Lopes-Graça, onde se apanha sombra à hora da sesta, são os Jogos do Hélder, adequados a quase todas as idades, uma novidade que diverte e funciona como ponto de convívio.

Vão começar as Señoritas e ainda que muito depressivas e estranhas para um final de tarde tão bonito, o público adere até encher o palco Giacometti que parece um lugar feliz, apesar do fumo espesso que se faz sentir por causa dos incêndios às portas de Tomar.

Se o Bons Sons fosse apenas as bandas, o dia de Sábado tinha-se revelado, para os meus gostos, um pouco abaixo dos outros, mas o festival é muito mais que isso, é uma experiência de viver a aldeia de uma forma diferente, envolvente, onde todos pertencemos aquele lugar. Pudemos jogar ao pisa-pés, jantar debaixo de uma figueira, dar festas a cachorros, conversar, jogar xadrez, beber num autêntico barzinho de arraial no palco Eira ao som dos Mão Morta, a ver Luxúria Canibal a dançar de forma ingénua, com as mãos soltas, e conhecer Né Ladeiras, essa senhora enérgica que apela a que acabem com o preconceito de ela ter cabelo branco, 58 anos e ser mulher, e a chamem para mais festivais. Ela está feliz com o público que tem à frente e tem motivos para isso. Este público é do bom, puxa por todos os artistas, respeita e quer saber, conhecer mais. Este público não arreda pé enquanto o artista não arredar.

O Domingo foi dia de concerto instantâneo de Samuel Úria, à janela da casa de alguém, que acaba por servir de backstage. As casas delimitam e aconchegam o festival, como os aldeões. Outros concertos se fazem de forma “ilegal” à porta do café ou no palco Garagem, que recebe bandas dos festivaleiros que se inscreverem no dia antes.

Infelizmente, não pudemos assistir aos Moços da Vila dentro da igreja, onde está o palco MPGDP (Música Portuguesa a Gostar dela Própria), mas chegámos a tempo de, no palco Tarde ao Sol, vermos os Sampladélicos, de Tiago Pereira com uma “performance audiovisual a partir das gravações de práticas musicais ou ambientes sonoros de um determinado local”. Muito dançáveis e descontraídas, estas “Tardes ao Sol” fazem-nos sentir tranquilidade e segurança.  Tudo é paz nesta relva deitada do Bons Sons, e há tempo para o tempo passar, devagar, com a ajuda daquela menina do vestido às flores que anda por ali a dançar e a conhecer outras crianças e dos senhores mais velhos sentados nos bancos naquele “domingo de festa”.

Mais perto da noite, já se sente o burburinho para ir ver Samuel Úria. É um concerto muito esperado, e quem conhece o Samuel, sabe que é difícil que ele falhe, e é assim que acontece. Com o seu estilo único, jogo de ancas ousado, voz impecável e um coro a acompanhar, Samuel brilha, e o público pede mais. Ele vai dando o que se pede, sem pressas, largando sorrisos e palavras que nos enchem. Para Samuel Úria, o palco Eira encheu-se de gente de todas as idades e ele fez por merecer o público que lhe chegou, sabedor das suas músicas e entusiasta.

Logo a seguir vem, como disse Samuel, “o maior”, José Cid, com os seus 10 000 anos entre Vénus e Marte, dá um concerto obviamente intergaláctico, e faz-nos embarcar na viagem dele. A certa altura a banda cala-se toda e o público canta a solo, sem vacilar e a plenos pulmões:

“Podes ver
Dez mil anos depois
No ecrã do radar
Entre Vénus e Marte
Um planeta vazio
À espera que o descubram
Onde recomeçar
Outra civilização”

Se houve momentos mágicos no Bons Sons 2017, este foi, sem margem para dúvidas, um dos maiores, mas o que veio a seguir também não desiludiu nada, nem podia. Orelha Negra é sempre Orelha Negra, é impossível ficar quieto perante um concerto destes 5 magníficos, com um excelente desenho de luz a condizer.

Foi um dia em cheio e mais uma vez perdemos os DJs, mas fomos dormir de “barriga cheia”… de música, está claro.

Por fim, chegava o dia derradeiro. O dia acordou mais fresco, e os borrifadores puderam descansar, finalmente, um pouco. À tarde, enquanto decorriam concertos, muitos saltavam à corda em frente ao Lopes-Graça, é um clássico do Bons Sons. O “campeonato” estendeu-se pela tarde adiante, enquanto em volta a paz continuava, tranquila a deixar as pessoas amistosas, conversadoras.

Foi neste espírito que fomos visitar o auditório onde se vendiam livros de teatro, e as barraquinhas de artesanato, livros, CDs, etc. Mais tarde, assistimos brevemente a Valter Lobo, que se enquadrava bem naquele palco em forma de coreto de cores tão bonitas, e seguimos para a Adega de São Pedro com as suas salinhas para grupos, bem como, em outras tascas improvisadas pelas pessoas da aldeia, que aproveitam para ganhar algo mais com o Festival. Caldo verde e caracóis, enquanto se conhecia gente como se aquilo fosse o tasco do Manel na nossa aldeia, foi o jantar ideal.

Logo a seguir, houve Frankie Chavez, já de noite, no palco Lopes-Graça, contagiante do público com o seu ritmo bem marcado, abrindo espaço para os Poppers no palco Eira, que não tiveram o mesmo sucesso que outros naquele palco, mas que, ainda assim, contaram com muito público.

Rodrigo Leão apareceu pelas 23 horas, e embalou-nos nas suas músicas de banda sonora, para fechar assim o palco Lopes-Graça com harmonia e aquele tom nostálgico de fim de festival.  Ao lado, no palco Eira, ainda houve Octa Push, com direito a ter a dona Maria José (uma Cem Soldense) em palco a dançar, e a desafiá-los. Quem viu, disse que foi bonito; quem não viu, foi com certeza para fugir do frio que se fazia sentir.

No ar, a nostalgia, mas também o cansaço dos locais se fazia sentir, e assim, na mercearia da Mónica, saíam os últimos folhados de chocolate, que me finalizaram o Bons Sons como ele é, quente, familiar, saboroso, tranquilo, na dose certa.

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