Biblioteca pessoal: Os sacrifícios que estamos dispostos a fazer

10 OUTUBRO, 2017 -

Há quem gaste fortunas, quem abdique de trocar de casa ou quem seja expulso da sua por causa deles. Para alimentar a paixão pelos livros, há que fazer sacrifícios – se são grandes ou pequenos, depende da intensidade da obsessão

O prazer de ler e o prazer de possuir livros andam evidentemente de mãos dadas. Ainda assim, importa dizer que não são coincidentes.

Para quem gosta muito de ler há sempre os empréstimos ou as bibliotecas (conheço até uma pessoa que chegou a ler romances inteiros em livrarias nas suas horas de almoço – sem pagar, como é óbvio); já quem gosta de ter os livros por perto faz por constituir a sua própria coleção, à sua imagem e de acordo com os seus interesses. Para isso, normalmente tem de fazer alguns sacrifícios – se são maiores ou menores, só depende da intensidade da sua obsessão.

O primeiro e mais evidente sacrifício diz respeito ao dinheiro que se está disposto a gastar – ou a investir, consoante o ponto de vista. Por cada livro que se compra, há um jantar fora que vai deixar de se realizar ou uma peça de roupa que permanece na prateleira da loja.

Mas não fica por aí. Toda a gente sabe que um dos problemas dos livros é serem pesados – e de que maneira! O livro mais imponente da minha biblioteca pesa mais do que qualquer garrafão de água – perto de dez quilos. Recordo-me perfeitamente de o arrastar pelo Parque Eduardo VII abaixo (adquiri-o na Feira do Livro), levá-lo no autocarro e no caminho até casa, onde cheguei completamente exausto.

De resto, até os livros mais leves, se se acumulam, parecem chumbo. Quando recentemente mudei de casa, pude testemunhar como os musculados carregadores da empresa de mudanças suavam em bica sob o peso dos caixotes de livros, em particular daqueles que continham alguns dos 40 volumes da minha vetusta enciclopédia. Poucos minutos antes, os mesmos homens pareciam ter transportado móveis enormes com relativa facilidade…

É precisamente por isso que há quem coloque o cenário de uma mudança de casa completamente de parte. A perspetiva de ter de deslocar para outro local os milhares de volumes que se foram acumulando ao longo dos anos torna-se tão desencorajadora que o proprietário não quer ouvir falar de nada disso. Prefere viver quase soterrado como uma toupeira, com as pilhas de papel em risco de desmoronarem e a apoderarem-se de cada vez mais espaço, até quase não haver espaço para mexer um dedo. No limite, há quem acabe expulso da sua própria casa: o dono sai, os livros ficam. É o supremo sacrifício.

Outros optam pela coexistência até ao fim. Para os mais românticos – ou excessivos -, haverá coisa melhor do que viver sepultado entre as páginas dos seus livros?

Crónica escrita por José Cabrita Saraiva / Parceria jornal i

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