‘Between the World and Me’: o sonho branco

5 ABRIL, 2016 -

“Tolstoy is the Tolstoy of the Zulus – unless you find a profit in fencing off universal properties of mankind into exclusive tribal ownership.”

Ralph Wiley

Esta frase, resposta à pergunta de Saul Bellow sobre quem seria o Tolstói dos Zulus (grupo étnico africano), é citada no mais recente livro de Ta-Nehisi Coates, escritor e jornalista americano para a revista The Atlantic, que acaba de ser publicado em Portugal. Between the World and Meem Português traduzido como Entre Mim e o Mundo, obra publicado em 2015 nos EUA e consagrada com o National Book Award para não-ficção, acaba de ver a luz do dia nas livrarias portuguesas. Chega-nos pelas mãos da Ítaca, editora que merece ser aplaudida por ter trazido aquele que Toni Morrison, prémio Nobel da Literatura em 1993, declara ter preenchido um “vazio intelectual” que James Baldwin, provavelmente o mais aclamado escritor afro-americano, terá deixado após a sua morte, em 1987. Mas os elos de ligação entre Coates e Baldwin não se deixam ficar por aí.

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Entre Mim e o Mundo é, tal como The Fire Next Time de Baldwin, que é dirigido ao seu sobrinho de 14 anos, escrito como uma carta ao seu filho adolescente, Samori. Numa época marcada pela morte de vários corpos negros em situações ditas duvidosas às mãos da polícia, como as de Michael Brown em Ferguson e Eric Garner em Nova Iorque, e por um aumento do activismo da comunidade afro-americana, através, por exemplo, do movimento Black Lives Matter, o autor reflecte, através da sua própria história e das suas vivências, mas também da história da América. Não é uma mensagem de esperança que Coates transmite, enquanto relembra que, apesar de melhorias na vida dos afro-americanos, não há “cura” para o problema, que os direitos e as oportunidades continuam a não ser iguais. E que estas recentes mortes não são mais que a continuação de mortes que sempre existiram, como a de Prince Jones, amigo do autor que, desarmado, foi baleado e morto por um polícia à porta de casa da noiva.

O livro passa por vários momentos. Desde relatos da sua infância, onde vivia cada momento tentando sobreviver ao ambiente que o rodeava em Baltimore, à sua ida para a Howard University, que ele considera a Meca negra, e até a uma visita a Paris, onde foi quando era já pai, a sua primeira viagem para fora dos EUA. Foi lá que, pela primeira vez, sentiu um apelo a outras culturas, foi lá que compreendeu o porquê das suas aulas de Francês que, quando estava no sétimo ano, lhe tinham parecido tão ridículas, numa altura em que conseguia “pensar apenas na segurança imediata do meu corpo, a olhar para França como alguém podia olhar para Júpiter”. Também marcantes são momentos como aquele em que o autor fala de quando se apercebeu que, vítima de discriminação que era, também ela a praticava, nomeadamente contra homossexuais, quando, adolescente, insultava os outros chamando-lhes faggots e insultos do género. E aí é inegável ligar essa percepção novamente à obra de Baldwin, um dos responsáveis maiores por trazer para as bocas da América e do mundo a vida desses tais homossexuais negros, como era o caso do próprio.

Ta-Nehisi Coates ocupa grande parte do livro a narrar os seus passos na direcção de uma maior compreensão de qual o papel de um negro na América, e de quais as razões para que ele seja diferente do papel de um branco, e do que precisa um negro de fazer para sobreviver nesse papel. Apesar do seu tom assertivo e cru, é patente que nem o próprio admite como encerrada essa busca. Aquilo que tenta passar ao seu filho (e a nós) é, mais que uma compreensão desse papel, um meio para que possamos também nós procurá-lo, da mesma forma que ele o fez; no início achando que a resposta a esse problema estava encerrada na riqueza do mundo negro, quando procurava qual o Tolstói dos Zulus, até compreender que o seu “grande erro não residia em ter aceitado o sonho de outras pessoas, mas em ter aceitado os sonhos, a necessidade de escapar e a invenção do artifício da raça enquanto factos”. Esse sonho, o tão afamado sonho Americano, é, para Coates, um Sonho Branco erguido nas costas dos escravos negros, estes corpos o grosso da estrutura que suporta um país que se julga um continente inteiro. Tal é patente neste excerto:

“Eis o que gostaria que soubesses: na América destruir o corpo negro é uma tradição – é um legado. A escravatura não se resumia a tomar de empréstimo o trabalho de alguém de forma antisséptica – não é fácil levar a que um ser humano entregue o corpo contra a sua vontade mais elementar. E, assim, a escravatura tem de implicar a ira como hábito, bem como mutilações aleatórias, o rebentar de cabeças e de cérebros espalhados pelo rio quando o corpo tenta escapar. Tem de implicar uma regularidade industrial da violação. Não há maneira edificante de o dizer. Não tenho hinos de louvor nem velhos espirituais negros. O espírito e a alma são o corpo e o cérebro, que são destrutíveis – e é precisamente isso que os torna tão preciosos. E a alma não escapou. O espírito não levantou voo nas asas dos Evangelhos. A alma era o corpo que cultivava o tabaco, e o espírito era o sangue que regava o algodão, e ambos criaram os primeiros frutos do jardim americano. E os frutos eram mantidos em segurança com crianças a serem espancadas com lenha para o fogão, com ferros quentes a descascar a pelo como barbas de milho.”

Mas o sonho Americano não se limita pelas fronteiras geográficas do país, nem tão pouco o trabalho escravo. Sendo este sonho branco é inegável desligá-lo duma realidade também ela europeia. Tal permite que o livro não perca relevância quando transposto da realidade Americana para a nossa, portuguesa, europeia. Uma magnífica oportunidade para, não só explorar todos estes temas através da obra de Ta-Nehisi Coates, mas também uma oportunidade para os explorar (re)visitando a obra de James Baldwin.

Texto de: Miguel Fernandes Duarte

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