‘Better Call Saul’, a terceira temporada continua a honrar a memória de ‘Breaking Bad’

17 JULHO, 2017 -

Better Call Saul chegou em 2015 para tentar preencher o espaço que ficou vazio em todos os fãs de Breaking Bad aquando do final da série criada por Vince Gilligan. Bob Odenkirk regressou como Jimmy McGill, na génese do advogado com recursos e métodos questionáveis Saul Goodman, para dar seguimento a uma narrativa e a um estilo bem característicos. A terceira temporada, original da Netflix já disponibilizada na plataforma, assenta essencialmente no desenvolvimento de personagens centrais, mas acaba por trazer de volta caras bem conhecidas do universo de Breaking Bad, com o carismático Gustavo Fring, representado por Giancarlo Esposito, a ser a principal atracão aqui.

O tom deste spinoff tem vindo a tornar-se mais duro ao longo das últimas duas temporadas, passando cada vez mais para segundo plano as voltas e esquemas que Jimmy vai formulando para contornar a lei, puxando para destaque tanto as relações pessoais e familiares da personagem central como os jogos de poder entre cartéis, que caracterizava também Breaking Bad. Os momentos mais memoráveis, tanto pela performance como pela carga emocional que transmitem, têm como foco Jimmy e o seu irmão Chuck, dando continuidade à confissão de Jimmy que terminou a segunda temporada. O bom regresso de um frio e pragmático Gustavo Fring – de quem apenas lamentamos não ver mais – indiciava desde o começo que haveria um foco maior nas lutas entre as fações existentes, que acaba por ficar claro em episódios muito dedicados a esta vertente como “Sabrosito” (S03E04).

O início lento com “Mabel (S03E01), que se mantém nesse ritmo por mais um par de episódios, serve como um prólogo para o que se seguirá, criando a base para a montanha russa que vai ser o estado individual de cada interveniente até ao final. Tal como acontecia na origem de Better Call Saul, também aqui conseguimos cedo perceber que nenhuma personagem estará por cima, tanto pelo poder que detém como pelo seu estado emocional, por muito tempo. Para acompanhar cada subida e descida nesta narrativa dispersa, mas consciente dos seus objetivos, somos brindados com pormenores deliciosos para momentos que marcam o futuro de cada uma das personagens aqui repetentes. Desde as referências mais óbvias, como uma primeira aparição de um energético e cativante Saul Goodman, ainda que noutros moldes, em “Off Brand” (S03E06) a preciosismos como o sino que conseguimos ouvir no final de uma cena com Hector Salamanca em “Sabrosito” (S03E04), Better Call Saul mantém e honra a memória de Breaking Bad a cada episódio.

Seja do fundo de uma piscina ou por entre uma série de guitarras, os planos de realização continuam a ser um símbolo da série de Gilligan e Gould. Há um cuidado evidente com o modo como cada cena é captada, colocando o foco em pontos pouco comuns e permitindo que a cinematografia possa contar uma história complementar da narrativa apresentada. As técnicas identificadas atingem o seu expoente máximo no intenso final de temporada, em sensivelmente dois minutos que encerram o episódio “Lantern” (S03E10). O jogo entre os focos de luz e as várias sombras que abundam em determinados ambientes dão ênfase ao tom mais negro que vai envolvendo progressivamente a terceira temporada de Better Call Saul.

Jimmy McGill regressa para dar mais um passo rumo à personagem de Saul Goodman, mas acaba por mergulhar muito mais no universo de Breaking Bad do que nas anteriores temporadas. Após uma falsa partida nos primeiros episódios, a temporada arranca definitivamente para oferecer alguns dos momentos mais fortes até este ponto, aproveitando-se do leque alargado de personagens que reuniu, mas sempre com o principal foco em Jimmy e Chuck. As técnicas tão bem utilizadas e elogiadas continuam a ser uma presença habitual e um dos pontos fortes na série e as referências são abundantes, mas é importante que Better Call Saul consiga manter a sua identidade sem cair na tentação de cada vez mais procurar entrar na história que já nos foi passada aos olhos de Walter White. Até lá, há ainda muito caminho que pode e deve ser percorrido, sendo que existe já confirmação de que a quarta temporada nos chegará em 2018 para dar continuidade a um brilhante final desta terceira.Texto de Sandro Cantante

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