‘Blade Runner 2049’, amor e precisão matemática

5 OUTUBRO, 2017 -

Por contraste com outras recriações cinematográficas, o tempo é um aliado de “Blade Runner 2049”. Denis Vileneuve explora as fantasias e preocupações de Philip K. Dick com a parahumanidade e emprega-as num tempo em que o futuro está cada vez mais próximo. 2022, o ano do fim anunciado do mundo como o conhecemos e o início de um outro em que homem e máquina têm a mesma pulsação binária

Há um tempo antes e depois de Cristo (a.C./d.C.). O ano zero da espécie como a conhecemos, o princípio do verbo e o nascimento do fogo. E há um tempo antes e depois do apagão. 2022, ano em que os notícias sobre o fim da humanidade deixam de ser manifestamente exageradas.

Nos 35 anos de separação entre o “Blade Runner” original e a versão 2049, os registos eletrónicos foram apagados. Não há discos externos para revenda ou reparação, nem pens USB que acudam à memória. Só um futuro em que a ficção de hoje é o real de amanhã. Os artistas mortos podem ser hologramas, a prostituição desapareceu das ruas e foi substituída por sexo virtual. O carro voador, a maior fantasia da ficção científica na segunda metade do séc. XX, já rasga a atmosfera e o homem tem de se entender com a máquina.

Imagine-se um mundo em que todas as ameaças tecnológicas que deixam a espécie aterrorizada com o controlo exercido pela máquina é o ar que se respira todos os dias. É nesse hemisfério paranormal em que o futuro se aproxima como um planeta desconhecido em choque com terra que Denis Vileneuve imaginou as fantasias e preocupações de Philip K. Dick.

Entre os dois filmes, a Tyrell Corporation foi encerrada pelo governo por fazer replicantes perigosos para a humanidade. Niander Wallace (Jared Leto) reativa a produção e toma o lugar de Deus da manipulação na terra em que o amor se faz entre 0 e 1. O agente K (Joe, para os mais chegados, interpretado por Ryan Gosling) é o esfolador de profissão, encarregue de eliminar todos os replicantes imperfeitos que sobreviveram ao apagão. A missão escorre o sangue necessário num híbrido de filme de ficção científica com acção hollywoodesca até o agente descobrir uma criança concebida entre um humano e um replicante.

A descoberta é uma ameaça para a sociedade pós-humana das células manipuladas e do trânsito aéreo. Uma guerra paira no ar se a sociedade prevista por “Blade Runner” souber que a gestação biológica e científica são compatíveis. E é a partir dessa questão existencial entre alma e linguagem binária que a trama científica se desenvolve num plano filosófico omnipresente. K parte então em busca de Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido desde a saga original. Só ele sabe o segredo da origem miraculosa deste ser ambíguo.

A cidade do futuro é um sonho acordado desenhado por Dennis Gasner. Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer caracterizam-na sonoramente com ambientes claustrofóbicos de pós-industrialismo urbano, inspirados pela banda sonora original de Vangelis. Uma direção assumida que fez o compositor islandês Jóhann Jóhannsson abandonar o projeto.

Neste “Blade Runner”, a palavra “real” é tão útil como para os rappers guardiões da rua mas estas vielas não têm gatos à bulha por espinhas de carapaus. É um filme que se move entre o dilema do progresso e as ameaças colocadas perante a questão da identidade. Estarão os humanos preparados tanta inteligência artificial?

Há uma cena decisiva na história quando K se envolve a três com a “amante artificial” e uma sedutora real, por quem se deixou atrair na noite de Los Angeles. As duas fundem-se em uma só, insistindo na questão: queremos mas poderemos ter o melhor de dois mundos? Os telemóveis e a internet eliminaram a fronteira do corpo como fronteira para a comunicação. E agora, haverá outros limites físico para quebrar sem prejuízo para a espécie, isto é, sem pôr em risco a autencidade da emoção sofrida ou celebrada?

Em diálogo com Deckard, Niander Wallace, o Cristo em terra de binários, diz-lhe: “Tu ainda não sabes o que é sofrer. Mais vais saber.” No pingue-pongue constante entre o empírico e o científico, a história segue os passos do agente K, da reconstrução de uma memória implantada em laboratório e das recordações que a precedem. Há sucatas visionárias com as crianças que hoje fabricam ténis a troco de grãos de arroz, escravizadas pela indústria da programação e dos metais necessários para construir naves e uma Hollywood abandonada, da qual sobraram milhares de garrafas de whiskey, cenários de hedonismo e luxúria onde o prazer lembra, subtilmente, anos loucos de fruição…real.

Quando K encontra Deckard para o interrogar sobre o passado este reage mal. Os dois travam um combate, interrompido por um holograma de Elvis Presley. E haverá uma jukebox retro-futurista onde a moeda não só dá direito a ouvir Frank Sinatra entregue aos clássicos como ainda o ressuscita em ponto pequeno.

Para quem vive na utopia do perfecionismo, “Blade Runner 2049”, filme, cidade e futuro imaginário, é um teatro de sonhos mas nem a narrativa de Philip K. Dick se deslumbra com essa visão, nem o filme de Denis Vileneuve se apouca na excitação tecnológica. Quando Lieutenant Joshi (Robin Wright), a coordenadora dos comandos a que o agente K pertence avisa: “se não tens um muro, terás uma guerra ou uma matança”, está a replicar não uma espécie mas uma um homem e a sua fé. Adivinharam? Donald Trump e a sua ideologia totalitária e extremista.

“Blade Runner” situa essa barreira numa outra era da sociedade informação mas as questões essenciais reproduzem-se. Como o homem.

Artigo escrito por Davide Pinheiro / Parceria jornal i

 

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